Abusos: confiança traída

Foto: Canva

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

22 Novembro 2023

A dor dos abusos sexuais pede também à Igreja Católica que repense profundamente a sua ação pastoral: colocar em palavras a complexidade do tema, para além dos slogans, significa identificar os passos possíveis para uma vida eclesial mais capaz de testemunhar o Evangelho. "O elitismo e o clericalismo encorajam todas as formas de abuso. E o abuso sexual não é o primeiro. O primeiro é o abuso de poder e de consciência”.

As palavras do Papa Francisco abriram os trabalhos da conferência "Confiança traída. Os abusos de poder, de consciência e de espiritualidade dentro da Igreja”, que o Serviço Diocesano de Proteção a Menores da diocese de Trento organizou na sexta-feira, 10-11-2023. As intervenções seguidas por Anna Deodato, do Conselho Presidencial do Serviço Nacional de Proteção a Menores do CEI (Milão); Katharina Anna Fuchs, do Instituto de Psicologia da Pontifícia Universidade Gregoriana (Roma) e, por último, Barbara Facinelli, chefe do Centro de Escuta do Serviço de Proteção de Menores (Trento).

A reportagem é de Rolando Covi, publicada por Settimana News, 21-11-2023.

Ouvindo as vítimas

A primeira etapa foi dedicada a ouvir o testemunho de uma pessoa ferida por diversas formas de abuso. A escuta, orientada pelo Prof. Deodato, permitiu que os participantes entrassem em contato com o que uma vítima, mesmo depois de muito tempo, vivencia no íntimo de sua pessoa: sua luta para viver, os vestígios de dor que também emergem questionamentos sobre a fé através de circunstâncias que se repetem e renovam memórias cansativas.

Cada um dos presentes na sala sentiu forte, profunda e claramente como a experiência do abuso perturba a vida de uma pessoa: "como a dor de uma pessoa que encontra a sua vida em ruínas pode prescrever. Esta palavra é terrível. Você não pode entender isso se não viver, porque você não entende que a dor do abuso é uma dor que não consegue encontrar paz".

São palavras que não podem deixar de perturbar e comover a consciência de cada um. Percebemos isso também quando fomos convidados a reagir pessoalmente e na sala a partir de algumas perguntas: o que estou pensando, o que senti ao ouvir, que palavras e emoções encontro no fundo de mim.

A livre troca que se seguiu destacou como todos participaram e sentiram intensamente o que a vítima nos transmitiu: um sentimento de humilhação, de luta interna, a raiva pela injustiça sofrida, a desolação da solidão, mas também, como alguém destacou, a profunda força do desejo de continuar vivendo.

Este primeiro momento foi um exercício de formação, permitiu-nos entrar na segunda parte da Conferência com maior consciência e respeito, conscientes de que tudo o que sabemos sobre os abusos faz parte sobretudo de uma realidade que fere as pessoas, a Igreja e a sociedade.

Abuso de poder

A análise aprofundada, confiada ao professor Fuchs, transmitiu ainda mais claramente os termos da questão. Em primeiro lugar, deve ser feito um esclarecimento linguístico, para centrar-se no que se entende por abuso espiritual, e assim superar uma certa confusão conceitual, cultural e linguística. Como qualquer abuso, está intimamente ligado a três fatores: a superação de fronteiras e limites, o papel do poder e a confiança.

Portanto, o primeiro foco está no papel do poder, pois o abuso está fortemente ligado ao seu exercício. Todo tipo de instituição está envolvido; no contexto eclesiástico em particular, são dados dois tipos de poder, o de governo e o da autoridade moral.

O abuso de poder pode expressar-se através de formas de desequilíbrio (“causadas, por exemplo, pela posição, hierarquia eclesiástica, idade, experiência de vida ou de trabalho ou estatuto social”) e no âmbito de relações assimétricas ("incluindo as pastorais, espirituais, educativas e formativas").

O desequilíbrio de poder se manifesta de forma sutil e inconsciente, como a forma como alguém se comporta, fala ou se veste, para ser identificado como membro de um grupo.

No abuso de poder, a confiança depositada no agressor, estimado pelas suas competências e capacidades humanas e profissionais, desempenha um papel fundamental: na vida religiosa, a questão é amplificada pela fé em Deus como componente subjacente da relação. A confiança é abusada quando “os limites das relações de confiança são violados ou transgredidos e quando uma pessoa afetada pelo abuso o divulga e não é acreditada”.

Abuso espiritual

Um segundo foco é dado ao abuso espiritual, que geralmente ocorre “em nome de Deus” e é, portanto, muito difícil de questionar. Expressa-se em "padrões sistemáticos de comportamento controlador, intimidador e manipulador; uso impróprio ou manipulador das Sagradas Escrituras e/ou outros textos religiosos e espirituais; ameaças de consequências espirituais negativas; violação da autodeterminação e da liberdade espiritual".

