Sobre a vida. Teologia e cultura. Artigo de Andrea Grillo

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26 Agosto 2022

 

"Isso implica uma nova relação entre magistério e teologia, em que a autoridade do primeiro pode ser enriquecida pela busca da segunda, de modo que o sensus fidei do povo de Deus não seja desatendido justamente pelas premissas distorcidas de um magistério demasiadamente seguro de si", escreve o teólogo italiano Andrea Grillo, professor do Pontifício Ateneu Santo Anselmo, em artigo publicado no blog Come Se Non, 25-08-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Na bela entrevista que Fabrizio Mastrofini realizou com Maurizio Chiodi para a SettimanaNews, emerge uma forma de orientar a teologia moral que é capaz de sair do brejo de uma concepção em que o maximalismo e a abstração impedem a teologia de um verdadeiro diálogo entre a experiência dos homens e a Palavra de Deus (Gaudium et spes 46).

 

Para além dos temas pelos quais passa a entrevista, interessa-me destacar algumas questões que vão além da teologia moral e dizem respeito ao próprio modo de entender o trabalho teológico no contexto atual.

 

a) A obsessão pela infalibilidade

 

A partir de sua formulação no Concílio Vaticano I, não há dúvida de que a questão da infalibilidade em toda proposição da doutrina cristã é uma forma exagerada de pensamento e identidade eclesial, ainda mais que a diferença entre fé e costumes sempre foi um critério de discernimento necessário. E aqui vem a primeira pergunta. Se é verdade que também nas concepções de fé entraram categorias culturais que merecem atenção, certamente a doutrina sobre costumes é originariamente afetada por um condicionamento cultural que contribui para institui-la, mas também marca seu limite.

 

O modo de pensar ‘não matar’ e o modo de pensar ‘não cometer adultério’ nunca é puro, mas é constitutivamente marcado por uma cultura do viver e do morrer, do unir-se e do gerar. Devemos ser absolutamente claros ao dizer que a Palavra definitiva de Deus entra em contato com dimensões completamente não definitivas. Por isso, a pretensão de um caráter definitivo de proposições de caráter moral paga pela ingenuidade de esconder, ocultar, dissimular a camada cultural de que são constituídas as próprias proposições.

 

b) A natureza não salva

 

Perfeitamente exemplar desse procedimento é uma das passagens mais contestadas da Humanae Vitae, onde o exercício da paternidade responsável é restrito ao uso dos chamados métodos naturais. Parece interessante que o homem que gera só pode ser salvo em suas ações apenas na medida em que permanece animal, marcado por ritmos naturais e determinado por essa estrutura que não escolheu.

 

E este parece ser o elemento decisivo: que o homem que gera não escolha. Aqui recorremos a uma antropologia estranha, que de repente, diante da geração, esquece que o homem é de fato animal, mas dotado de palavras e de mãos. A palavra e as mãos estabelecem no homem, inclusive quando ele gera, uma experiência cultural. Por isso é difícil justificar no plano moral a diferença entre métodos naturais e métodos artificiais.

 

c) O trabalho teológico

 

Muito do conhecimento moral sobre a vida (bioética) nas últimas décadas tem se preocupado em estabelecer normas definitivas, identificando atos "intrinsecamente maus". Esse objetivo, muito claro em Veritatis Splendor (1993), realiza-se por meio de duas passagens:

 

- Torna supérfluas todas as circunstâncias, ou seja, a história, os afetos, as relações, as alianças, os encontros. Tudo isso é inútil, porque o ato em si mau encerra a conversa antes mesmo que possa ser aberta.

 

- Por isso a mesma abordagem não pode suportar um debate teológico, precisamente porque a verdade resplendece de tal maneira que ou você a reconhece ou se cala.

 

Esse estilo da bioética insere-se naquele movimento que a partir dos anos 1980 construiu um verdadeiro dispositivo de bloqueio em franca contradição com as melhores intenções do Concílio Vaticano II. Por isso, como é bem lembrado no início da entrevista, a impossibilidade de fazer teologia a partir de um não (segundo a simpática expressão usada pelo Papa Francisco) torna necessário um modo de falar sobre a vida de parte da Igreja que não começa da fórmula demasiado fácil "defender a vida".

 

Isso implica uma nova relação entre magistério e teologia, em que a autoridade do primeiro pode ser enriquecida pela busca da segunda, de modo que o sensus fidei do povo de Deus não seja desatendido justamente pelas premissas distorcidas de um magistério demasiadamente seguro de si.

 

 

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