Quem pode nos livrar de Bolsonaro. Artigo de Antonio Martins

Foto: Agência Brasil

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

20 Setembro 2018

"É tolo olhar com ufanismo para a pesquisa do Ibope. Ela revela, junto com salto de Haddad, crescimento e consolidação da ameaça fascista. Para afastá-la, será preciso repolitizar as eleições – não insistir no jogo de torcidas", escreve Antonio Martins, jornalista, em artigo publicado por Outras Palavras, 19-09-2018.

Eis o artigo.

A nova pesquisa Ibope, divulgada nesta terça-feira (18/9) fez surgir, entre a maior parte dos apoiadores do PT e o PCdoB, uma enorme onda de otimismo. Eles viram o crescimento notável de Fernando Haddad (de 8% das intenções de voto há uma semana para 19% agora) como a consolidação da ultrapassagem sobre Ciro Gomes (que permanece com 11%). Também rejubilaram-se com o que seria a confirmação do gênio de Lula – capaz de, do cárcere, de comandar as eleições. Dois anos depois do golpe, a vitória e a volta ao governo estariam à vista. Esta visão contém elementos de verdade – e no entanto é parcial, comodista e perigosa. Em especial, porque sugere um caminho (a aposta na polarização petismo x antipetismo) despolitizante, que amplia ao máximo o risco de um resultado devastador. Há, ainda, a chance de evitá-lo.

A ilusão com os números é mais grave porque, na aparência, eles confirmam o script desenhado pelos apoiadores de Haddad. Numa primeira etapa, que parece cumprida, o candidato de Lula viveria um grande salto, beneficiado pela transferência de votos de seu patrono. A partir de então, afastados os adversários no “campo progressista”, bastaria contar com a atração, por gravidade política, da imensa parcela da sociedade que se coloca, desde 2002, contra o domínio secular das elites. Restaria aos demais candidatos de esquerda e centro-esquerda, e ao setor democráticos que restam entre os eleitores de Marina e Alckmin, alinhar-se à hegemonia petista. O pulo de Haddad, graficamente expresso abaixo, é a expressão imagética desta ideia.

Contudo, o Ibope mostra também dois outros fatos imensamente relevantes, que talvez o entusiasmo ofusque. Primeiro: uma impressionante ampliação das chances de Bolsonaro no segundo turno. Há duas semanas (pesquisa de 4/9), o candidato fascista era praticamente um pária: surrado na disputa final por Ciro Gomes (44% x 33%), Marina (43% x 33%), Alckmin (41% x 32%), acima apenas de Fernando Haddad (36% x 37%). Em pouco tempo, as previsões se reverteram. Agora, Bolsonaro vence com folgas Marina (41% x 36%), empata com Alckmin (38% x 38%) e Haddad (40% x 40%) e perde apenas para Ciro, porém na margem de erro (40% x 41%).

A mudança dramática, expressa nos gráficos acima, sugere a normalização do fascismo. Está provavelmente relacionada ao atentado contra Bolsonaro, que o vitimizou. Porém, testemunha igualmente um fenômeno social e político muito mais largo. A extrema direita está se consolidando como tendência política principal do capitalismo, agora também no Brasil. As relações de Bolsonaro com o mercado financeiro são um sinal. Suas reuniões com banqueiros, investidores e corretoras tornaram-se constantes. Há semanas, a bolsa e o dólar oscilam a partir de suas intenções de voto, registrada nas pesquisas. A sobreposição é clara e incontroversa: a cada sinal de força do candidato fascista corresponde um impulso de otimismo nos índices.

Mas o Ibope revela que este movimento, restrito em condições normais às elites, tem profundidade social e eleitoral. O que era antes abjeto está se convertendo em normal. Votar numa chapa cujos integrantes defendem o estupro, e querem uma Constituição escrita por “notáveis” (evidentemente alinhados a suas ideias), já não é anátema – nem para um executivo financeiro, nem para um morador desempregado da periferia que optou, em falta de alternativas, por uberizar-se.

O segundo fato revelado pelo Ibope é ainda mais surpreendente, para as análises convencionais. A pesquisa mostra que, embora cada vez mais polarizadas, as eleições de 2018, continuam, essencialmente, despolitizadas. Há um nítido descolamento entre as tendências hoje majoritárias na sociedade e as opções pelos candidatos. Esta ruptura, fruto de uma disputa rasa (petismo x antipetismo), favorece a direita.

