Ortodoxia russa: Hilarion demitido e Crimeia anexada

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09 Junho 2022

 

 

A demissão de Hilarion Alfeev como chefe do Departamento de Relações Internacionais do Patriarcado de Moscou e a aquisição das dioceses da Crimeia sob a responsabilidade direta da Igreja russa são as principais decisões do sínodo dos bispos em 7 de junho.

 

O comentário é de Lorenzo Prezzi, publicada por Settimana News, 08-06-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Ambas parecem ser motivadas pela guerra na Ucrânia. Hilarion não estaria suficientemente convencido para apoiá-la, os bispos da Igreja ucraniana pró-Rússia decidiram em 27 de maio cortar os laços com a "Igreja Mãe", isolando Kirill e destruindo o sonho do Russky mir (mundo russo), o recipiente ideológico do impulso imperial de Putin.

 

O novo chefe do departamento será o Metropolita Antônio de Korsun (Sevryuk), que manterá a direção do exarcado da Europa Ocidental e o cargo de chefe do escritório do patriarcado para instituições estrangeiras. Ele substituirá Hilarion nas funções fundamentais de chefe de departamento, membro permanente do sínodo, membro do conselho supremo da Igreja. Hilarion também entregará o cargo de reitor de estudos de pós-graduação para o arcipreste Maxim Kozlov.

 

Kirill e Hilarion nunca se entenderam realmente e o último espera herdar a posição do primeiro. No contexto atual, o número dois do patriarcado podia parecer demasiado temeroso para Kirill” (J.-F. Colosimo).

 

"Evidentemente (Kirill) considerou que Hilarion tinha ido longe demais, mas é difícil dizer o que o incomodou em particular. Talvez ele não tenha apoiado suficientemente a linha de Kirill sobre a Ucrânia, exagerando em suas tentativas de diálogo, para manter abertas as relações com as outras Igrejas" (S. Caprio).

 

Kirill depôs Hilarion. A transferência para a Hungria é um rebaixamento de ministro das Relações Exteriores para bispo regional. É também um sinal de falta de confiança. Kirill parece estar em um estado de emergência: está perdendo as peças. A Igreja ucraniana (pró-russa) se afasta. Com exceção da Hungria, a maioria dos outros países estão tomando distâncias” (R. Elsner).

 

Efi Efthimiou (Orthodox Times) sublinhou os sinais de desmarcação de Hilarion: pouco presente na defesa da guerra, em diálogo com Crisóstomo de Chipre (excomungado por Moscou), signatário de um apelo contra todas as guerras escrito pela pré-assembleia ortodoxa em preparação na conferência do Conselho Ecumênico de Igrejas, em diálogo com o card. Erdȍ de Budapeste alguns dias antes da decisão do sínodo. No entanto, a sede húngara é relevante no atual equilíbrio internacional da Rússia. Foi Orban quem impediu Kirill de entrar na lista de oligarcas a serem censurados e o episcopado local, junto com os de Visegrad, é um defensor aberto do antiocidentalismo e do antieuropeísmo.

 

Coberto de honrarias por Putin, Hilarion agora terá tempo para tecer sua teia e cultivar suas paixões musicais e ensaísticas. No comunicado do Sínodo não há nenhuma palavra de agradecimento por todos os papéis desempenhados até agora. De sua longa carreira lembra-se o trabalho de normalização da ortodoxia inglesa (A. Bloom) e o fortalecimento dos institutos teológicos e seu reconhecimento institucional. Assim como a dura polêmica com os ortodoxos gregos que, de fato, bloqueou o diálogo católico-ortodoxo. P. Anderson destaca também a sua defesa juvenil dos manifestantes lituanos violentamente reprimidos pelas tropas de elite russas em 1991.

 

Um novo cisma?

 

O clima de emergência na ortodoxia russa foi frisado pelo Patriarca Crisóstomo de Chipre em uma entrevista em 6 de junho: “Kirill pressionou todos os metropolitas. É muito autorreferencial e os metropolitas têm medo de se aproximar.” Como no passado comunista o partido era a referência, agora: “O comunismo está morto, mas a mentalidade comunista permanece.”

 

Os territórios adquiridos pela Rússia eram "ocupados" pelos metropolitas russos. A segunda decisão do sínodo de 7 de junho segue um pouco nessa linha.

 

De fato, foi decidido "aceitar as dioceses de Dzhankoy, Simferopol e Feodosiya em direta subordinação canônica e administrativa ao patriarcado de Moscou e toda a Rússia e ao santo sínodo da Igreja Ortodoxa Russa". A Crimeia, até então prerrogativa da Igreja Ortodoxa Ucraniana pró-Rússia, é removida da direção do Metropolita Onufrio para transferi-la para Moscou.

 

Premissa para o que poderá acontecer com os territórios do Donbass se a ocupação russa se tornar definitiva. A escolha moscovita está relacionada com a decisão do concílio (leigos e bispos) da Igreja de Onufrio (27 de maio) de se distanciar de Moscou e, consequentemente, de modificar seus estatutos. O sínodo de Moscou aponta que "qualquer discussão sobre a vida da Igreja Ortodoxa Ucraniana deve ocorrer dentro dos limites da normativa canônica". E acrescenta, como premonição de um possível novo cisma, "para evitar novas divisões na Igreja".

 

 

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