03 Abril 2025
"Nesse estado, o Papa Francisco se torna, como lembrou um bispo nestes dias, também pensando em João Paulo II, o protagonista da mais nobre 'catequese do sofrimento', o catequista dos catequistas a quem se pode dirigir uma devoção cega e uma admiração incondicional", escreve Marco Marzano, sociólogo italiano, em artigo publicado por Domani, 01-04-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
A enorme apreensão popular em relação à saúde do Papa Francisco durante todos os dias de sua hospitalização, juntamente com o júbilo irreprimível que acompanhou seu reaparecimento em público e seu retorno a Santa Marta após a alta hospitalar, sugere-me algumas considerações sobre a relação entre a Igreja Católica e a sociedade italiana.
O conceito dominante na análise dessa relação é, há alguns anos, o de secularização. Para medir seu nível, os estudiosos até agora sempre pesaram os indicadores relacionados aos comportamentos religiosos: ir à missa aos domingos, batizar, comungar e confirmar os filhos, frequentar aulas de religião na escola, seguir uma carreira clerical ou ir para conventos e seminários, e assim por diante.
Observando os dados sobre essas condutas, temporada após temporada nas últimas décadas, constatou-se a presença de uma tendência constante de queda, de uma redução do apego da população italiana à religião católica. Cada geração, concluiu-se, é menos católica do que a que a precedeu.
É verdade, mas a secularização não pode ser medida somente dessa forma. Todos os que mencionei são, de fato, comportamentos “participativos”, ou seja, relacionados à decisão das pessoas de tomar parte nas atividades de uma organização. No entanto, a participação está em declínio em todos os lugares, em todas as esferas da vida social, na política, mas também na atividade sindical e em todos os lugares onde era bastante presente até a década de 1970.
Da mesma forma (talvez até em menor grau), está em crise na esfera religiosa. Mas isso não quer dizer que o catolicismo esteja morto ou morrendo, assim como a política não está morta apenas porque os partidos se esvaziam. Na primeira frente, basta observar o quanto a atividade de alguns jovens sacerdotes-influenciadores é seguida nas redes sociais para perceber que a igreja está viva e bem.
Nesse cenário, o culto ao papa, a veneração pelo sucessor de Pedro, ocupa um espaço central e fundamental. O papa é, por reconhecimento quase unânime e em medida não decrescente, mas crescente, uma figura paternal e sagrada, à qual são reconhecidos direitos excepcionais e únicos.
Por exemplo, o de permanecer em sua função até o último dia de sua vida, mesmo no limiar dos noventa anos, inválido, doente, áfono e incapaz de viajar ou receber visitantes. O que, no caso recente de Joe Biden, parecia um apego incompreensível ao cargo, no caso de Francisco é um sacrifício sobre-humano feito para a salvação da humanidade e o bem da comunidade eclesial.
O papa permanece no cargo também agora, continua sendo o pai severo, mas afetuoso, a quem se deve olhar com devoção, mesmo que completamente debilitado e claramente impossibilitado de trabalhar e tomar decisões.
Nesse estado, o Papa Francisco se torna, como lembrou um bispo nestes dias, também pensando em João Paulo II, o protagonista da mais nobre “catequese do sofrimento”, o catequista dos catequistas a quem se pode dirigir uma devoção cega e uma admiração incondicional.
No caso dele (e hoje estamos falando de Francisco, mas um discurso semelhante se aplica aos seus antecessores mais recentes), a realidade racional, ou seja, o fato de ele ser um monarca à frente de uma das maiores, das mais globais, ricas e poderosas organizações do mundo, perde toda a relevância diante do aspecto simbólico, do fato de que ele representa toda a humanidade ao expressar, em uma forma pura e inacessível aos comuns mortais, os aspectos mais nobres e grandiosos, a vontade de paz, mas também a sinceridade, a amizade, a gentileza, a honestidade e até mesmo a simpatia.
Até mesmo seus inimigos, que se encontram especialmente dentro da igreja, reconhecem a ele um status mais elevado, embora claramente negativo e beirando o infernal e o demoníaco. Na forma que está cada vez mais assumindo, a figura do pontífice representa o instrumento mais formidável para fortalecer o catolicismo e a igreja e para projetá-los no futuro. Porque une tantas pessoas, porque convence profundamente até mesmo aqueles que abandonam as igrejas ou até mesmo afirmam não crer em Deus. Eles não creem em Deus, mas acreditam no papa, talvez dizendo a si mesmos que sua admiração se restringe ao homem ou que está ligada às coisas que o papa diz (ou não diz).
Na sociedade contemporânea, a importância de ter um líder com uma imensa reputação, capaz de se tornar um símbolo e um mito, é um recurso precioso e talvez insubstituível. A Igreja Católica tem a sorte de dispor desse imenso tesouro e de poder, por meio dele, difundir sua mensagem e seus valores (inclusive os não negociáveis, ainda no centro da pregação de Francisco).
É uma vantagem imensa da qual ninguém entre a maioria católica pode e quer abrir mão. E é razoável que seja assim.