Do ponto de vista socieconômico, o golpe de 2016 está em frangalhos. Michel Temer, o político que o expressa, tem no máximo 5% de apoio popular. Uma série de enquetes demonstrou, nos últimos meses, a rejeição da sociedade a todas as políticas cruciais adotadas nos últimos – privatizações (70% contrários), contrarreformas Trabalhista (72%) e da Previdência (85%), terceirização selvagem. No entanto, repare: esta notável rebeldia não está expressa nas tendências eleitorais. Faça uma conta simples. Compare as intenções de votos nos candidatos favoráveis ao golpe (Bolsonaro, Alckmin, Amoedo, Álvaro Dias e Henrique Meirelles) com as destinadas a quem resiste (Haddad e Ciro). O resultado, visível no gráfico abaixo, é bastante estranho: 42% x 30%, a favor do golpe.

A discrepância é clara, mas é preciso enunciar seu significado com todas as letras: a polaridade petismo x antipetismo não expressa a tensão política real em curso na sociedade brasileira. Ao contrário: falseia-a; e – muito pior – abre um espaço inesperado para a direita, agora representada por sua fração extrema. Em termos concretos, significa que dezenas de milhões de brasileiros contrários à agenda de retrocessos imposta nos últimos dois anos estão sendo levados a defendê-laFazem-no porque, no momento, veem o PT como inimigo principal a ser batido.

É possível questionar o que leva a esta distorção. O massacre evidente que a mídia promove contra o partido é um fator. A vocação hegemonista do PT – com a qual nos deparamos, a cada instante, todos os que queremos superar o capitalismo – não pode ser desconsiderada. No momento, o menos relevante é estabelecer a culpa. O que importa é enfrentar um problema crucial. Há enorme risco de termos, em vinte dias, eleições que, além de consolidarem o golpe de 2016, levarão a seu aprofundamento trágico.

A esta altura, quando faltam menos de três semanas para as eleições, uma questão parece clara. Fernando Haddad tornou-se o único candidato capaz de vencer Bolsonaro. Ficarão para outro tempo (sabe-se lá em que circunstâncias…) as avaliações sobre por quê chegamos a isso. Mas como vencer, com Haddad e nas condições que temos, a ameaça fascista? Há dois caminhos claramente definidos.

O primeiro é apostar em mais do mesmo. Implica insistir na polarização entre petismo x antipetismo. Inclui fechar-se a negociações com Ciro, esperando que seja obrigado, por gravidade, a apoiar Haddad no segundo turno. Envolve esperar no segundo turno, além das alianças já estabelecidas com o PMDB, as que previsíveis – com o PSDB e “os mercados”. Uma disputa de segundo turno, entre Haddad e Bolsonaro, será dificílima. Além da oligarquia financeira – e toda sua cadeia de influências –, o candidato fascista terá o previsível apoio da velha mídia, e metade do tempo de TV. Estará na reta final da convalescença. Estas circunstâncias anormais, e facilmente manipuláveis, exigirão uma frente vasta para combatê-lo. A que preço Fernando Henrique Cardoso ou José Serra e um ou outro banqueiro entrarão no barco de Haddad?

Há um caminho alternativo – mas exige pensar outra política. Significa desfazer a polarização que tem como centro o petismo. Implica trocá-la por outra, de fato politizadora, que colocará em confronto o que realmente importa. De um lado, os que nos opomos ao golpe e suas medidas.. De outro, os que querem aprofundá-lo. Esta polarização permite pensar no resgate dos direitos e num novo projeto de país. E extremamente viável, do ponto de vista eleitoral.

Porém, exige mexer um ponto crucial. O petismo (ao qual o PCdoB associa-se cada vez mais) estará disposto a abdicar de sua tentação hegemonista? Saberá enxergar que se tornou uma parte – e não o centro – da luta para superar o capitalismo brasileiro, em sua versão cada vez mais financeiraizada e submissa? Aceitará acenar a algo como uma “Geringonça Brasileira” – um governo de que participem Ciro, Boulos e o vasto leque de movimentos que resistem à agenda de retrocessos? Ou preferirá, como tantas vezes, postar-se ao trono e esperar a adesão por gravidade?

Os cenários e desafios de 2018 são certamente inéditos. Lula é um gênio político – mas não alguém capaz de enfrentar sozinho desafios desta monta. Saberemos, juntos, corresponder ao que temos pela frente?

Leia mais