“Uma trégua na Páscoa ortodoxa para construir a paz”. Entrevista com Andrea Riccardi

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18 Abril 2022

 

“Cada dia que passa afasta a paz. Uma trégua na Páscoa ortodoxa, daqui a uma semana, nos permitiria saborear o silêncio das armas e poderia ser o início de uma temporada de negociações”.

 

Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio, ex-ministro, historiador, fala sobre o recrudescimento dos espíritos e a exasperação dos ucranianos na base dos protestos pela Via Sacra em que o Papa quis que participassem ucranianos e russos. “A paz é um discurso complexo. Devemos ser pacificadores”, adverte.

 

A entrevista com Andrea Riccardi é de Giovanna Casadio, publicada por La Repubblica, 16-04-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis a entrevista.

 

Riccardi, após 51 dias de guerra, até o apelo do Papa, relançado por Santo Egídio, de uma trégua pela Páscoa, permanece sem resposta?

 

Nós insistimos em uma trégua durante a Páscoa ortodoxa, daqui a uma semana: é uma grande oportunidade para parar o conflito, evitar mais mortes e saborear aquele silêncio de armas que perdemos há 51 dias. A trégua pode ser uma pausa, mas também o início de uma temporada de negociações.

 

A Via Sacra do Papa com uma família russa e uma ucraniana suscitou protestos do embaixador ucraniano junto à Santa Sé.

 

O protesto também foi do arcebispo greco-católico Shevchuk: revela o recrudescimento dos ânimos dos ucranianos pelo que está acontecendo. O Papa quis manter vivo o ideal que está no horizonte: não à guerra fratricida, sim à necessidade de viver juntos em paz. Francisco é criticado, por exemplo na Polônia, porque não condena Putin pelo nome. Mas o Papa não é um tribunal e expressou dor e condenação por esta guerra que é uma loucura. Felizmente existe o Papa, caso contrário estaríamos numa simplificação. Por um lado, se você diz paz, você é um putiniano; pelo outro lado, você se identifica completamente com Zelensky, que se torna Davi. A paz é complexa. Para mim, paz significa querer uma Ucrânia livre.

 

Você se sente ucraniano?

 

Me identifico muito com os ucranianos. Santo Egídio está na Ucrânia, uma de nossas sedes foi atingida em Kiev. Eu estive em Lviv desde os anos 1980, lembro-me dos separatistas clandestinos da época que diziam “seremos o Piemonte da Ucrânia e realizaremos a unidade”. Gosto desse país porque é múltiplo: ucranianos, russos, armênios, ciganos, poloneses, pessoas de todos os tipos. Desde a independência sofreu grandes desequilíbrios e procurou uma identidade. Hoje, com a brutal agressão russa, todos os ucranianos, mesmo os russófonos, sentem-se ucranianos. As mulheres, além disso, são o pilar do país.

 

Mas as atrocidades, como em Bucha, afastam as negociações e a paz?

 

Cada dia de guerra afasta a paz. Diante de nossos olhos há uma guerra de destruição muito semelhante à da Síria, tanto que o comandante das tropas russas na Ucrânia é Dvornikov, o mesmo que liderou os russos na Síria.

 

Quem é pacifista hoje? A esquerda radical que se diz neutra? A Anpi (associação da resistência italiana, nt) com suas dúvidas?

 

A neutralidade é uma expressão de que não gosto, porque exclui a participação. É preciso ser pacificadores, buscar os caminhos da paz, que são árduos. Estamos em uma situação de conflito e devemos partir daqui, não ser neutros, não dizer ‘nem nem’. Pacificadores é um papel para europeus, para cristãos, para gente sábia.

 

Armar Kiev; aumentar os gastos militares. O que você acha disso?

 

A guerra envolve um aumento no investimento militar. Mas houve uma aceleração. Não tenho em mente apenas a Itália, mas a Alemanha. Estamos diante de um fato importante: a Alemanha volta a ser uma potência militar. E o que os franceses farão? A melhor forma é investir num exército europeu comum.

 

O papel da Europa?

 

Correto, mas modesto. Como sua liderança. Justamente agora a Europa das democracias deveria se mostrar, sabendo dialogar com os EUA, que não têm necessariamente a mesma visão e o mesmo timing que a União Europeia.

 

É possível uma saída desta guerra?

 

Tem que ser possível. Ou permanece o espectro da guerra total, com a bomba atômica em campo. O outro espectro é uma guerra encistada. Hoje as guerras no mundo não se vencem e nem se perdem, mas se eternizam. Basta ver a Síria. Ninguém perde a cara, mas as pessoas perdem a vida. E a enorme crise econômica mundial está às portas.

 

Não há boa fé da parte de Putin, então como se lida com isso?

 

Negociar significa que Putin deve entender que não pode vencer como acreditava. Além das sanções, são necessárias pressões diplomáticas.

 

Sanções à Rússia e, portanto, um corte ao gás russo. Mas comprá-lo do Egito, que não permite ter verdade e justiça para Giulio Regeni?

 

Procurar gás em outro lugar é legítimo. O caso Regeni e a condição dos direitos humanos no Egito, no entanto, nunca devem ser arquivados.

 

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