A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo Evangelho de João 8,1-11 que corresponde ao 5° Domingo de Quaresma, ciclo C do Ano Litúrgico. O comentário é elaborado por Ana Maria Casarotti, Missionária de Cristo Ressuscitado.
Naquele tempo, Jesus foi para o monte das Oliveiras. De madrugada, voltou de novo ao Templo. Todo o povo se reuniu em volta dele. Sentando-se, começou a ensiná-los. Entretanto, os mestres da Lei e os fariseus trouxeram uma mulher surpreendida em adultério. Colocando-a no meio deles, disseram a Jesus: "Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério. Moisés na Lei mandou apedrejar tais mulheres. Que dizes tu?" Perguntavam isso para experimentar Jesus e para terem motivo de o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, começou a escrever com o dedo no chão. Como persistissem em interrogá-lo, Jesus ergueu-se e disse: "Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra". E tornando a inclinar-se, continuou a escrever no chão. E eles, ouvindo o que Jesus falou, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos; e Jesus ficou sozinho, com a mulher que estava lá, no meio do povo. Então Jesus se levantou e disse: "Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?" Ela respondeu: "Ninguém, Senhor". Então Jesus lhe disse: "Eu também não te condeno. Podes ir, e de agora em diante não peques mais".
Neste domingo, a liturgia nos convida a ler o texto do Evangelho a partir da presença de Jesus no Monte das Oliveiras, que é um lugar de oração, onde ele foi em algumas ocasiões com os discípulos, um lugar de encontro com o Pai. De acordo com a história, Jesus passa a noite inteira no Monte das Oliveiras e, de manhã cedo, vai ao Templo para ensinar as pessoas que querem ouvi-lo. Sentando-se, começou a ensiná-los. Como todos os mestres, Jesus se senta e, no meio do Templo, começa a ensinar; ele comunica a novidade que tem para esse grupo de pessoas sedentas de sua Palavra, onde encontram paz, esperança, onde se sentem acolhidas exatamente como são. Mas os mestres da Lei e os fariseus – com os quais as tensões estavam aumentando – irrompem e trouxeram uma mulher surpreendida em adultério.
Em poucas palavras, eles narram uma situação muito violenta na qual confrontam Jesus. Ela não é ninguém, não tem voz, não tem nome, é uma mulher – que eles “descobrem” – em flagrante adultério. É possível pensar que eles já a conheciam, ou talvez tenham se aproveitado dela em outras ocasiões, e que, nesse caso, eles a usam para forçar Jesus a condená-la publicamente. Eles arrastam a mulher até Jesus, humilhando-a publicamente para deixar claro que – de acordo com a Lei de Moisés – sua atitude merece a morte. Uma cena cheia de acusações, vitupérios, gritos de reprovação diante da qual eles confrontam Jesus: "Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério. Moisés na Lei mandou apedrejar tais mulheres. Que dizes tu?"
É uma atmosfera tensa, em que a culpa, a agressão e a violência dominam a cena. Os fariseus e os mestres da Lei estão procurando uma sentença dada por Jesus que não possa contradizer a Lei que ordena o apedrejamento de tais atitudes. Perguntavam isso para experimentar Jesus e para terem motivo de o acusa. Eles não se importam com a mulher e sua morte, porque isso já está determinado, mas, mais uma vez, procuram uma maneira de acusá-lo. Eles sabem, porque o viram, que ele está morto. Eles sabem, porque já o viram e o confrontaram em várias ocasiões, que Jesus sempre defende os pobres, os oprimidos, os doentes, aqueles que eles consideram castigados por Deus.
As ações de Jesus os incomodam porque as questionam e deixam claro que Deus é misericordioso, que Ele ama e não condena. Agora eles arrastam essa mulher para a frente dele e desafiam suas ações: Que dizes tu? Ela ousará contradizer a Lei de Moisés, estando no Templo, diante do povo de Deus?
Mas Jesus, inclinando-se, começou a escrever com o dedo no chão.
Jesus viu e recebeu as palavras dela e primeiro responde com uma atitude de se curvar e depois escrever no chão. É um novo ensinamento que não será feito sentado, mas “inclinando-se”, possivelmente buscando o olhar dessa mulher que havia sido arrastada. Nele, o amor misericordioso de Deus deixa para trás uma justiça condenatória para se aproximar de cada pessoa na situação em que ela se encontra. Ele escreve no chão, talvez nos convidando a ler a realidade a partir de baixo, a partir da terra; ali está a nova escritura que teremos de saber ler e redescobrir. Seu novo ensinamento será dado a partir do chão onde a mulher está, oprimida e condenada pelos fariseus quando é pega em flagrante adultério.
Como persistissem em interrogá-lo, Jesus ergueu-se e disse: "Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra".
Os fariseus e os mestres da Lei ainda estão procurando uma palavra de Jesus, não entendem Sua linguagem e, diante disso, Ele se levanta, fica de pé e os convida a internalizar a lei que eles estão usando para condenar: quem não tiver pecado, que atire a primeira pedra! Palavras claras e contundentes. “E tornando a inclinar-se, continuou a escrever no chão. E eles, ouvindo o que Jesus falou, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos”. Era impossível considerar-se perfeito diante de Deus, e eles sabiam muito bem disso, por isso se retiraram um a um.
Jesus continua escrevendo e ficou sozinho, com a mulher que estava lá, no meio do povo. Os dois estão sozinhos, mas no meio do povoado. E é só aí que ele entra em um diálogo com ela, que reconhece que ninguém a condenou e que ele também não o fará. Ele a convida a não continuar nesse caminho, a mudar de rumo: "Eu também não te condeno. Podes ir, e de agora em diante não peques mais".
Neste quinto domingo da Quaresma, somos chamados a olhar para cada pessoa a partir do coração de Jesus, que bate o amor misericordioso do Pai. Não somos semeadores de leis ou obrigações, mas de um amor sem limites, que não julga nem condena, mas que acolhe cada pessoa a partir de sua realidade, convidando-a a deixar para trás o que lhe faz mal, o que está destruindo gradualmente sua vida. Como comenta o Papa Francisco: “A misericórdia vai além e faz de modo que o pecado seja colocado de lado na vida de uma pessoa. É como o céu: nós olhamos para o céu e vemos tantas estrelas; mas quando chega o sol, pela manhã, com muita luz, não vemos as estrelas. E assim é a misericórdia de Deus: uma grande luz de amor, de ternura. Deus perdoa não com um decreto, mas com um carinho, acariciando as nossas feridas do pecado. Porque Ele faz parte do perdão, faz parte da nossa salvação. E assim Jesus faz como um confessor: não a humilha, não lhe diz ‘O que você fez, diga-me! E quando foi isso? E como foi? E com quem?’. Não! ‘Vai’, vai’ e de agora em diante não peque mais!’. É grande a misericórdia de Deus, é grande a misericórdia de Jesus. Perdoar-nos, acariciando-nos!” (cf. “Deus perdoa não com um decreto, mas com uma carícia”, diz o Papa Francisco)