O Covid fez a democracia se divorciar do mercado

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25 Novembro 2020

"Se o liberalismo se divorcia da democracia e se vincula às autocracias, não há mais garantia de que o mercado seja orientado para o bem comum e não manipulado para outros fins. Ou seja, toda forma de controle democrático em favor dos interesses partidários desaparece", escreve Mario Giro, vice-ministro do Exterior italiano, em artigo publicado por Domani, 24-11-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Diante das crises, o liberalismo contemporâneo sempre repete a mesma velha receita ("crescimento, crescimento!") Sem admitir a evidência: o crescimento não bastante mais.

A economia de mercado atual não protege o trabalho (nem os trabalhadores) e se curva aos mais fortes. As grandes empresas de mídia social, por exemplo, se submetem aos ditames de Pequim ou Moscou, censurando-se.

Ao mesmo tempo, recusam às democracias qualquer tipo de limitação e até mesmo o pagamento de impostos. Grandes corporações transnacionais aceitam regulamentações de regimes que rejeitam no Ocidente. Essa disparidade tornou-se inaceitável.

O Covid 19 destruiu o casal liberal-democrático que unia a economia de mercado e a democracia. É uma relação que já estava em crise há algum tempo, desde que - graças às oportunidades oferecidas pela globalização - os regimes autoritários se apoderaram do liberalismo. Estão em jogo os fundamentos da economia mundial: hoje os regimes autoritários estão autorizados a operar no livre mercado e a participar na regulação da competitividade e do crescimento. Os melhores exemplos são a China, a Rússia ou a Turquia, mas existem muitos outros. Em outras palavras, os regimes se apropriaram do nosso sistema sem, no entanto, se transformarem em democracias liberais. Nossos próprios liberais e liberalistas estão tentando desesperadamente negar isso, mas a consequência é o divórcio entre democracia e mercado.

Embora usem as ferramentas da liberdade econômica e pretendam ser tratados como iguais, esses regimes permanecem opressores e vinculados à economia de Estado, o que lhes permite a maior resiliência que falta aos ocidentais.

Se o liberalismo se divorcia da democracia e se vincula às autocracias, não há mais garantia de que o mercado seja orientado para o bem comum e não manipulado para outros fins. Ou seja, toda forma de controle democrático em favor dos interesses partidários desaparece.

Os nossos soberanistas devem se esforçar muito para dizer que esse tipo de economia de mercado não é "patriótica", mas eles se revelam hipócritas porque são os melhores aliados dos regimes autoritários. O verdadeiro ponto é como devolver ao Ocidente o controle do sistema que ele criou.

A ideia do recém-eleito presidente dos EUA Joe Biden de convocar uma aliança mundial das democracias vai nessa direção. As autocracias embretaram os EUA e a Europa em seu próprio jogo: fingem seguir as regras do mercado, mas continuam a abusar do poder soberano, incluindo ameaças militares.

O que é necessário é uma economia mais uma vez sensível aos valores da democracia. Não estamos mais no "Estado x mercado", mas na "democracia x mercado", o que representa um fato intolerável. Em mãos totalitárias, o mercado está dando seu pior aumentando as desigualdades.

Uma economia novamente aliada à democracia coloca o combate às desigualdades no centro, não se curva à ideia da sustentabilidade financeira a todo custo, leva em consideração as necessidades de bem-estar de todos os cidadãos e não se deixa manipular como se fosse uma arma.

 

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