11 Mai 2024
"A misericórdia de Deus, por exemplo, é da ordem do “mas”: que Deus ame a humanidade apesar das suas infidelidades não é algo dado como certo. É algo próprio de Deus, não do homem"
O comentário é de Lorenzo Fazzini, jornalista e escritor italiano, em artigo publicado por Avvenire, 29-02-2024. A tradução é de Luisa Rabolini.
“’Trabalhamos a noite toda e não pegamos nada. Mas ao seu comando lançarei as redes".
Toda a fé de Pedro está contida naquela palavrinha “mas”: a confiança que se expressa na sua coragem de tentar ‘mais uma vez’”. As palavras de Tomáš Halík, teólogo checo, ao comentar a conhecida cena evangélica da pesca milagrosa, devolvem-nos a verdade de um traço preciso do cristianismo: a fé é aderir a outra ordem de coisas, por vezes alternativa e opositiva em relação a um puro raciocinar humano. Porque Deus é fiel.
A misericórdia de Deus, por exemplo, é da ordem do “mas”: que Deus ame a humanidade apesar das suas infidelidades não é algo dado como certo. É algo próprio de Deus, não do homem. Assim é descrita, com claras reminiscências bíblicas, a avó de Um mundo perdido (Lindau), romance de Wendell Berry, mulher e mãe capaz de uma fidelidade incansável à sua vocação em relação aos seus filhos inconsequentes: “Ela os amava não só apesar de como eles eram, mas porque simplesmente os amava. Com eles encenava, como fazem muitas mães e também muitos pais, a parábola da ovelha perdida, que deve ser incessantemente procurada e trazida de volta ao redil, incessantemente trazida de volta à mente e ao amor, sem que a morte represente um impedimento e a futilidade um obstáculo."