A desumanização de cidadãos palestinos e israelenses como estratégia (bio)política e o uso da IA para fins bélicos. Artigo de Márcia Rosane Junges

Foto: Pixabay

27 Março 2025

A conversão de Gaza em uma prisão a céu aberto evoca a hipótese agambeniana do campo como paradigma da política moderna, bem como da conversão da exceção em norma a partir de democracias procedimentais como a de Israel. A desumanização das pessoas que habitam esses territórios conflagrados é o primeiro passo para que seu extermínio seja concretizado e aceito pela opinião pública, além de relativizado pela mídia hegemônica internacional. Assim, criam-se cidadãos de segunda categoria, como os palestinos o são em Israel hoje. A vontade arbitrária do soberano suspende a ordem e o direito paradoxalmente a partir do próprio direito, originando a vida nua, reduzida a vida biológica e exposta de modo radical à morte inimputável. Controle das vidas consideradas perigosas para a ordem social: assim é a biopolítica que extrapola o nível do governo e se enraíza na exceção através da qual palestinos são assassinados diariamente pela máquina de guerra israelense.

Outra prerrogativa para a criação dos inimigos de Estado é o uso de retórica que esvazia a humanidade de pessoas, tornando costumeiro ao jargão político valer-se de termos que viram lugar comum junto à população, e que preparam terreno para a eliminação física, de fato. Palavras, afinal de contas, têm peso de ações. Ou, como Agamben reivindica em sua filosofia política a partir de uma releitura de Averróes, pensar também é agir. O pensamento é uma potência que, inclusive, pode se concretizar e atualizar em ato, mas não se esgota nele, escreve Márcia Rosane Junges, professora da graduação e pós-graduação em Filosofia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos  Unisinos.

Eis o artigo.

“O soldado fica livre do peso de ter que decidir quem vai morrer, ou não, pois quem toma essa decisão é a Inteligência Artificial (IA), e não ele. Assim, não há uma decisão autônoma, consciente e racional”. A reflexão diz respeito ao contexto do conflito Gaza-Israel e ao uso crescente de IA pelo exército israelense, e faz parte da entrevista concedida pela Profa. Dra. Silvia Ferabolli ao site do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, antecipando as discussões que irá abordar no IHU Ideias desta quinta-feira, 27 de março, intitulado Putin, Trump, Zelensky e Netanyahu: o mundo à beira da guerra total?

Segundo ela, “não é à toa que cada vez mais a IA e robótica estão sendo usadas para substituir os humanos em locais de combate a fim de eliminar o último aspecto no qual o soldado pode parar e decidir não matar”. E sentencia: “O que Israel está fazendo no desenvolvimento dessas tecnologias é tirar o direito humano dos seus soldados de não matarem. Israel está desumanizando uma geração inteira de jovens, pois eles não são simplesmente soldados, mas humanos treinados para utilizar IA a fim de que não sejam impedidos de matar”.

Uma das linhas de automação da guerra foi cruzada pelas Forças Armadas de Israel com o uso da tecnologia Lavender, sistema e modelo probabilístico para selecionar alvos humanos. As mortes são gerenciadas pelo alto comissariado como estatísticas e compõem o dano colateral, que prevê os óbitos como consequências possíveis em conflitos dessa natureza. De acordo com reportagem de Manuel G. Pascual, publicada por El País em 17-04-24, “está dentro dos parâmetros aceitáveis, por exemplo, que por cada alto funcionário do Hamas ou da Jihad Islâmica, uma centena de civis morram no bombardeamento, que geralmente afeta vários edifícios. O sistema foi projetado para atacar a casa do alvo e à noite, o que aumenta as chances de ele estar em casa, mas também de que seus familiares e vizinhos morram com ele”.

Ferabolli recupera a origem do conceito de IA, que surge do campo da inteligência militar e é um tipo de inteligência diferente daquela humana. “A inteligência militar não usa os mesmos instrumentos da razão humana para exercer suas funções. Ela dialoga diretamente com a inteligência militar, e isso é a tristeza do momento que vivemos, no qual assistimos a esse genocídio, passando a odiar esses soldados por vê-los como criaturas demoníacas, quando muitas vezes, não em sua integralidade, por óbvio, são vítimas de um sistema perverso do qual eles não têm absolutamente nenhuma força para dizer não”.