É um abuso de poder e de confiança que atravessa tanto a dimensão horizontal como a vertical da pessoa; é encarnado por figuras de guias espirituais (fundadores, superiores, companheiros, etc.) que se colocam entre Deus e o homem como única fonte de respostas corretas.

As pessoas afetadas correm o risco de perder a identidade pessoal, porque a identidade do grupo se torna predominante; os limites do acompanhamento espiritual são violados; a pessoa está isolada. Criam-se relações de dependência, apoiadas no pensamento elitista e na obediência cega; são definidos objetivos missionários ambiciosos e inatingíveis; surge confusão entre o fórum interno e o externo.

Abuso de consciência

Um terceiro e último foco é o abuso de consciência, intimamente ligado ao abuso espiritual e à violência psicológica, uma forma sutil e insidiosa de maus-tratos, com muitas “faces” diferentes, que vão desde humilhar, até criticar, negar, controlar, acusar, culpar, ou isolar outra pessoa para desestabilizar, constranger ou criar dependência.

Os documentos da Igreja reconheceram a consciência como “o lugar da responsabilidade última e da identidade pessoal do homem no relacionamento com Deus”. É a autoridade suprema, antes de qualquer instituição religiosa e civil.

Quando a abertura e a confiança de uma pessoa se tornam ferramentas para substituir a sua consciência, ocorre o abuso; nasce uma relação profundamente distorcida: quem está acompanhado fica aliviado do esforço de escolha; quem acompanha adquire cada vez mais poder: "Esta é a coisa certa! Este é o seu caminho/sua vocação! Deus te chamou para isso! Isso é bom e isso é ruim! Mesmo que o conselho esteja correto, a liberdade pessoal e a possibilidade de crescer na escolha autônoma são restringidas ou anuladas".

Em diferentes níveis

As dinâmicas manipuladoras e abusivas colocam em risco indivíduos, mas também grupos de pessoas, famílias, até comunidades inteiras, em muitos lugares pastorais: "acompanhamento espiritual; contexto educativo/formativo; catecismo; confissão; grupos de oração; cotidiano de um movimento e de uma comunidade; retiro espiritual; homilia".

Há que recordar uma regra básica: "A violação dos limites numa área conduz a limiares de inibição mais baixos noutras áreas"; por isso, os abusos de consciência ou espirituais podem “preparar, justificar e acompanhar outras formas de abuso”.

Muitas vezes as feridas e as consequências deste abuso são profundas e dolorosas; o professor distingue oito níveis diferentes: espiritual; emocional; psicológico/mental; físico; cognitivo; moral; psicossocial; financeiro. O número de níveis por si só indica a gravidade, que envolve também vítimas secundárias: testemunhas, familiares, membros da comunidade ou movimento religioso.

Em síntese, os abusos de poder, de consciência e de espiritualidade são uma realidade que pode, teoricamente, afetar a todos, especialmente em momentos de fragilidade ou vulnerabilidade.

"O abuso espiritual e o abuso de consciência são questões difíceis e muito delicadas, com consequências por vezes graves na vida, na saúde mental e física, na relação com Deus e na fé das pessoas afetadas. Ambas as formas de abuso estão ligadas ao poder e à confiança e têm muitas facetas, razão pela qual nem sempre é fácil reconhecê-las, percebê-las e distingui-las. Por esta razão, a consciência e o conhecimento do tema, da sua dinâmica e das suas consequências são essenciais para ajudar as pessoas afetadas e para prevenir ativamente a traição da confiança como ocorre no abuso espiritual e de consciência”.

Ações necessárias e possíveis

Em primeiro lugar, é “essencial sensibilizar o máximo possível sobre a responsabilidade associada a um determinado cargo e o poder que o acompanha”. Trata-se então de definir como objetivo de toda ação pastoral “formar as consciências, e não pretender substituí-las” (Amoris laetitia, 37).

Por fim, foi abordada a forma como a Escritura é interpretada, como ganho de humanidade ou como fonte de submissão. Estas são áreas centrais para repensar toda ação eclesial, para que haja transparência daquele Deus que transformou todo poder em serviço.

A palestra foi concluída com as palavras do Dr. Facinelli, que apresentou a atividade do serviço diocesano de proteção aos menores.

O texto foi escrito com a colaboração das palestrantes da conferência, Anna Deodato, do Conselho Presidencial do Serviço Nacional de Proteção a Menores da CEI (Milão), e Katharina Anna Fuchs, do Instituto de Psicologia da Pontifícia Universidade Gregoriana (Roma)

Leia mais