Transição para além dos combustíveis fósseis exige novo modelo econômico

Foto: WDnet Studio/Canva

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02 Julho 2026

Subsídios, falta de financiamento e conflito de interesses são desafios para acelerar a transição energética, apontam especialistas.

A informação é publicada por ClimaInfo, 01-07-2026.

Como tornar a transição para além dos combustíveis fósseis economicamente possível, politicamente viável e socialmente justa em um cenário de extrema instabilidade geopolítica? Não há resposta fácil, nem única. Mas os caminhos envolvem o fim dos subsídios para petróleo, gás e carvão; o aumento da oferta de recursos financeiros para países em desenvolvimento; e a promoção de políticas de desenvolvimento verde que criem resiliência e evolução macroeconômica.

Estas foram algumas das propostas dos especialistas reunidos no seminário virtual “Transição para além dos fósseis: impactos econômicos, geopolítica e caminhos globais para financiar uma transição justa”, promovido na 3ª feira (30/6) pelo ClimaInfo e pelo Centro de Energia, Finanças e Desenvolvimento (CEFD) (assista aqui). Foi o segundo webinar da série “Mapa do Caminho para longe dos combustíveis fósseis”, realizada pelo ClimaInfo e pelo Observatório do Clima.

O seminário reuniu Ana Toni, diretora executiva da COP30; Peter Newell, professor da Universidade de Sussex e uma das principais referências internacionais em política climática e transição; Amir Lebdioui, professor associado da Universidade de Oxford e especialista em industrialização verde e diversificação econômica; e Nicolas Lippolis, diretor executivo do Centro de Energia, Finanças e Desenvolvimento (CEFD) e especialista em financiamento da transição, que atuou como moderador.

Todos concordaram que a crise do petróleo provocada pelo conflito no Oriente Médio escancarou que o investimento em fontes renováveis de energia é um ótimo negócio para garantir resistência e resiliência a choques externos. Mas há muito mais a ser feito para a transição para além dos combustíveis fósseis do que o encarecimento dos preços do petróleo e o barateamento das renováveis. Essa “virada de chave” envolve mudanças no atual modelo econômico, um tremendo desafio.

“Vivemos uma economia dos combustíveis fósseis há mais de 200 anos. Nossos sistemas políticos estão extremamente dependentes dela. E mudar a economia política é difícil”, destacou Ana Toni. Contudo, ela avalia que desde a COP28, em 2023, em Dubai, a transição energética deixou de ser um tabu.

Apesar das dificuldades do multilateralismo, a diretora da COP30 defende que a elaboração do mapa do caminho global para além dos combustíveis fósseis é um bom exemplo de que a cooperação internacional continua operando. Segundo Ana, o roadmap global, que será entregue até a COP31, também deve ser um passo para garantir que a transição ganhe mais espaço no próximo balanço global (GST), daqui a dois anos.

Peter Newell destacou o endividamento dos países em desenvolvimento como um dos maiores obstáculos para a transição além de petróleo, gás e carvão. Ele lembrou que 76 nações de baixa e média rendas produzem combustíveis fósseis, e metade delas está expandindo essa extração.

“Quando o endividamento é alto, é difícil financiar a transição energética. O desafio é limitar o poder da indústria de combustíveis fósseis. Não basta apenas baratear as fontes renováveis de energia, é preciso limitar o poder que essa indústria tem. É preciso mudar as relações de poder. Por outro lado, o fracasso de economias dependentes dos fósseis rejuvenesce o debate”, ressaltou.

Para Amir Lebdioui, a transição para além dos combustíveis fósseis é uma oportunidade de crescimento de outros nichos econômicos e da oferta de empregos. No entanto, os conflitos de interesse internos dos países dificultam essa percepção. Ele dá como exemplo as divergências de visão sobre o tema de ministérios da Fazenda, de Energia e do Meio Ambiente das nações.

“A política verde tem de ser vista além de seu valor ecológico. Ela é uma estratégia de resiliência e evolução macroeconômica. E é importante que os governos sejam capazes de adaptar os instrumentos dessa política continuamente. Afinal, não existe um único instrumento ou setor correto. A China é um exemplo dessa capacidade de ajuste”, mencionou.

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