29 Novembro 2025
Especialistas sugerem que o tédio tem uma função e que o uso excessivo do celular pode estar sufocando a criatividade que surge durante os momentos de lazer.
A reportagem é de Rodrigo Santodomingo, publicada por El País, 27-11-2025.
Frequentemente descartado como sintoma de vidas monótonas ou pessoas improdutivas, o tédio tem seus defensores. Por exemplo, Byul-Chung Han, recente ganhador do Prêmio Princesa das Astúrias de Humanidades, considera esse sentimento o “ápice do relaxamento mental”. Ou Bertand Russell, que em sua obra-prima, A Conquista da Felicidade, publicada em 1930, fez um apelo contra a febre do entretenimento perpétuo com um alerta final: “Uma geração que não consegue suportar o tédio será uma geração de pessoas pequenas”. Com quase um século de diferença, ambos os filósofos veem o tédio como um terreno fértil para a imaginação. Uma pausa — talvez desconfortável, mas necessária — que nos permite pensar além da inércia e da pressa.
Sem elevar o tédio ao altar da inspiração criativa, quatro pesquisadores que o estudam concordam que ele cumpre uma função básica: estimular a mudança. Provar que o tédio tem um propósito evolutivo, admitem, parece difícil. Mas há fortes indícios. "Podemos observar o que ele produz e especular se, em um passado remoto, havia uma boa razão para sua existência, no sentido de nos tornar mais aptos", observa Andreas Elpidorou, que em seu livro A Anatomia do Tédio (ainda não traduzido para o espanhol) detalha os muitos experimentos que apontam para essa lógica evolutiva, que ele considera bastante razoável.
Corinna Martarelli, professora da UniDistance, na Suíça, cita um estudo de 2016 da Universidade de Princeton como prova convincente de que o tédio funciona como um "sinal adaptativo". Os autores analisaram a tendência humana de "explorar" diante da falta de "informação valiosa". Esse impulso transcende eras, sendo aplicável tanto às selvas pré-históricas quanto aos humanos contemporâneos que ruminam e se remexem em seus sofás. James Danckert, coordenador de um laboratório sobre a psicologia do tédio na Universidade de Waterloo, no Canadá, argumenta que esse é mais um ponto a favor do tédio útil. Parece óbvio para aqueles cujos animais de estimação já rasgaram suas meias: os animais também ficam entediados. E, na falta de atividades estimulantes, eles também espantam moscas com o rabo.
Um estudo marcante nessa área descobriu que 67% dos homens e 25% das mulheres, após 15 minutos sem qualquer estímulo, preferiram se autoaplicar um choque elétrico a continuar sem fazer absolutamente nada. Quinze minutos a sós com seus pensamentos foram suficientes para fazê-los dizer "chega". Para efeito de comparação, Danckert menciona experimentos com visons e camundongos que, após um longo período em um "ambiente sem estímulos", ficaram tão desesperados que tomaram a iniciativa. Eles optaram por farejar o cheiro de um predador. Expuseram voluntariamente seus focinhos a correntes de ar, algo que os roedores detestam. Os seres humanos também tendem à automutilação quando confrontados com a inatividade.
O celular apaga a faísca
Martarelli destaca que essa exploração, impulsionada pelo tédio, deve ser direcionada para a "busca por significado". Não se trata de mergulhar em dúvidas existenciais assim que um filme não nos cativa, mas sim de não querer aniquilar o tédio com tarefas triviais. Como usar nossos celulares.
O smartphone é o passatempo infinito da nossa época, ao qual recorremos frequentemente simplesmente para preencher as horas. Será que isso está inibindo a própria essência do tédio como motor de transformação? Josefa Ros, pesquisadora espanhola e fundadora da Sociedade Internacional para o Estudo do Tédio, argumenta que os atuais hábitos de consumo digital "dificultam que aproveitemos a oportunidade que o tédio oferece para imaginar mudanças".
Para ela, o tédio é sempre doloroso, pois "aumenta os níveis de excitação cortical", e por isso tendemos a "silenciá-lo buscando soluções rápidas". Nossos telefones contêm um catálogo infinito de possíveis escapes, alguns significativos para nós; outros, meras distrações vazias nas quais mergulhamos sem muita reflexão, simplesmente para fazer alguma coisa.
Ao pegarmos nossos celulares, a chave — segundo James Danckert — está em “gerenciar nosso tédio intencionalmente, escolhendo em vez de sermos escolhidos”. Aquele pequeno retângulo de plástico, vidro e metal pode conter de tudo, desde ensaios profundos sobre metafísica até milhares de vídeos fugazes de pessoas tentando virar uma garrafa de pé. Na esfera digital ou além dela, uma certa pausa, um grau de “tolerância à dor” que o tédio traz, acrescenta Ros, pode nos ajudar a perceber que “a maioria dos cenários possíveis nos chega como opções predeterminadas pela indústria do entretenimento de massa”.
O uso inconsciente de celulares atinge seu ápice na rolagem infinita incentivada pelas redes sociais. Segundo um estudo publicado no ano passado, essa busca frenética por novos estímulos pode, paradoxalmente, aumentar o tédio. Um clássico ciclo vicioso: ficamos entediados, recorremos ao TikTok ou Instagram, ficamos ainda mais entediados, rolamos a tela sem rumo... “Quando fico cínico”, diz Andreas Elpidorou, “tendo a pensar que [as gigantes da tecnologia] querem que fiquemos um pouco entediados, mas não muito, não profundamente entediados porque senão pararíamos completamente de ser ativos, mas o suficiente para que estejamos constantemente focando nossa atenção em algo novo.”
Para Elpidorou, o uso semirrobótico da internet nos impede de experimentar um tédio menos ansioso e mais produtivo, proveniente do dolce far niente, o prazer de não fazer nada. “Há um contraste enorme [sem precedentes em outros tempos] entre o bombardeio contínuo de mecanismos para capturar nossa atenção e, digamos, um deserto de atividades. Isso nos faz sentir mal e, ao mesmo tempo, querer continuar fazendo a mesma coisa.”
Esse padrão viciante se assemelha a comportamentos potencialmente prejudiciais quando os adotamos como uma fuga do tédio, sem questionar o que realmente o desencadeia e o que poderíamos fazer para superá-lo a longo prazo. No mundo analógico, o uso de substâncias, a compulsão alimentar ou as compras impulsivas também ameaçam interromper a introspecção que nos permite, em momentos banais, vislumbrar uma existência mais plena. Em última análise, o tédio nos desafia sem oferecer respostas. "É um sinal neutro que indica que algo não nos interessa ou não faz sentido; decidir o que fazer a respeito cabe a nós", explica Corinna Martarelli.
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