29 Agosto 2025
Material traz uma síntese a partir de 43 indicadores selecionados.
O documento, intitulado Relatório do Observatório Brasileiro das Desigualdades, é organizado pelo Pacto Nacional pelo Combate às Desigualdades e coordenado por Clemente Ganz Lucio, que enviou o material ao Instituto Humanitas Unisinos - IHU.
Reproduzimos a seguir, o Sumário Executivo do documento:
Apesar de avanços pontuais, desigualdade de renda ainda predomina no Brasil
Em 2024, o rendimento médio real de todas as fontes no Brasil atingiu R$ 3.066, crescimento de 2,9% frente a 2023. O avanço foi mais expressivo entre homens (3,1%) do que entre mulheres (2,6%), mantendo a disparidade: elas recebem, em média, apenas 73% do rendimento masculino.
Entre os recortes por cor e raça, as mulheres negras registraram o maior crescimento no rendimento: 5,2%, superando tanto a média nacional quanto o avanço registrado entre os homens não negros (3,0%). Esse resultado representa um sinal positivo de valorização, ainda que insuficiente diante das desigualdades estruturais.
Apesar disso, permanecem na base da pirâmide de rendimentos: recebem R$ 2.008, valor equivalente a 43% do rendimento dos homens não negros, que alcança R$ 4.636. Em 2024, a taxa de desocupação atingiu 6,6% da força de trabalho do país, uma redução de -1,2 p.p. em relação a 2023. A queda na taxa de desocupação foi maior para as mulheres, que saiu de 9,5% em 2023 para 8,1% em 2024 (-1,4 p.p.), e para a população negra, de 9,1% em 2023 para 7,6% em 2024 (-1,5 p.p.).
Assim, considerando as características dos ocupados segundo sexo e cor ou raça, verifica-se uma redução na taxa de desocupação em todos os segmentos populacionais e em todas as regiões do país. A concentração de renda também impressiona. Em 2024, o 1% mais rico ganhou, em média, 30,5 vezes mais que os 50% mais pobres, com a maior disparidade no Nordeste (32,0) e a menor no Sul (23,3). A desigualdade diminuiu levemente em relação a 2023, mas as diferenças permanecem elevadas em todas as regiões.
O sistema tributário aprofunda o problema. Entre 2017 e 2018, as famílias 10% mais pobres destinaram 26,4% de sua renda ao pagamento de impostos, contra 19,2% das famílias 10% mais ricas. A alta carga de tributos indiretos torna o perfil tributário brasileiro altamente regressivo, penalizando proporcionalmente mais os mais pobres
Desigualdade racial e de gênero ainda marca o Brasil em educação, saúde e política
As desigualdades raciais e de gênero seguem evidentes no Brasil, afetando desde o acesso à educação até a participação política e as taxas de mortalidade. Crianças não negras têm maior acesso à creche do que crianças negras — realidade presente em quase todas as regiões, exceto no Nordeste e Centro-Oeste. As regiões Sul e Sudeste lideram no percentual de matrículas nas creches.
Na escolarização, a população não negra apresenta taxas mais altas em todas as regiões, com destaque para a desvantagem dos meninos negros, que têm os menores índices. No ensino superior, mulheres — especialmente as não negras — superam os homens, mas os estudantes negros continuam sendo uma minoria, especialmente os homens negros. Na saúde, a taxa de óbitos por causas evitáveis aumentou entre 2021 e 2023, com homens e pessoas negras concentrando os piores resultados. A mortalidade até os 44 anos é mais alta entre homens negros, enquanto mulheres não negras vivem mais, com quase 80% dos óbitos após os 65 anos.
A desigualdade se reflete também na política: negros, que são 55,9% da população, ocupam apenas 35,1% das cadeiras estaduais; mulheres, apenas 18,2% nos legislativos municipais. Na população prisional, apesar das regiões Sul e Sudeste registrarem menor participação da população negra, elas concentram maiores desigualdades relativas, com maior população negra presa.
Desigualdades Regionais no Brasil: persistem as disparidades sociais, ambientais e de acesso a direitos
Apesar de alguns avanços, os indicadores sociais revelam que o Brasil segue marcado por desigualdades regionais, afetando diretamente saúde, educação, segurança e condições de vida. No caso da violência letal contra jovens de 15 a 29 anos, a taxa nacional caiu de 49,7 por 100 mil habitantes em 2021 para 45,8 em 2023. Contudo, Nordeste e Norte continuam muito acima da média — 78,1 e 60,7, respectivamente —, enquanto Sudeste (26,0) e Sul (29,9) registram índices bem menores.
Essas diferenças também se refletem na educação e na saúde. O Centro-Oeste e o Sul do país registram as maiores taxas de escolarização no Ensino Superior. No acesso à educação infantil, enquanto apenas 18,8% das crianças de 0 a 3 anos frequentam creches no Norte, no Sul esse percentual chega a 42,9%. A mortalidade infantil é significativamente mais alta no Norte e no Nordeste, em comparação às demais regiões. Além disso, essas duas regiões concentram a maior proporção de mortes entre jovens, enquanto no Sul e no Sudeste os óbitos se concentram principalmente em faixas etárias mais avançadas.
A desigualdade também se reflete na segurança alimentar, evidenciando diferenças no acesso a alimentos de qualidade para diferentes grupos. Em 2023, 17,4% da população do Norte vivia em lares com insegurança alimentar moderada ou grave, contra 4,7% no Sul. A desnutrição atingiu 3,8% das crianças até 5 anos de idade, sendo mais grave entre indígenas — no Norte, 9,4% das crianças indígenas sofriam de insuficiência de peso.
Nas regiões Norte e Nordeste, as habitações precárias predominam; no Sudeste, o déficit habitacional está mais ligado ao peso excessivo dos aluguéis. O acesso à água potável também expõe desigualdades: enquanto São Paulo atende 96,5% da população, no Pará o índice é de apenas 54,1%.
Até mesmo nas emissões de CO2 há contrastes: entre 2019 e 2023, o Norte reduziu sua pegada de carbono, enquanto Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste aumentaram suas emissões — reforçando que as disparidades no país extrapolam a renda e se espalham por múltiplas dimensões sociais e ambientais.
Acessse o documento na íntegra aqui.
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