Papa Francisco toma notas durante duas horas em diálogo com estudantes de todas as Américas

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25 Fevereiro 2022

 

Por quase duas horas nessa quinta-feira, 24 de fevereiro, o Papa Francisco escutou os estudantes de universidades católicas de todas as Américas que compartilharam com ele suas experiências pessoais, insights, frustrações e ideias pertinentes para relativas à mudança climática e à migração.

 

A reportagem é de Brian Fraga, publicada por National Catholic Reporter, 24-02-2022. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

 

O pontífice tomou notas durante o diálogo virtual, o qual a Loyola Chicago University promoveu em colaboração com universidades católicas nas Américas do Norte, Central e do Sul, assim como do Caribe. Sentado à mesa, em frente a uma estante de livros, Francisco frequentemente sorriu enquanto seguia o diálogo pelo computador.

 


Papa Francisco no encontro com 126 estudantes de todas as Américas. Foto: Reprodução Youtube Loyola Chicago University

“Essa é a vocação dos cristãos, construir pontes”, disse Francisco, que falou aos participantes que parte de sua missão enquanto jovens adultos era deixar um mundo melhor que aqueles que eles encontraram. O papa elogiou os estudantes por sua solidariedade com aqueles marginalizados da sociedade, especialmente migrantes que são frequentemente explorados e desumanizados.

 

“Os migrantes precisam ser recebidos. Eles precisam ser acompanhados. Migrantes precisam ser protegidos e migrantes, precisam ser integrados”, disse Francisco, falando em evento com tradução para o inglês, português e espanhol.

 

O diálogo – o qual os professores da universidade acreditam ter sido o primeiro desse tipo que Francisco faz com universidades estadunidenses – nasceu dos esforços da Loyola University para participar do Sínodo dos Bispos sobre a sinodalidade. Francisco e outros líderes da Igreja colocaram a sinodalidade como um passo decisivo na renovação da Igreja que o Concílio Vaticano II propôs a mais de meio século atrás.

 

“As conversas de hoje são a própria expressão da solidariedade já em andamento”, disse Michael Murphy, diretor do Hank Center for the Catholic Intellectual Heritage em Loyola, durante as declarações de abertura do diálogo.

 

“Este é realmente um evento global”, disse Murphy, que observou que 130 estudantes de 58 universidades em 21 países do Hemisfério Ocidental participaram de reuniões sinodais virtuais regionais nas semanas que antecederam o evento. A compaixão e a sinceridade dos alunos, disse Murphy, são uma “bênção para todos nós, um fermento para um mundo necessitado”.

 

 


Jovens representantes das universidades do Leste dos EUA e Caribe falando com Francisco. Foto: Reprodução Youtube Loyola Chicago University

O cardeal Blase Cupich, de Chicago, falando do seminário arquidiocesano em Mundelein, Illinois, ofereceu uma bênção virtual na qual disse que o espírito da sinodalidade está “excepcionalmente vivo” nos corações e mentes dos jovens.

 

“Esses estudantes entendem a necessidade de construir pontes em vez de erguer muros. Esse é o apelo fundamental do Evangelho, que é tão importante hoje quando ouvimos falar de guerra na Europa”, disse Cupich, fazendo uma referência passageira à invasão da Ucrânia pela Rússia, em 23 de fevereiro.

 

Muitos dos estudantes que participaram da “Iniciativa Construindo Pontes” da Loyola University eram migrantes ou filhos de migrantes. Aqueles que falaram durante o diálogo falaram a Francisco sobre a discriminação que os migrantes nas Américas frequentemente enfrentam para encontrar um emprego sustentável e acesso à educação e saúde. Eles descreveram como os sistemas econômicos e políticos do hemisfério exploravam os migrantes por seu trabalho sem valorizar sua dignidade humana inata.

 

“As condições dos migrantes hoje exigem uma resposta concreta em nossas comunidades”, disse Eric Bazail-Eimil, estudante da Universidade de Georgetown que nasceu na comunidade de exilados cubanos do sul da Flórida. Bazail-Eimil disse ao papa que estudantes como ele estão ansiosos para usar suas habilidades e energia para encontrar soluções para a miríade de problemas relacionados à migração.

 

Entre essas dificuldades, Bazail-Eimil e outros participantes disseram, está a aparente indiferença dos líderes da igreja em dedicar tempo e recursos para abordar suas preocupações. Bazail-Eimil comentou que “muitos bispos” hoje parecem “incapazes de encontrar maneiras de conectar a tradição católica de hospitalidade” ao acolhimento de migrantes.

 

“Nossa geração valoriza a autenticidade e deplora a hipocrisia”, disse Henry Glynn, estudante da Creighton University, que acrescentou que seu grupo regional estudou as causas profundas da migração irregular de hoje, que inclui as mudanças climáticas.

 

No entanto, Glynn disse a Francisco que, embora as mudanças climáticas desloquem 20 milhões de pessoas anualmente e possam criar 1,4 bilhão de refugiados climáticos até 2060, os líderes católicos dos EUA não priorizaram os ensinamentos da Igreja sobre o cuidado com a criação ou agem de forma proporcional.

 

“Em nossas experiências, os padres nunca discutem as mudanças climáticas”, disse Glynn ao se referir a um estudo de coautoria de sua colega apresentadora, Emily Burke, que descobriu que poucos bispos dos EUA falaram sobre as mudanças climáticas nos seis anos desde que Francisco publicou sua encíclica Laudato Si', sobre o Cuidado da Casa Comum.

 

Respondendo aos comentários de Glynn, Francisco reconheceu que a Igreja muitas vezes não assumiu a liderança em questões ecológicas, apesar da “mensagem clara baseada no Evangelho” que anima os ensinamentos da Igreja sobre o cuidado com a criação. Ele vinculou essa falta de liderança com padres que não seguem seu chamado para que acompanhem seu povo e tenham o “cheiro das ovelhas”.

 

“Ou você é um padre, um pastor de verdade, ou é apenas um membro do establishment”, disse Francisco, acrescentando que “um pastor que não está próximo de [seu] povo é um pastor que carece de algo”.

 

Francisco também elogiou os alunos por defenderem um estilo de vida mais harmonioso com a criação. A violência, disse o papa, “sempre destrói a natureza”. Ele comparou jogar plásticos nos oceanos a cometer “violência contra a criação”.

 


Jovens representantes das universidades brasileiras e da região central dos EUA falando com o Papa Francisco. Foto: Reprodução Youtube Loyola Chicago University

 

“A não-violência é o caminho que nos leva à sinceridade. Temos que rejeitar a hipocrisia. A hipocrisia envenena tudo”, disse Francisco, que acrescentou que a sinceridade ajuda as pessoas a viver em harmonia com o mundo e que a liderança autêntica é impossível sem sinceridade.

 

O papa também destacou uma visão que ele extraiu dos comentários dos estudantes: que os migrantes que deixam seus países de origem ainda valorizam sua herança e raízes culturais. Ele disse que acompanhar os migrantes e integrá-los em seus países de acolhimento deve ser feito de uma maneira que mantenha essas raízes intactas.

 

“Não podemos integrar os migrantes fazendo-os esquecer suas próprias raízes, isso não é integração”, disse Francisco, que concordou com os estudantes que a Igreja Católica “tem que sair de casa” e acompanhar seu povo em suas vidas cotidianas.

 

“Uma Igreja estática é uma Igreja de museu”, disse o papa. “Uma Igreja sinodal não deve ser uma Igreja fechada que não se importa com a vida de ninguém, e isso aliena todos”.

 

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