E veio um menino judeu, o chamaram de Jesus. Artigo de Gianfraco Ravasi

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20 Dezembro 2021

 

"As aventuras bastante dramáticas deste recém-nascido, imediatamente forçado a se tornar um refugiado como os seus pais, após ter nascido em um ambiente paupérrimo, são narradas nos chamados 'Evangelhos da Infância', quatro capítulos (os dois primeiros de Mateus e Lucas) para um total de 180 versículos, que no entanto geraram uma bibliografia sem fim não apenas exegética e uma assombrosa incidência na história da arte ao longo dos séculos, cronologicamente marcados justamente por aquele modesto nascimento".

 

O artigo é do cardeal italiano Gianfranco Ravasi, prefeito do Pontifício Conselho para a Cultura, publicado em Il Sole 24 Ore, 19-12-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo. 

 

No texto grego do evangelista Lucas há um total de 18 palavras, incluindo os artigos e os advérbios:

E quando os oito dias foram cumpridos, para circuncidar o menino, foi-lhe dado o nome de Jesus" (2,21).

Mateus é ainda mais sintético: após o nascimento do pequeno, José, o pai legal, "pôs-lhe por nome Jesus" (1,25). Este é o primeiro ato cívico público do filho de Maria, mulher judia e, portanto, ele também judeu: a circuncisão e a imposição do nome. Assim, pensamos no nosso Natal em apresentar esta criança judia bastante especial na história de toda a humanidade, a quem foi dado um nome que não raro, baseado na raiz hebraica jasha', "salvar", que também gera os nomes Josué, Oséias e até mesmo Isaías.

Ele faz sua entrada oficial na comunidade de origem por meio do rito fundamental de agregação de ser circuncidado (em hebraico mûl, em grego peritémein) ao prepúcio e, portanto, à fonte da vida. Já com o pai ideal dos hebreus, Abraão, o valor simbólico desse ato havia sido explicitado, aliás praticado por outras culturas e religiões como o próprio Islã, embora em diferentes idades, e até mesmo em âmbito "secular" por razões de higiene ou médicas. No Gênesis, porém, não há hesitação em afirmar que tal gesto é um sinal da aliança entre Israel e Deus e que deve ser praticado no oitavo dia de nascimento (17,10-12).

Como o apóstolo Paulo vai reiterar, Jesus “nasceu da descendência de Davi segundo a carne ... e dos israelitas veio Cristo segundo a carne” (Rm 1,3; 9,5). Por isso - e caberá ao Concílio Vaticano II repeti-lo - Jesus Cristo é e será judeu para sempre. As aventuras bastante dramáticas deste recém-nascido, imediatamente forçado a se tornar um refugiado como os seus pais, após ter nascido em um ambiente paupérrimo, são narradas nos chamados "Evangelhos da Infância", quatro capítulos (os dois primeiros de Mateus e Lucas) para um total de 180 versículos, que no entanto geraram uma bibliografia sem fim não apenas exegética e uma assombrosa incidência na história da arte ao longo dos séculos, cronologicamente marcados justamente por aquele modesto nascimento.

Vamos agora escolher seguir apenas a trama estritamente judaica dos primeiros dias desse recém-nascido. É Lucas quem nos fala sobre outro evento ritual (2, 22-40). O menino tem apenas 40 dias de idade e seus pais se mudam de Belém para a vizinha Jerusalém "para darem oferta segundo o disposto na lei do Senhor". O próprio evangelista remete explicitamente a dois textos bíblicos: o primeiro sobre o resgate do primogênito que por lei era consagrado e entregue a Deus (Êxodo 13,2); o segundo que determina o sacrifício animal para a readmissão plena da mãe na comunidade, após o período de "impureza" sacra ligada ao parto (Levítico 12,8).

Imaginemos, portanto, esta pequena família que adentra os suntuosos espaços do templo erguido por Herodes a partir de 19 a.C. Maria se dirige para o átrio reservado às mulheres, diante da chamada “Porta de Nicanor”, do nome do benfeitor, um judeu da diáspora de Alexandria do Egito, que a mandou construir e decorar. Um cordeiro e uma pomba eram prescritos como matéria sacrificial; para os pobres, a oferta do cordeiro demasiado caro era suspensa, substituindo-a por um par de rolas ou pombas. E é isso que o modesto casal de Maria e José pode oferecer. Até aqui, o ato ritual. Mas a narrativa dá uma guinada com a entrada de duas figuras judaicas bastante inesperadas, nas quais Lucas personifica simbolicamente a expectativa messiânica do fiel Israel.

O primeiro personagem é "um homem justo e temente a Deus" chamado Simeão, que entoa um doce curto salmo, que se tornou famoso por seu início na versão latina de São Jerônimo, Nunc dimittis, usado na liturgia católica como o hino das Completas, a oração da noite: "Agora, Senhor, despedes em paz o teu servo, Segundo a tua palavra; Pois já os meus olhos viram a tua salvação, A qual tu preparaste perante a face de todos os povos; Luz para iluminar as nações, E para glória de teu povo Israel"(2, 29-32).

O romancista vitoriano Anthony Trollope coloca na boca do protagonista de The Warden (O guardião), o clérigo e violoncelista Mr. Harding, agora no fim de sua vida, justamente as palavras de Simeão, enquanto ele se abandona "à loucura de seus velhos dedos" puxando das cordas de seu instrumento "um gemido muito baixo, de curta duração, em intervalos". O Nunc dimittis é, na verdade, um hino festivo de esperança cumprida, cantado enquanto Simeão segura o Jesus recém-nascido nos braços.

Imediatamente a seguir, no entanto, a voz deste profeta judeu ideal, cristão ante litteram aos olhos do evangelista, muda de tom e se torna sombria proferindo um oráculo severo dirigido a Maria: "Eis que este é posto para queda e elevação de muitos em Israel, e para sinal que é contraditado (E uma espada traspassará também a tua própria alma); para que se manifestem os pensamentos de muitos corações" (2, 34-35).

Com essas palavras, Lucas vê antecipado o destino de Cristo, “sinal de contradição”, como o próprio Jesus quando adulto dirá: “Cuidais vós que vim trazer paz à terra? Não, vos digo, mas antes dissensão! " (12.51).

A partir do século XVI, o símbolo da espada que trespassa a alma da mãe se tornará a base para a estatuária mariana da Mater dolorosa com as sete espadas no peito, sinal de plenitude no sofrimento. Mas, depois da tenebrosa profecia de Simeão, surge a outra figura que mencionamos: é uma terna e serena idosa de 84 anos, Ana, cuja descendência também é oferecida (filha de Fanuel e da tribo setentrional de Asher). A sua presença constante e orante no templo, como ainda hoje acontece a muitas fiéis idosas, é como um sorriso, enquanto "ela dava graças a Deus, e falava dele a todos os que esperavam a redenção em Jerusalém" (2, 38).

A cortina cai sobre o pequeno judeu Jesus e Lucas observa que “o menino crescia e se fortalecia em espírito, cheio de sabedoria e a graça de Deus estava sobre ele” (2,40). O evangelista acompanhará essa infância, esperando o bar-mitzvah, na prática a “confirmação” judaica, sinal de maior idade (12 anos na época, hoje 13), ato marcado por uma reviravolta inesperada, que deixamos nossos leitores descobrir nos versículos 41-52 de c. 2 do Evangelho de Lucas.

 

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