O flagelo da fome e a doença da obesidade: dois dramas globais contrastantes

"Ciclo de Estudos Sindemia Global. Obesidade, desnutrição e o novo regime climático - O (re)pensar das cadeias agroalimentares globais”, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU em parceria com o curso de Nutrição da Universidade do Vale do Rio dos Sinos - Unisinos, aborda os desafios frente a uma das doenças que mais cresce no país: a obesidade

Foto: Reprodução

Por: Patricia Fachin | 22 Setembro 2022

 

"Vivemos num mundo de famintos, mas também de obesos". Este foi o diagnóstico apresentado pela ativista política e social espanhola Esther Vivas em entrevista concedida ao Instituto Humanitas Unisinos - IHU, quase uma década atrás, em 2014. O quadro, contudo, não melhorou. Ao contrário, a fome continua a ser uma realidade em diversos países do mundo, especialmente no Sul Global, ao passo que a obesidade, em um país como o Brasil, atingiu, ainda em 2018, o maior patamar dos últimos 13 anos, segundo pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde à época.

 

Naquela entrevista, Esther associou o problema da fome à política e à crise da democracia. Ao comentar os dados da Organização das Nações Unidas - ONU sobre a produção de alimentos, ela informou que "no mundo, produzem-se alimentos que poderiam dar de comer a 12 bilhões de pessoas", mas, "apesar desta abundância em que vivemos, uma de cada sete pessoas passa fome".

 

A obesidade, por sua vez, "é considerada atualmente, a doença que mais cresce em todo o mundo, e a responsável pela pior crise global de saúde pública de toda a história", disse Henrique Eloy, médico, especialista em Endoscopia Digestiva e Gastroenterologia, em artigo publicado em 2018. "Segundo projeção da Organização Mundial da Saúde - OMS em 2025 seremos 2,3 bilhões de pessoas com excesso de peso, sendo que cerca de 700 milhões serão portadores de obesidade mórbida, a forma mais grave da doença. No Brasil, a doença avança de forma rápida e incontrolável", disse.

 

 

Tanto a fome quanto a obesidade estão relacionados à desnutrição, "um problema endêmico no mundo", conforme aponta o Relatório Global de Nutrição de 2016, estudo anual independente e abrangente sobre a situação da nutrição global.

 

 

Ao investigar a correlação entre esses fenômenos, George Monbiot, jornalista, escritor, acadêmico e ambientalista britânico, destacou que "a luz" para compreendê-los "começa a surgir quando se olham os dados sobre nutrição mais detalhadamente". Os dados, afirma, indicam que as pessoas comiam mais na década de 1970, mas "de modo diferente". Ele explica: "Hoje, compramos metade do leite fresco por pessoa que comprávamos; mas cinco vezes mais iogurte, três vezes mais sorvete e – veja só – 39 vezes mais sobremesas lácteas. Adquirimos metade dos ovos que adquiríamos em 1976, mas um terço a mais de cereais para o café da manhã e duas vezes mais cereais para o lanche; metade das batatas inteiras, mas três vezes mais batatas fritas. Embora nossa compra de açúcar tenha caído fortemente, o açúcar que consumimos em bebidas e doces provavelmente disparou (só há números sobre compra a partir de 1992, quando estava aumentando rapidamente. Talvez, já que em 1976 consumíamos apenas 9 kcal por dia em forma de bebida, ninguém imaginou que valesse a pena levantá-los). Em outras palavras, as oportunidades de sobrecarregar nossos alimentos com açúcar aumentaram. Como alguns especialistas propuseram há muito tempo, essa parece ser a questão".

 

Em artigo publicado na página eletrônica do Instituto Humanitas Unisinos - IHU em 2019, Alfredo J. Gonçalves, padre carlista e assessor das Pastorais Sociais, comentou o relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura - FAO sobre o drama atual em torno da obesidade e da subnutrição. "Por um lado, milhões de seres humanos ainda sofrem o duro flagelo da pobreza, da miséria e da fome, que mata mais que todas as guerras. O relatório destaca os países subdesenvolvidos e/ou convulsionados por conflitos armados, onde multidões são obrigadas a escapar em massa. Tal flagelo se faz mais flagrante e urgente entre as populações que erram pelas estradas do êxodo – migrantes, refugiados, prófugos, trabalhadores temporários, expatriados – que tentam melhor sorte pressionando as fronteiras entre os países centrais e periféricos. Por outro lado, o 'a doença' da obesidade se alastra por todo o planeta. Embora sua presença seja mais marcante nos países ricos, como não podia deixar de ser, o mal também atinge os países pobres e/ou emergentes. O mais grave é que, não raro, esse mal vem acompanhado do desperdício de toneladas e toneladas de alimentos. Voltando ao território brasileiro, é conhecido e notório que o país constitui uma das sociedades mais desiguais e desequilibradas do globo: concentra simultaneamente riqueza e renda, de um lado, e exclusão social, de outro", resume.

 

 

As pesquisas mais recentes indicam que a obesidade no Brasil tem se intensificado desde os anos 2000, especialmente por conta das mudanças no padrão alimentar da população, que passou a substituir alimentos tradicionais da dieta diária, como arroz, feijão e saladas, por preparações ultraprocessadas. “Houve uma intensificação de um ambiente alimentar obesogênico [que causa obesidade] que influenciou o estilo de vida e contribuiu para o aumento do problema no país”, disse Patricia Constante Jaime, professora do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo - FSP-USP e do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da USP - Nupens. Segundo ela, nas últimas décadas, "o brasileiro tem consumido menos arroz, feijão, carne, leite, açúcar, óleos e gorduras, em troca de mais pães, biscoitos, refrigerantes e outros grupos de alimentos" e preferido ultraprocessados, "formulações industriais com ingredientes derivados de alimentos, como proteína texturizada da soja, adicionada com aditivos para conferir mais sabor, textura e aroma", que correspondem a 20% das calorias totais da dieta dos brasileiros. “Os produtos alimentícios ultraprocessados não são alimentos industrializados, mas formulações industriais. Eles passam por uma série de processos que fazem com que não seja possível identificar sua matriz alimentar e contribuem mais para o aumento do consumo de açúcar e gorduras, saturadas e trans”, esclarece a pesquisadora.

 

 

Para tratar desses temas, o Instituto Humanitas Unisinos - IHU, em parceria com o curso de Nutrição da Universidade do Vale do Rio dos Sinos - Unisinos, está promovendo o "Ciclo de Estudos Sindemia Global. Obesidade, desnutrição e o novo regime climático - O (re)pensar das cadeias agroalimentares globais”, iniciado em 02-08-2022. Na próxima segunda-feira, 26-09-2022, Gisele Ane Bortolini, coordenadora-Geral de Alimentação e Nutrição no Ministério da Saúde, ministrará a palestra virtual sobre "Ações de enfrentamento à obesidade no cenário Brasileiro". O evento será transmitido pela página eletrônica do IHU, pelas redes sociais e o Canal do IHU no YouTube às 19h30min.

 

 

Na primeira conferência do Ciclo, Ana Paula Bortoletto, consultora técnica do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor - Idec e pesquisadora da Cátedra Josué de Castro de Sistemas Alimentares Saudáveis e Sustentáveis, da Universidade de São Paulo - USP, explicou o conceito de Sindemia Global e a inter-relação entre três pandemias globais da nossa era: obesidade, desnutrição e mudanças climáticas. A sindemia, resumiu, "é fruto do modelo hegemônico e globalizado de produção e consumo de alimentos, do sistema de alimentação, transporte, organização urbana e uso da terra". A conferência completa está disponível aqui.

 

 

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