“Que futuro espera a Igreja?”. Artigo de José María Castillo

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30 Novembro 2018

“Se os Evangelhos não mentem, é um fato que Jesus, o Senhor, enfrentou o Templo, os sacerdotes, os mestres da Lei, as observâncias religiosas que se antepunham à cura dos doentes e que desprezavam os estrangeiros e os pecadores... Jesus enfrentou, além disso, os observantes (fariseus) que se viam superiores às pessoas comuns. Tudo isto supõe que a religião está afundando? Se for por isso, eu não me sinto pessimista”, escreve José María Castillo, teólogo espanhol, em artigo publicado por Religión Digital, 29-11-2018. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

O conhecido historiador francês, Fréderic Lenoir, soube formular uma realidade que dá motivos para pensar a fundo. Que futuro espera a Igreja? É um fato que a religião está em crise. Isso significa que a Igreja também está? Muito cuidado ao responder esta questão! Que a coisa não está tão clara, quando se pensa a sério e sem medos.

E aqui vem Lenoir. Diz este historiador: “Os homens de Igreja, deslumbrados com o êxito de sua religião, apegaram-se ao poder” (El Cristo filósofo, 2009, pág. 20). Contudo, isto levou os homens de Igreja a ver a realidade como realmente não foi, nem é.

Explico-me, citando novamente Lenoir.

“A Inquisição foi abolida no século XVIII, mas por quê? Porventura porque a Instituição tomou consciência de seu abominável comportamento e decidiu reparar? Não. Simplesmente porque já não tinha os meios que a vontade de dominação requeria (na Espanha tivemos Inquisição até o s. XIX, com Fernando VII). Porque a separação da Igreja e o Estado... privou (a Igreja) do “braço secular” em que se apoiava para tirar a vida dos hereges. Porque os humanistas do Renascimento e os filósofos ilustrados tinham conseguido instaurar a liberdade de consciência como um direito fundamental de todo ser humano.

Hoje, estas ideias se impõem a todos (ou à imensa maioria) no Ocidente, crentes e não crentes. Não foram implantadas através da Igreja, mas, sim (em muitos casos), contra a Igreja... O grande paradoxo, a ironia suprema da história é que o surgimento moderno da laicidade, os direitos humanos, a liberdade de consciência, tudo o que surgiu nos séculos XVI, XVII e XVIII contra a vontade dos clérigos, produziu-se através do recurso implícito e explícito à mensagem original do Evangelho... que não chegou aos homens pela porta da Igreja, mas pela janela do humanismo do Renascimento e a Ilustração (o. c., p. 21).

Eu sei que a tudo isto poderão (e deverão) ser feitas as ponderações que forem necessárias. Mas, em todo caso, andemos com cuidado. Podemos nos deparar com surpresas que não imaginamos. Em pleno s. XX, o Papa Pio X disse, na encíclica “Vehementer Nos” (ASS, n. 19, págs. 8-9):

“Somente na Hierarquia residem o direito e a autoridade necessária para promover e dirigir todos os membros para o fim da sociedade. Em relação à multidão, não tem outro direito que o de se deixar conduzir e, docilmente, seguir seus pastores”.

O que está afundando a religião sustentadora e promotora destes disparates? No que diz respeito aos disparates, o quanto antes afundarem, melhor. Mas, então, o que ficará em pé? Ou melhor dito, que futuro espera a nós que continuamos pensando que, na Igreja, resta uma luz de esperança?

Minha resposta, no momento, é esta: se os Evangelhos não mentem, é um fato que Jesus, o Senhor, enfrentou o Templo, os sacerdotes, os mestres da Lei, as observâncias religiosas que se antepunham à cura dos doentes e que desprezavam os estrangeiros e os pecadores... Jesus enfrentou, além disso, os observantes (fariseus) que se viam superiores às pessoas comuns. Tudo isto supõe que a religião está afundando? Se for por isso, eu não me sinto pessimista.

Que necessitamos do Evangelho? Minha convicção é que agora é o momento em que mais necessitamos dele. Por isso, eu vejo agora o futuro da Igreja mais esperançoso do que nunca. Porque está afundando o que Jesus disse que precisava acabar: “Aproxima-se a hora, e é agora, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade” (Jo 4, 23). O que nos fica então? Exatamente o mesmo que Jesus disse em seu mandato final: “Amem uns aos outros, assim como eu amei vocês. Nisto se conhecerá que vocês são meus discípulos” (Jo 13, 14-15).

Continuaremos aprofundando. O que acabo de dizer não é nada mais que o ponto de partida. Continuará.  

(Fonte: Religión Digital)

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