Flotilha, plano Meloni-Igreja. A primeira-ministra e o Vaticano negociam ajudas a Gaza. "Entreguem-nas no Chipre"

Foto: Anadolu Ajansi

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26 Setembro 2025

A mediação de Giorgia Meloni começa na noite de Nova York, quando o dia de trabalho nas Nações Unidas está quase no fim. Os primeiros telefonemas são com o Ministro das Relações Exteriores, Antonio Tajani. Toma-se a decisão sobre o que fazer e qual resposta dar a Israel, após o ataque à Flotilha Global Summud. O vocabulário da diplomacia oferece poucas e simples palavras, e esta é a parte mais simples, com uma condenação certa para Israel. As coisas se complicam em relação a como sair dessa situação.

A reportagem é de Ilario Lombardo, publicada por La Stampa, 25-09-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.

Como costuma acontecer em casos similares, os líderes militares e de segurança são alertados, especialmente porque há parlamentares de partidos da oposição a bordo, rumo a Gaza. Guido Crosetto envia a fragata Fasan em defesa das embarcações, mas imediatamente surge a questão de até onde pode ir no mar. Israel se recusa a ouvir razões: não permitirá que um navio militar entre em suas águas territoriais. Mas também não quer que os ativistas entrem. Netanyahu foi claro sobre isso quando Meloni o contatou alguns dias atrás para apurar o quanto de concreto havia nos tons ameaçadores dos israelenses. Continuava válida a proposta, rejeitada pela Flotilha, de deixar as ajudas para a população de Gaza no porto de Ashkelon.

O ataque reafirma as linhas vermelhas fixadas por Tel Aviv e obriga o governo a encontrar outra solução. Meloni a anuncia do Hotel Peninsula, em Nova York: "Propomos levar as ajudas para Chipre, para o Patriarcado latino de Jerusalém, que assume a responsabilidade de entregá-las. Existe o acordo do governo israelense, do governo cipriota, e agora estamos apenas aguardando uma resposta da Flotilha."

Meloni revela o outro protagonista importante das negociações. O Ministério do Exterior e o Palácio do Governo consideram fundamental o canal ativado com o Vaticano. Liderando as conversações estão o chefe dos bispos italianos, o Cardeal Matteo Zuppi, figura de destaque nas triangulações diplomáticas, e o Cardeal Pierbattista Pizzaballa, patriarca da diocese de Jerusalém. A esperança do governo é que sua ação e o medo vivenciado durante a noite quebrem as resistências da tripulação. Pelo menos dos parlamentares que, assustados, ligaram para Ministério do Exterior ("aterrorizados", segundo o ministério). A notícia do ataque pega a delegação do governo italiano na ONU até certo ponto de surpresa. O risco de um incidente foi considerado extremamente alto desde o primeiro dia de navegação, um receio alimentado pelos alertas informais vindos de Israel durante os repetidos contatos diplomáticos. A primeira-ministra confidenciou suas preocupações aos seus assessores e, em uma rodada de ligações com os líderes da oposição, havia tentado o caminho de uma dissuasão final.

As câmeras apontadas para Nova York permitem que ela lance um novo apelo e reitere o que realmente pensa sobre a missão humanitária: que "se trata de uma iniciativa tomada não para entregar ajuda, mas para criar problemas para o nosso governo." Segundo a primeira-ministra, a situação poderia agravar-se se os ativistas viessem a rejeitar a última proposta de mediação e forçassem o bloqueio naval: "Entrariam em um teatro de guerra, e aí o que nós faríamos? Enviaríamos navios militares contra Israel?" É também por isso que Tajani, em concordância com Meloni, telefonou ontem para Elly Schlein, Giuseppe Conte e Nicola Fratoianni, os líderes dos três partidos — Pd, M5S e Avs — que têm um próprio parlamentar a bordo.

A ansiedade sobre o destino da Flotilha está ofuscando outra revelação feita pela primeira-ministra, sempre sobre Gaza. Explica que "conversou várias vezes" com o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, autor de uma proposta para criar uma autoridade independente de transição internacional que envolveria os países árabes e administraria Gaza sem a presença do exército israelense e desarmando o Hamas. É um plano apoiado pelo governo estadunidense e que a centro-direita, por orientação do Palácio de Governo, usou como base para a moção que será apresentada ao Parlamento. Dessa forma, Meloni está tentando se livrar das acusações dos adversários e de grande parte da opinião pública de permanecer impotente diante do massacre na Faixa e indiferente à ação da França, do Reino Unido e do Canadá, que, juntamente com outros países, anunciaram seu reconhecimento da Palestina.

O envolvimento dos países árabes é a sustentação do arranjo de Blair, que em Nova York também se encontrou com Matteo Renzi, líder do Italia Viva, uma das figuras mais críticas da primeira-ministra: "Em uma das últimas conversas que tive com o ex-primeiro-ministro britânico", relata Meloni, "falamos justamente sobre a possibilidade de organizar um encontro com os países árabes. Precisamos deles para uma futura gestão da Faixa."

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