O amor que desarma... Comentário de Adroaldo Palaoro

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04 Abril 2025

A reflexão bíblica é elaborada por Adroaldo Palaoro, padre jesuíta, comentando o evangelho do 5º Domingo do Tempo de Quaresma, ciclo C do Ano Litúrgico, que corresponde ao texto bíblico de João 8,1-11.

Eis o comentário. 

“Moisés na Lei mandou apedrejar tais mulheres. Que dizes tu?” (Jo 8,5)

Há em todos nós uma dificuldade básica de nos tornar conscientes e responsáveis pelos nossos erros. Em muitas ocasiões atua em nós um mecanismo de defesa, em forma de negação e de cegueira, que pretende evitar a dor e a ferida interior da culpa, preservando nossa autoimagem e nosso narcisismo. Introjetamos em nós a falsa ideia de perfeição; há uma cobrança social de que não podemos fracassar; temos resistências em assumir nossa condição humana (húmus) pobre e frágil; pesa sobre nossos ombros a força da falsa imagem de que somos semideuses. Com isso, alimentamos escribas e fariseus em nosso interior, centrados na lei e com as mãos cheias de pedras.

Efetivamente, no relato evangélico deste domingo Jesus desmascara aqueles que, com a lei na mão, assumem a cátedra de juízes e projetam sobre os outros as próprias mazelas: “quem dentre vós estiver sem pecado, atire a primeira pedra”. A “primeira pedra” é a que provoca todas as violências, alimenta ódios, intolerâncias, rompe relações...; a primeira pedra é ponto de partida de toda desumanização.

É verdade que, literalmente, aquela “primeira pedra” é algo incômodo para quem deseja lançá-la. No entanto, quando se trata de palavras, maledicências, fofocas, calúnias, murmurações, suspeitas, “fake news”, julgamentos ..., não pensamos nisso. São diferentes expressões da “primeira pedra”. São piores as pedras da língua que as pedras que atiramos com a mão. Todas as desgraças sociais e religiosas dependem da primeira pedra.

Depois da primeira pedra produz-se uma chuva de meteoros. E todos correm para socorrer, defender e justificar, não a pobre vítima, mas àquele que lança as pedras, integrando suas violentas pedradas às daquele que iniciou a lapidação. Tudo por culpa da primeira pedra, lançada com frequência e sem medir as consequências. Na verdade, a primeira pedra, a primeira palavra, a primeira suspeita..., lançadas com rapidez, são as mais contundentes e desencadeiam um processo destruidor.

Os olhos, a língua e as mãos são expressões do coração; um coração petrificado é gerador de pedras mortais. Normalmente, a petrificação interior é sempre recheada de devocionismos externos, de práticas religiosas alienadas, de ritualismos repetitivos, de moralismos estéreis... O legalismo intransigente e inflexível desemboca no orgulho e na vaidade, levando a pessoa a subir no seu tribunal, fazendo-se juíza dos outros.

Quando alguém não reconhece a própria culpa, porque o próprio perfeccionismo o impede, facilmente ele a projeta sobre os outros, num claro mecanismo de defesa. E descarrega sobre outros a própria insatisfação, frustração e os próprios sentimentos de culpabilidade. Assim, ele elege alguns “bodes expiatórios” sobre os quais se projeta o próprio mal interno e, desse modo, procura aliviar o íntimo mal-estar e o peso moral.

Quem tem o coração petrificado não tem bênçãos a oferecer, mas pedras a serem atiradas. Um coração petrificado se expressa numa atitude de intolerância e insensibilidade frente aos outros.

Tal atitude a encontramos claramente na cena da mulher surpreendida em adultério, relatada por João. Aqui temos a “pedra na mão”, magnífico símbolo da culpabilidade, disposta a ser lançada sobre alguém em quem se projeta a própria maldade não reconhecida.

Numa postura arrogante, os escribas e fariseus tomam para si o poder de julgar os outros, de dar aos outros o que eles pensam que merecem (recompensa ou castigo, a vida ou a morte). O “arrogante” é um ser petrificado: a lei é a sua; a palavra é a sua; a verdade é a sua; o momento é o seu.

