24 Março 2025
O artigo é de José Maria Tojeira, sacerdote espanhol, naturalizado salvadorenho, ex-reitor da Universidade Centro-Americana "José Simeón Cañas" (UCA) em El Salvador. Desde 2023 é porta-voz da Companhia de Jesus na crise vivida pela Companhia na Nicarágua, e foi publicado por Religión Digital, 24-03-2024.
A memória dos profetas nunca desaparece, mas não permanece a mesma ao longo dos anos. Há momentos em que a palavra profética inflama quem a escuta, inspirando-o à ação transformadora ou revolucionária. E há tempos em que o profeta é visto como uma figura de outro período, digno de louvor, mas relegado a um momento específico da história.
No entanto, sua força não se esgota, seja quando nos deixamos impactar por ele, seja quando o reduzimos a uma glória do passado. Nas profecias de Ezequiel, Javé consola o profeta aparentemente fracassado: “E eis que tu és para eles como um cantor de amores, de bela voz e que canta bem; ouvirão tuas palavras, mas não as colocarão em prática. Mas quando acontecer o que foi anunciado, e já está para acontecer, saberão que houve um profeta entre eles” (Ez 33, 32-33).
Com a memória de D. Romero, profeta e pastor, acontece algo semelhante. Ele foi fonte de força e energia para todos os que trabalharam pela paz em meio à guerra civil de El Salvador. O compromisso de seus seguidores ("com D. Romero, Deus passou por El Salvador", dizia o Pe. Ellacuría) levou alguns até o martírio. Depois, em tempos de paz, sua lembrança tornou-se um estímulo e um impulso para a transformação socioeconômica.
Recordavam-se suas palavras contra as idolatrias do poder e do dinheiro e as injustiças que delas decorriam: "os conflitos violentos não desaparecerão enquanto não forem eliminadas suas últimas raízes". E, por isso mesmo, insistia-se, quase com as mesmas palavras dele, que "a construção da justiça social é a tarefa mais urgente".
No entanto, a tendência dos diferentes partidos no poder a um certo populismo paternalista, que promove um desenvolvimento desigual e elogiava Romero como símbolo, levou a suavizar sua figura e a aparar as arestas proféticas de sua palavra radicalmente inspirada no Evangelho. A relativa aceitação que a direita política salvadorenha fez da figura de D. Romero, considerando-o o salvadorenho mais conhecido no mundo, também produziu algumas mudanças. Levou, pelo menos alguns, a substituir a exigência de uma profecia que denuncia, impulsiona e fortalece pela imagem de uma figura famosa internacionalmente, que embora encha de satisfação, não promove uma solidariedade militante.
Mas sua morte martirial, sua opção radical pelos pobres, seu profetismo que o tornou "voz dos que não têm voz para defender seus direitos", ressurgem sempre que os acontecimentos refletem a dor e a humilhação dos pobres. Os insultos racistas do presidente Trump, cheios de uma agressiva aporofobia contra os migrantes, ou a tentativa do governo salvadorenho de promover projetos de mineração a céu aberto, com os riscos de degradação ambiental que podem se transformar em uma verdadeira catástrofe em um país tão pequeno e superpovoado como o nosso, nos chamam e nos obrigam a voltar àquele Espírito de fogo de Romero, que traz boas notícias aos pobres, cura os corações feridos e anuncia a libertação dos cativos neste mundo cada vez mais submetido às idolatrias do poder e do ouro.
O aniversário de D. Romero, São Óscar Romero, nos recorda, junto com tantos outros mártires, reconhecidos canonicamente ou não pela Igreja, que a única forma digna de vencer a ameaça e o medo é lutando contra seus autores e promotores. Não pode haver um mundo feliz construído sobre a dor das vítimas dos poderosos. E, enquanto caminhamos rumo a esse mundo de esperança, no qual todas as vítimas da história recuperarão seus nomes, não nos resta outro caminho senão a profecia, a liberdade corajosa ao lado dos pobres e o espírito de fraternidade do Evangelho, que D. Romero viveu em plenitude.