Ao dizer “não” ao Estado de Israel, esses soldados sabem que serão presos, humilhados, sofrerão todas as sanções de uma máquina de guerra dessa magnitude. “A desumanização dos soldados israelenses pelo Estado de Israel neste momento específico da história desse conflito é, certamente, um dos maiores dramas humanos sobre os quais nós muito iremos conversar nas próximas décadas, que são os dramas humanos gerados pelo uso de IA para fins belicosos”. 

Gênese da tragédia palestina

Outro ponto fundamental da entrevista concedida por Ferabolli é a retomada da gênese histórica da tragédia palestina. “Se localizarmos um momento na história no qual começa a tragédia palestina, isso certamente ocorre com a realização do Congresso Sionista Internacional, que ocorreu em 1897 em Basileia, na Suíça, organizado por Theodor Herzel, considerado o pai do sionismo político moderno”. Segundo a pesquisadora, “o objetivo central desse congresso é a fundação do movimento sionista, marcando assim sua formalização como movimento político organizado, bem como a criação de um Estado para os judeus na Palestina, que ainda estava sob o domínio do Império Otomano. Houve muitas discussões sobre se esse Estado poderia ser concretizado em outro lugar, até mesmo na Argentina ou em algum país africano, mas essas alternativas nunca foram realmente consideradas. A ideia era realmente estabelecer um estado para os judeus em torno do Monte Sião, que é uma definição histórica para Jerusalém. Foi criada, também, a Organização Sionista Mundial, instituição encarregada de organizar os esforços para iniciar a imigração judaica para a Palestina e estabelecer uma infraestrutura econômica e política conexa. Essa organização, portanto, cria as bases econômicas para conseguir mobilizar recursos para levar a cabo o projeto sionista, que criou um Estado para os judeus na região da Palestina”.

Há que se reconhecer que, desde o princípio, não havia chance dos palestinos frente à poderosa força judaica, patrocinada pelo império norte-americano e por potências como França e Inglaterra. “Ao mesmo tempo, isso nos mostra a capacidade de resistência desse povo que vem há mais de um século lutando contra algumas das forças financeiras mais poderosas do mundo. E eles ainda conseguem resistir. Essa gênese da tragédia também é a gênese do espetáculo da resistência palestina. Conseguir resistir a essa força é realmente algo impressionante se pensarmos em termos históricos”.

Vale destacar que Israel recebe 3.3 bilhões de dólares por ano em assistência militar direta dos EUA, enquanto o Egito aufere 1.3 bilhões de dólares anuais para os mesmos fins, vindos dos cofres norte-americanos. “Esses números nos dão a dimensão do custo político, econômico e estratégico da manutenção do Estado de Israel no lugar onde os sionistas decidiram que ele iria existir”. 

Rearmamento da Europa

Apesar do contexto geopolítico conflagrado, Silvia Ferabolli não acredita que estamos à beira de uma guerra total. “Trump faz parte da elite isolacionista norte-americana, composta pelos republicanos, que entendem que os EUA são capazes de atingir seus objetivos globais sem a ajuda dos europeus, ou sem a aliança atlântica. A outra parte da elite, que é mais internacionalista, entende a necessidade do apoio dos europeus e da manutenção da aliança atlântica para que os EUA consigam fazer seus objetivos de política externa em termos globais sejam atingidos”.

Entretanto, adverte que “o rearmamento europeu, especialmente os investimentos anunciados pela Alemanha, sinaliza uma transformação significativa na arquitetura de segurança do continente. Esse movimento deve ser analisado à luz de uma mudança profunda nas percepções estratégicas após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022”.

Assim, ainda que a hipótese de uma guerra total pareça improvável no curto prazo, Ferabolli sustenta que o atual momento exige atenção crítica. “O rearmamento em larga escala pode tanto funcionar como um mecanismo de dissuasão quanto alimentar novas formas de competição geopolítica que, se não forem acompanhadas de diplomacia e canais eficazes de diálogo, podem tornar o cenário internacional ainda mais volátil”. 