É por isso que Jesus apela ao grupo dos agressores a que dirijam o olhar sobre seu próprio interior e, no reconhecimento de seu próprio pecado, a pedra possa cair de suas mãos.

A mulher ficou livre. Os agressores, de outra maneira, também livres do engano de negar sua culpa para projetá-la maldosamente sobre aquela pobre mulher. Silêncio e palavra configuram as duas faces do relato do evangelho deste domingo.

Jesus escreve sobre a terra; isso tem gerado especulações. Segundo France Quéré, com sua escrita misteriosa, Jesus traça as grandes linhas do “código da misericórdia”, que não pode se encerrar nos artigos de uma norma jurídica, nem pode ser esculpida sobre a pedra.

Não se escreve a misericórdia sobre matéria dura, e tampouco ela pode ser fixada sobre o papel. Traça-se a misericórdia sobre a superfície delicada de um coração de carne, simbolizada na matéria fofa da terra. A vida surge da argila, porque a argila é maleável. Deus não tirou o ser humano da pedra.

Só a terra é fértil; a pedra é estéril. E as pedras lançadas nunca produzirão frutos. A misericórdia, sim, é fecunda: cria, re-cria, abre um novo horizonte de vida...

“Ouvindo o que Jesus falou, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos”. Também aqueles que queriam lapidar a mulher receberam a luz da misericórdia, visível no rosto de Jesus. O Mestre tirou a máscara que cobria o rosto de cada um deles; tirou-os do anonimato e da maldosa cumplicidade do grupo, do corporativismo, para pôr cada um frente à sua própria consciência. Obriga-os a se olharem por dentro e não olhar mais a adúltera. Habituados a notar os defeitos dos outros e a denunciá-los com ira, tinham perdido o costume de notar e preocupar-se com as próprias más ações. Habilíssimos para descobrir as infrações dos outros, estavam desacostumados a se sentirem pecadores, tendo sujas as mãos e a boca. Convencidos de ter autorização para desempenhar o papel de juízes, já não perguntam se, por um acaso, também eles não pertenciam à categoria dos malfeitores, dos iníquos. Forçando os outros a dar conta de suas ações, acreditavam finalmente dispensados de se olharem no espelho.

Desembarcam como “justos” e agora regressam às suas casas com a patente de “pecadores”. São colocados dentro da comunhão dos pecadores, ponto de partida obrigatório para chegar a uma profunda conversão.

No fundo, Jesus obrigou os juízes a se julgarem a si mesmos. Deste modo, o processo que devia acabar com um escândalo, se interioriza. Desenrola-se a portas fechadas; cada um “rumina” em sua casa. Nem sequer é preciso luz porque o rubor do rosto deles podia ser percebido até na obscuridade.

Como diz S. Agostinho, no fim se encontram a sós “miséria e misericórdia”.

Provavelmente a mulher do relato não precisasse nem sequer de escutar aquelas palavras de Jesus: “também eu não te condeno”. O que ela precisava era levantar os olhos. No momento em que faz isso, a adúltera se encontra com alguém que a olha de maneira diferente dos outros. Nunca tinha visto nenhum homem olhá-la dessa forma.

Nada tem a temer diante daquele homem que traça sinais misteriosos sobre a terra. Ela toma consciência de que corresponde a ela dar finalmente uma resposta à provocação dos sinais esboçados sobre o pó. Trata-se de aproveitar daquela página de misericórdia, de confiança, de perdão que leu, não sobre a terra, mas no olhar dele. Volta para sua casa transformada, re-criada.

Para meditar na oração:

A “pedra na mão” é fácil encontrá-la também em nossas vidas. O convite de Jesus a reconhecer nosso pecado é a única via para que essa pedra não caia sobre nenhum inocente e, ao mesmo tempo, nós possamos encontrar a possibilidade da transformação e da mudança.

A arrogância também é nossa; manifesta-se no nosso pensar e agir cotidianos. Ela é a base de nossas intransigências, dos nossos preconceitos, dos nossos dogmatismos, de nossas críticas amargas, dos comentários maldosos... A arrogância mora no nosso desprezo e nas nossas ironias.

- Contemplar as “pedras” presentes na própria mão (contra quem costuma lançá-las?...) 

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