“Os discursos dos feminismos ecoterritoriais questionam uma estrutura de poder na qual não se quer tocar”. Entrevista com Yayo Herrero

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29 Novembro 2025

A ativista ecofeminista ministrou uma série de palestras sobre ativismo ecoambiental em tempos de crise. Ela oferece um olhar feminista, político e anticolonialista do mundo.

A entrevista é de Maby Sosa, publicada por Tiempo Argentino, 12-09-2025. A tradução é do Cepat.

“Devo tudo à minha participação nos movimentos sociais”, diz Yayo Herrero, antropóloga, professora, engenheira e ativista ecofeminista espanhola. Ela esteve na Argentina ministrando a palestra “Reexistir em Tempos de Crise” em Córdoba, Rosário e na Cidade Autônoma de Buenos Aires.

“O estudo, a academia e a universidade me deram muitíssimo mais coisas, mas o que me ensinaram teria sido completamente descontextualizado se não estivesse ancorado nos movimentos sociais dos quais participo”, esclareceu em entrevista ao Tiempo Argentino pouco antes de sua palestra em Córdoba.

Yayo é ativista de Ecologistas en Acción e membro da cooperativa Garúa, além de líder internacional do pensamento crítico sobre a crise ecossocial.

Ela lembra que seu pai morreu quando ela era muito jovem, deixando a mãe responsável pela criação de cinco filhos. “Passamos por muitas dificuldades e esse aprendizado foi fundamental para mim”, comenta. Sua ligação com a América Latina também foi formativa. “Compartilhar e ouvir as críticas das minhas companheiras latino-americanas ao colonialismo foi fundamental. Por ser da Espanha, eu não participei desse aprendizado na minha militância inicial”.

E conclui: “Sem compreender os processos do colonialismo, sem compreender o colonialismo, não seremos capazes de nos compreender na Europa. E sem esse aprendizado, sem ouvir a resistência que ocorre em lugares como a América Latina ou que também ocorre em muitos lugares do continente africano, eu não teria conseguido compreender nem mesmo os processos que ocorrem na Europa”.

Eis a entrevista.

Qual é a relação entre ecologia e feminismo?

A relação entre ecologia e feminismo é percebida com muita clareza quando pensamos no que mantém os seres humanos vivos. Devemos reconhecer que somos uma espécie viva, um animal especial, mas um animal que faz parte da teia da vida. Uma teia composta de ar, água, plantas e microrganismos que interagem entre si e que geram a própria possibilidade de estarmos vivos. Ou seja, não há tecnologia ou economia que seja capaz de fabricar a água que controla a fotossíntese ou que fabrica e controla o oxigênio que respiramos. Se estamos vivos, é obviamente porque pertencemos a essa teia da vida. Essa tem sido uma preocupação central dos movimentos em defesa da vida e em defesa do território.

Mas, por outro lado, os seres humanos também são seres vulneráveis. Somos seres carentes desde o nascimento até a morte. Necessitamos de comida, abrigo, participação e também de cuidado, que, por sua vez, tem sido historicamente fornecido por mulheres organizadas em comunidades. Não porque as mulheres estejam melhor preparadas para isso ou tenham geneticamente mais qualidades, mas porque vivemos em sociedades que atribuem a elas essas tarefas de forma não livre e, além disso, não atribuem a elas nenhum tipo de valor; dão-se como certas. Se reconhecemos essa vulnerabilidade e, portanto, a dependência da teia da vida, encontramos uma conexão entre as preocupações do feminismo e as de muitos movimentos ecologistas quando se trata de sustentar a vida humana.

As mulheres que se dedicam ao trabalho rural, as camponesas, têm uma conexão diferente daquela dos homens que realizam essas tarefas nesses territórios. Por quê?

Esse vínculo está profundamente entrelaçado nos processos de socialização. Não creio que exista uma conexão natural entre mulheres e territórios. O que existe talvez seja uma maior consciência dessa conexão devido ao fato de que as mulheres são as que têm que sustentar a vida, às vezes em sistemas que ameaçam a própria vida. Sem dúvida, os homens têm as qualidades e potencialidades perfeitamente capazes de assumir esse cuidado da terra e esse cuidado da vida. De fato, muitos dos nossos colegas o fazem.

Portanto, nas áreas rurais podemos constatar que, quando se tem que produzir alimentos e cultivá-los, quando se tem que fornecer água, quando se tem que manter o cuidado de uma comunidade com diferentes vulnerabilidades, tece-se uma relação diferente. O mesmo se aplica aos espaços urbanos. No meu país, pelo menos, muitos movimentos em defesa da moradia ou contra a pobreza energética são predominantemente liderados por mulheres e são movimentos urbanos que são a expressão da defesa do território no âmbito urbano e do que tem a ver com o direito à cidade.

