A Nigéria ultrapassará os EUA para se tornar a terceira nação mais populosa do mundo. Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

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22 Setembro 2022

 

"A Nigéria, em termos demográficos, é o maior país da África e acaba de ultrapassar o Brasil para se tornar o 6º país mais populoso do mundo (ficando na estimativa para 2023, atrás apenas da Índia, China, EUA, Indonésia e Paquistão)", escreve José Eustáquio Diniz Alves, em artigo publicado por EcoDebate, 21-09-2022.

 

Eis o artigo 

 

Com uma área de 911 mil km2, a Nigéria possui uma densidade demográfica de 240 habitantes por km2 em 2022, maior do que a densidade da China (149 hab/km2) e bem superior à densidade brasileira (26 hab/km2).

 

A Nigéria tinha 37 milhões de habitantes em 1950, chegou a 100 milhões em 1992, saltou para 200 milhões em 2019 e deve atingir 377 milhões em 2050 e 546 milhões de habitantes em 2100 (como mostra o gráfico abaixo do painel da esquerda). A população nigeriana em idade ativa, de 15-59 anos, deu um salto de cerca de 20 milhões de pessoas em meados do século passado para cerca de 100 milhões em 2022 e deve atingir mais de 300 milhões de pessoas de 15-59 anos no final do atual século. Portanto, a Nigéria terá uma grande necessidade de geração de emprego nas próximas 8 décadas (conforme mostra o gráfico abaixo, no painel da direita).

 

 

 

Os gráficos abaixo mostram a evolução das taxas de fecundidade e a expectativa de vida. A Nigéria tinha uma média acima de 6 filhos por mulher durante quase toda a metade do século passado. A transição da fecundidade começou tardiamente e a taxa de fecundidade ainda é elevada, em torno de 5 filhos por mulher. A taxa de reposição deve ser alcançada somente no final do século XXI (como mostra o gráfico abaixo, painel da esquerda).

 

 

 

A expectativa de vida ao nascer, que estava em torno de 35 anos em 1950, cresceu nos anos seguintes, embora tenha tido uma pequena queda na década de 1960 e ainda está pouco acima de 50 anos (nível que o Brasil tinha em 1950). Na projeção média da Divisão de População da ONU a expectativa de vida ao nascer, para ambos os sexos, deve ficar pouco acima de 65 anos em 2100 (como mostra o gráfico acima, painel da direita).

 

Mesmo com uma lenta transição demográfica já se nota uma alteração na estrutura etária da Nigéria, pois a população jovem de 0-14 anos vai apresentar um leve decrescimento na segunda metade do século XXI, como mostra o gráfico abaixo (painel da esquerda). Já o número de idosos (gráfico da direita) cresceu lentamente entre 1950 e 2050 e deve acelerar o crescimento na segunda metade do século XXI.

 

 

 

A lenta mudança da estrutura etária tem mantido as pirâmides etárias da Nigéria com uma base larga, conforme mostrado nos gráficos abaixo. A pirâmide etária de 1950 tinha o modelo clássico de estrutura rejuvenescida e se manteve mais ou menos assim até 2022. Assim, o país mantém uma alta razão de dependência de jovens e uma baixa proporção de pessoas em idade ativa. Se a queda da fecundidade se aprofundar poderá haver o aproveitamento do 1º bônus demográfico, que é uma condição essencial para a redução da pobreza e o a melhoria do padrão de vida da população. A pirâmide de 2022 já terá um padrão mais retangular, mas as áreas verdes e amarelas refletem as possibilidades de diferentes ritmos da queda da fecundidade.

 

 

 

A Nigéria terá uma situação demográfica favorável à geração de emprego no restante do século XXI, pois a razão de dependência vai diminuir de cerca de 100 na década de 1980 para menos de 60 entre 2060 e 2090, como mostra o gráfico abaixo. Se a economia reagir e conseguir gerar grande quantidade de emprego, a Nigéria poderá avançar no processo de desenvolvimento humano. Mas se a economia fracassar, o país terá uma bolha de jovens, que na falta de perspectivas de trabalho e de mobilidade social ascendente, poderá criar instabilidade política e anomia social.

