Fratelli Tutti e o filósofo: “A Igreja casa-se com o Iluminismo, mas não será ouvida”. Entrevista com Massimo Cacciari

Papa Francisco assinando a nova Encíclica "Fratelli Tutti" em Assis, 3 de outubro de 2020. (Foto: Vatican Media)

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06 Outubro 2020

Acredito que a novidade desta encíclica é a ponte que lança entre Iluminismo e catolicismo. O Papa usa repetidamente as palavras liberdade, igualdade e fraternidade, ou seja, o fulcro daquele pensamento secular historicamente oposto ao pensamento da Igreja. Do ponto de vista político, ‘Fratelli Tutti’ é um pouco mais incisiva que as anteriores, ainda que permaneça na linha, já tradicional, das encíclicas sociais de crítica à globalização”.

Massimo Cacciari, filósofo e voz laica, não esconde suas reservas. “O discurso de Bergoglio é um grande apelo à fraternidade universal que, sabemos, infelizmente não será ouvido”.

A entrevista com Massimo Cacciari é de Maria Novella De Luca, publicada por La Repubblica, 05-10-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

No entanto, é um apelo que se posiciona fortemente contra as desigualdades, contra a pena de morte, do lado dos migrantes, denuncia a exploração sem regras do planeta.

Temas, justamente, já clássicos nas encíclicas da Igreja. Em suma, é natural que Bergoglio fale das tragédias do mundo nesses termos. Um elemento de novidade, porém, é a condenação não só da guerra, mas também da guerra justa. Finalmente a Igreja tomou partido contra.

E a definição do vírus não como "castigo divino" ou "revolta da natureza", mas como "a própria realidade que geme"?

Só faltava que o Papa definisse a pandemia como um castigo divino. E até mesmo a natureza tem pouco a ver com isso. É o homem que geme, a natureza sempre ressurge, seremos nós, com os desastres que aprontamos no meio ambiente, que um dia não poderemos mais viver neste planeta. A natureza, por outro lado, encontrará uma forma de sobreviver a nós.

Existem indicações políticas precisas na encíclica de Bergoglio. A reforma da ONU. Contra soberanismos e nacionalismos. Em um mundo que já parece incapaz de prevenir a guerra.

É um apelo justo, a ONU parece ter falhado na sua tarefa que é encontrar mediações e acabar com os conflitos. Mas por trás dessas palavras, concretas, sinto a desorientação daqueles que, com sensibilidade religiosa, se perguntam por que, nestes dias sombrios, o Anticristo está vencendo. Há uma sensação de apocalipse nesta parte da encíclica.

Não há apenas desconforto. Bergoglio indica o diálogo como um antídoto para o desespero. "Fratelli Tutti", justamente.

Um apelo universal e assim permanecerá, apenas um apelo. O Papa justamente invoca o diálogo entre diferentes, mas ignora a outra parte do discurso, a única que pode mudar as coisas. Ou seja, a busca por menores denominadores comuns que nos permitam encontrar soluções para governar, para mediar conflitos. Não basta o Bom Samaritano, é preciso a política.

Claro, mas o Papa utiliza aquela parábola para nos convidar a construir novos laços sociais, sem dar às costas à dor dos outros.

É o que esperamos ouvir de um Papa, mas não é suficiente. Não existe uma crítica radical verdadeira ao sistema que cria as desigualdades, a um sistema político fundado no entrelaçamento da burocracia com as finanças.

Você compartilha o conceito de que o Covid, como diz Francisco, nos colocou todos no mesmo barco e ninguém pode se salvar sozinho? Cada um de nós pode contaminar e ser contaminado.

É a realidade. Mas o vírus não fez nada além de ressaltar e aprofundar imensas diferenças sociais.

Em suma, Cacciari, essa encíclica "Fratelli Tutti" não o convenceu?

Acho que não tem grandes elementos de novidade. Pobreza, meio ambiente, ecologia, críticas à globalização têm sido os cavalos de batalha da Igreja, eu diria há um século. A surpresa, porém, são aquelas três palavras: liberdade, igualdade, fraternidade.

O que lhe surpreendeu?

Ler várias vezes na encíclica termos que foram o símbolo do Iluminismo, detestado pela Igreja. Palavras que se tornaram agora uma ponte com o mundo secular, como valores universais para crentes e não crentes. Junto com a condenação da "guerra justa", aquelas passagens da encíclica "Fratelli Tutti" representam, efetivamente, algo novo.

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