Gaza, prisão a céu aberto

A conversão de Gaza em uma prisão a céu aberto evoca a hipótese agambeniana do campo como paradigma da política moderna, bem como da conversão da exceção em norma a partir de democracias procedimentais como a de Israel. Ferabolli tensiona o fato de que o que Israel faz hoje com Gaza repete o modelo utilizado pelos EUA ao confinarem e dizimarem os povos originários norte-americanos para a formação do Estado que desejavam engendrar. O mesmo pode ser dito a respeito do que Portugal conduziu em território brasileiro e do que a França fez com a Argélia, guardadas as evidentes diferenças contextuais.

A desumanização das pessoas que habitam esses territórios é o primeiro passo para que seu extermínio seja concretizado. Assim, criam-se cidadãos de segunda categoria, como os palestinos o são em Israel hoje. Outra prerrogativa para a criação dos inimigos de Estado é o uso de retórica que esvazia a humanidade de pessoas, tornando comum ao jargão político valer-se de termos que viram lugar comum junto à população, e que preparam terreno para a eliminação física, de fato. Palavras, afinal de contas, têm peso de ações. Ou, como Agamben reivindica em sua filosofia política a partir de uma releitura de Averróes, pensar também é agir. O pensamento é uma potência que, inclusive, pode se concretizar e atualizar em ato, mas não se esgota nele.

A pergunta que não se cala frente ao recrudescimento da criação de párias em nosso tempo, de figuras como o terrorista que deve ser confinado e exterminado por consistir em perigo potencial, é a respeito da gênese incômoda dos Estados modernos. Isso porque sua criação passa pela conformação de uma ideia geral de nação a fim de que a população seja convencida a ser leal a este Estado, disposta a protegê-lo, amá-lo e até mesmo dar a vida por ele.

“A proposta de transformar Gaza em um "resort", ainda mais apresentada por meio de IA, revela uma lógica profundamente colonial: apaga a história, o sofrimento e a resistência de um povo, reduzindo um território devastado a um potencial ativo econômico. Do ponto de vista pós-colonial, essa atitude reatualiza a fantasia de dominação e reordenamento dos espaços do Sul Global segundo os desejos e interesses do Norte. É uma tentativa de reescrever a realidade por meio da tecnologia e da propaganda, despolitizando a ocupação e desumanizando os palestinos – como se a paz pudesse vir pela imposição de uma estética, e não pelo reconhecimento da justiça histórica”, critica Ferabolli. Para ela, “ao propor a substituição de ruínas por um cenário de consumo, a narrativa apaga a violência estrutural que produziu aquela destruição, oferecendo em seu lugar uma utopia neoliberal de "reconstrução" que beneficia poucos e silencia os muitos. É uma forma de colonização simbólica e tecnológica, travestida de solução”. 

Um entendimento possível

Especialista em mundo árabe, Silvia Ferabolli faz questão de interpor uma ressalva fundamental. “Estamos sempre falando em sionistas, Estado de Israel, complexos militares industriais, extrema direita, fascismo. Porém essas terminologias não são sinônimo de judeus, e nem mesmo de cidadãos israelenses. É muito fácil criticar os cidadãos israelenses por votarem em um partido como o de Benjamin Netanyahu, mas note que os brasileiros também votaram em Jair Bolsonaro”. E complementa: "Se ouvirmos as coisas que Bolsonaro disse antes de ser eleito acerca de estupro, negros, homossexuais e outras temáticas, veremos que essas posições, caso houvesse uma sequência de “Bolsonaros” eleitos, com o passar dos anos abririam caminho para ser plausível entrar em um local como o Complexo do Alemão e exterminar sua população inteira, sem que isso fosse visto como absurdo. Estamos vendo Netanyahu hoje executar um plano iniciado em 1897, e a ideia não era: “vamos genocidar a população local e fazer limpeza étnica, exterminar o povo”. As palavras não eram essas; isso foi se transformando com o passar do tempo, e a população israelense também é vítima de um sistema educacional, midiático e político que a mantém em uma ignorância em relação aos palestinos, com medo e nojo dessas pessoas, assustadas de que, a qualquer momento, o Hamas vai lançar um míssil".

