“O Concílio Vaticano II, uma memória que ainda opera para a paz”. Entrevista com Daniele Menozzi

Concílio Vaticano II | Foto: Centro Loyola de Fé e Cultura

Mais Lidos

  • Em vez de as transformações tecnológicas trazerem mais liberdade aos humanos, colocou-os em uma situação de precarização radical do trabalho e adoecimento psicológico

    Tecnofascismo: do rádio de pilha nazista às redes antissociais, a monstruosa transformação humana. Entrevista especial com Vinício Carrilho Martinez

    LER MAIS
  • O preço do progresso: o lado sombrio dos minerais críticos na Amazônia

    LER MAIS
  • Desatai o futuro! Comentário de Adroaldo Palaoro

    LER MAIS

Revista ihu on-line

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

Entre códigos e consciência: desafios da IA

Edição: 555

Leia mais

13 Outubro 2022

 

No aniversário do Concílio Vaticano II, entrevistamos Daniele Menozzi, professor emérito de história contemporânea da Escola Superior Normal de Pisa.

 

A entrevista com Daniele Menozzi é de Alessandro Santagata, publicada por Il Manifesto, 12-10-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis a entrevista.

 

Os 60 anos da abertura do Concílio Vaticano II (1962-1965) foram celebrados ontem. Durante os pontificados de João Paulo II e depois de Bento XVI, o Concílio parecia ter desaparecido do horizonte pastoral. O que mudou com o Papa Bergoglio?

 

Após a longa temporada em que foi dada uma interpretação conservadora do Concílio, o Papa Francisco novamente tentou ancorar a Igreja àquelas palavras de mudança. Essa inversão de rumo hoje apresenta pelo menos dois tipos de problemas. O primeiro é constituído pela resistência de algumas igrejas nacionais. É o caso, por exemplo, do episcopado dos Estados Unidos, que já no Vaticano II havia se distinguido no debate sobre a liberdade religiosa e que hoje resulta encastelado em posições conservadoras.

 

O segundo problema é que a referência ao Concílio precisa ser historicizada. Nos anos 1960, a Igreja pretendia abrir-se ao mundo moderno, a um progresso que parecia imparável, mas hoje o sinal é o da crise. No entanto, há um aspecto da mensagem conciliar que permanece válido então como hoje: o valor atribuído à história humana, aos "sinais dos tempos" que permitem à Igreja responder de maneira cristã às mudanças.

 

Um tema central no Vaticano II foi o da pobreza. Hoje mais atual do que nunca...

 

O Vaticano II deu uma contribuição importante, mas a ideia de uma “igreja dos pobres” certamente não se tornou um dos alicerces. Após as condenações das teologias da libertação formuladas por Ratzinger, o Papa Francisco não só recuperou em parte aquela bagagem teológica que repousa sobre a chamada "opção preferencial" pelos pobres, mas também aprofundou a herança conciliar com a esperança de uma "igreja pobre". Claro, tudo isso requer traduções concretas.

 

No entanto, a mensagem subjacente permanece forte: caridade e assistência não são suficientes para emancipar as massas da pobreza.

 

Além disso, há o grande nó da colegialidade, bem como o papel do papa. O que aconteceu com a atualização?

 

Depois do Vaticano II, a instituição do Sínodo dos Bispos como órgão exclusivamente consultivo foi uma decepção para os setores progressistas. Hoje, por outro lado, vejo um esforço concreto de Bergoglio para envolver a Igreja em todas as suas diferentes articulações por meio de um processo sinodal que começa de baixo. Aqui também é necessário verificar o que de fato acontece, concretamente, sem esquecer que a igreja continua sendo uma estrutura hierárquica e que o direito ainda não se adaptou à práxis desejada pelo papa.

 

Só podemos concluir falando de paz. O Vaticano II não havia conseguido resolver a grande questão colocada pelo Papa Roncalli na Pacem in terris: até que ponto é legítimo recorrer às armas em legítima defesa? O que pensa o Papa Francisco hoje?

 

Na assembleia, os bispos optaram por não questionar a dissuasão: acharam que era perigoso naquele contexto. Mas então a teoria tradicional da "guerra justa" começou a desmoronar: a licitude da objeção de consciência foi reconhecida. Nas últimas décadas, a Igreja sempre colocou novas limitações à casuística da guerra moralmente aceitável.

 

Francisco colocou por escrito que a guerra é sempre um erro e um fracasso das sociedades, exaltando, como nunca antes, a não violência e suas metodologias. Nesse contexto, a invasão da Ucrânia impôs uma revisão particular do discurso. O Vaticano reconheceu a plena legitimidade da guerra defensiva de Kiev e, ao mesmo tempo, lembrou as responsabilidades da OTAN, obviamente sem colocá-las no mesmo plano daquelas do agressor Putin. Parece-me que Bergoglio tenha escolhido mover-se sobretudo no plano da "profecia da paz". O problema de como tornar a não violência ativa uma prática evangélica eficaz permaneceu sem solução.

 

Leia mais