 

 

 

A Nigéria tem apresentado dificuldades para manter o crescimento econômico e avançar em termos sociais. O país tem 2,7% da população mundial e menos de 1% do PIB mundial. O PIB da Nigéria representava 0,63% do PIB mundial em 1990 e caiu para 0,52% no ano 2000. Nos anos seguintes houve crescimento econômico e o PIB da Nigéria alcançou o pico de 0,9% em 2014. Mas nos últimos anos a situação piorou e a participação do país na economia internacional caiu para 0,8%, conforme mostra o gráfico abaixo (lado esquerdo). A renda per capita da Nigéria (em preços correntes em poder de paridade de compra) era de apenas US$ 1.827 em 1990, bem abaixo da renda per capita mundial. Nas décadas seguintes a renda cresceu até US$ 5,9 mil em 2014 e, desde então está aproximadamente estagnada, conforme mostra o gráfico abaixo (lado direito).

 

 

 

A Nigéria é um país preso na armadilha da pobreza. O padrão de consumo é baixo. Mesmo assim a Nigéria tem um déficit ecológico. Segundo o Instituto Global Footprint Network a Nigéria tinha, em 1961, uma Pegada Ecológica per capita de 0,91 hectares globais (gha) e uma Biocapacidade per capita de 1,2 gha. Portanto havia superávit ambiental. Mas com o elevado crescimento demográfico a Pegada Ecológica per capita passou para 1,09 gha e a Biocapacidade per capita caiu para 0,69 gha em 2018. Assim, o déficit ecológico per capita passou para 0,40 gha, o que representa um déficit relativo de 37%, conforme mostra a figura abaixo.

 

 

 

A Nigéria não conseguiu vencer a pobreza e além dos imensos problemas sociais é extremamente vulnerável aos problemas ambientais e climáticos. A capital – Lagos – compõe uma região metropolitana que inclui 16 cidades e mais de 25 milhões de habitantes, sendo a maior metrópole da África. Fica na costa do Atlântico, à beira de um grande lago, e já sofre com as inundações provocadas pela combinação de chuvas e elevação do nível do mar. Com a aceleração do aquecimento global, milhões de pessoas ficarão desalojadas pela invasão das águas salgadas. A Combinação de crise econômica, crise ambiental e alto crescimento demográfico tende a fazer explodir a extrema pobreza, condenando milhões de nigerianos ao sofrimento e fazendo do país um lugar mais perigoso e inóspito para se viver.

 

Os líderes dos países africanos estão se preparando para usar a próxima cúpula climática da ONU (a COP27 no Egito, em novembro de 2022) para pressionar por novos investimentos maciços em combustíveis fósseis, de acordo reportagem do jornal The Guardian (01/08/2022). Um documento técnico preparado pela União Africana, indica uma posição comum para pressionar por uma expansão de produção de combustíveis fósseis em todo o continente. Ou seja, os países africanos exigem o “direito” de cometer o mesmo erro dos países desenvolvidos, às custas do aumento das emissões de CO2 e da possibilidade de um colapso ambiental ainda mais catastrófico.

 

Evidentemente, o caminho não pode ser este. A melhor alternativa para os países africanos é aprofundar na transição demográfica e na transição energética, visando lutar contra a pobreza sem comprometer ainda mais a sustentabilidade ambiental. Sem dúvida, a África precisa da ajuda internacional para aumentar o bem-estar humano e ecológico. Mas as metas do Acordo de Paris devem ser seguidas e aprofundadas por todos.

 

Referências

 

ALVES, JED. A população da Nigéria em 2100, Ecodebate, 28/09/2012. Disponível aqui.

 

ALVES, JED. Nigéria: colapso ambiental e fábrica de pobreza? Ecodebate, 28/09/2012. Disponível aqui.

 

Fiona Harvey. African nations expected to make case for big rise in fossil fuel output, The Guardian, 01/08/2022. Disponível aqui.

 

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