A pesquisadora alerta que “discursos de ódio existem no mundo todo, e temos que olhar para os cidadãos israelenses com um pouco de compaixão, pois senão corremos o risco fácil de cairmos no antissemitismo, o ódio irracional ao judeu, o que não podemos permitir que ocorra outra vez. Assim como não podemos permitir a islamofobia, que é o ódio irracional aos muçulmanos. Devemos nos manter firmes em nossa postura em relação a esse conflito na ideia de que sionismo, extrema direita israelense, complexo militares industriais não são sinônimos de cidadãos israelenses, ou judeus, porque isso não é correto, nem verdadeiro”.

É importante acrescentar que inúmeros judeus estão entre os maiores críticos ao Estado de Israel, inclusive à sua existência como tal. Protestos se proliferam pelo país, sobretudo em Tel Aviv e Jerusalém, em desagravo à condução do conflito por Netanyahu, com a quebra do acordo de cessar-fogo e as centenas de mortes que causou já nas primeiras horas. Em entrevista concedida a Fabio Tonacci, publicada em 24-03-25 pelo La Repubblica, a porta-voz do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), Olga Cherevko, denunciou diretamente da Faixa de Gaza, que “há uma enorme escassez de sangue para transfusões, níveis críticos também nos estoques de alimentos, água e medicamentos. (...) Estamos à beira da fome, não sei quantos dias mais temos para evitá-la. (...) Somos forçados a dividir as porções alimentares em duas para alimentar o maior número possível de pessoas”. Em 23-03-25 um dos diretores do documentário No Other Land, premiado como o Oscar este ano, Hamdam Ballal, foi espancado por colonos judeus e retirado por soldados israelenses de dentro da ambulância onde recebia atendimento. O cineasta passou um dia sob o poder das Forças de Defesa Israelenses (FDI), tendo sido torturado e espancado.

“Muitos judeus ortodoxos olham para o Estado de Israel e dizem que não foi isso que Deus os prometeu. O movimento sionista mobiliza o imaginário judaico divino para fins políticos terrenos, e essa é a sua maior perversidade, da qual palestinos, muçulmanos, israelenses e judeus são vítimas”, observa Ferabolli. “Claro que não são vítimas simetricamente, porque os palestinos e muçulmanos são muito mais impactados. O fato é que precisamos estar cientes de tudo isso, pois esse tipo de pensamento irá nos permitir construir uma outra realidade possível, na qual a paz entre israelenses e palestinos é um horizonte concreto”.

E finaliza: “Se não tivermos essa força de caráter, a paz entre esses dois povos não será possível. Nós, que não estamos no meio do furacão do conflito, precisamos ter essa força ética para conseguirmos conter as emoções e pensarmos que não seremos vítimas do discurso sionista, nos recusando a equalizar sionismo com os judeus. Ao nos recusarmos a fazer isso, abrimos a chance de pensar em formas de diálogo entre palestinos e israelenses”. 

A conferencista

Silvia Ferabolli é graduada em Jornalismo pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), mestre em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), doutora em Política e Estudos Internacionais pela Universidade de Londres, com a tese Rethinking the Idea of the Doomed Arab Region e pesquisadora visitante da Universidade de Yale, EUA. Leciona no Departamento de Economia e Relações Internacionais e no PPG em Estudos Estratégicos Internacionais, ambos da UFRGS. Publicou os livros Arab Regionalism: A Post-structural Perspective (Taylor & Francis Group, 2014) e Relações internacionais do mundo árabe: os desafios para a realização da utopia pan-arabista (Juruá, 2013). Atualmente, coordena o Núcleo de Estudos em Relações Internacionais do Mundo Árabe (NUPRIMA), disponível aqui

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Putin, Trump, Zelensky e Netanyahu. O mundo à beira da guerra total
Profa. Dra. Silvia Ferabolli – UFRGS
27/03 | 17h30min às 19h
Transmissão ao vivo
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Página inicial do IHU: https://www.ihu.unisinos.br/

Não é necessária inscrição para assistir à palestra. Será fornecido certificado a quem se inscrever e no dia do evento assinar a lista de presenças. O evento ficará gravado no YouTube e Facebook e pode ser acessado a qualquer momento. Inscrições e mais informações disponíveis aqui

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