Você fala do trabalho rural. Na Argentina, quando se pensa no campo, e até mesmo no trabalho rural, imediatamente vem à mente a ideia do homem montado num cavalo e usando chapéu. Por que as mulheres camponesas são invisibilizadas?

No meu país, acontece de certa forma a mesma coisa. Tem muito a ver com as políticas públicas e com os sistemas de propriedade. Embora as próprias leis estabeleçam os direitos das mulheres à terra em muitos espaços de produção familiar, elas não têm a propriedade da terra; elas não são protagonistas. Elas não têm visibilidade quando se trata de produzir ou ir aos mercados; nestes espaços, os homens estão sempre muito mais presentes. Então, falemos sobre o lado produtivo das mulheres no campo; a produção, o processamento e a venda de alimentos muitas vezes permanecem em grande parte invisíveis.

Além disso, há uma proeminência nos espaços públicos urbanos sobre as áreas rurais, como se valessem mais, como se fossem mais importantes. Isso invisibiliza tudo o que tem a ver com o trabalho de se relacionar diretamente com o território, de estar nele, de ser território e de produzir alimentos. O mapa da opressão é histórico. Acontece que tudo o que tem a ver com produzir e sustentar a vida é dado como certo e essencial. Mas não é nomeado, não é observado, não é visto. E isso alimenta um mecanismo perverso de poder que dá poder justamente ao que destrói a vida e não ao que é.

Como se aborda um discurso ecologista em um contexto tão hostil que estigmatiza o ativismo ecoambiental?

Com muitas dificuldades. Vivemos, tanto em termos de políticas públicas quanto em termos de discurso público e dos espaços hegemônicos de poder, um momento de profundo retrocesso que, acredito, tem a ver com a própria crise psicossocial que está sendo negada. Ninguém quer falar sobre o aquecimento global, as mudanças globais, o declínio de energia e minerais, ou a perda de biodiversidade. Além disso, essas questões continuam sendo apresentadas como grandes problemáticas da natureza, como se ela fosse simplesmente um depósito de recursos disponíveis para os seres humanos.

Quando percebemos que não estamos fora dessa teia da vida, e que nenhuma vida humana é possível fora dela, o que constatamos é que qualquer alternativa que busque colocar a vida no centro é uma alternativa que se choca frontalmente com um sistema capitalista e colonial, que é patriarcal. E que também é destrutivo.

Então, os discursos ambientalistas ou em defesa do território — porque há muitas pessoas que não querem ser chamadas de ecologistas —, ou os discursos dos feminismos ecoterritoriais questionam diretamente uma estrutura de poder na qual não se quer tocar. Há uma reação violenta que nega o problema estrutural, que coloca como bodes expiatórios e apresenta como ameaças justamente aquelas pessoas que os denunciam e aquelas pessoas que reconstroem essa resistência.

Tanto o feminismo como o ecologismo parecem estar separados do discurso político; inclusive raramente aparecem nas plataformas eleitorais. Por que isso acontece?

Há momentos em que o movimento social ganha alguma notoriedade, e alguns partidos políticos ou alguns setores tentam usar algumas dessas ideias como marketing eleitoral. Do contrário, desaparecem. E eu penso que desaparecem porque temos uma cultura hegemônica que não coloca a vida no centro. Ela gira em torno de outras premissas. Há uma centralidade tão grande do dinheiro que ele se tornou uma espécie de valor sagrado e, de certa forma, acaba operando como uma religião civil que estabelece ou foi construída sobre uma ideia de lógica sacrificial. Tudo pode ser sacrificado se a economia crescer.

E quando surgem visões radicais que minam os alicerces que sustentam essa lógica de sacrifício e essa religião civil que é o capitalismo, com seus fundamentos coloniais e patriarcais e o ecocídio em seu cerne, há setores políticos que as rejeitam e reagem violentamente. Mas mesmo os setores políticos, às vezes mais simpáticos, têm medo de mencioná-las. Têm medo de tocar nesse fundamento que parece intocável.

Existe a ideia de que o ecologismo ou qualquer coisa relacionada ao meio ambiente está completamente alheio à justiça social, mas é exatamente o contrário.

Devemos ser autocríticas e reconhecer que alguns ecologismos e alguns ambientalismos levantaram suas demandas e problemas muito alheios à questão da justiça social. No meu país, houve momentos em que alguns ambientalistas que se preocupavam com a biodiversidade, que se preocupavam com a manutenção de um determinado parque natural, não o faziam a partir de uma perspectiva que considerasse a vida humana inseparável da vida natural. São duas coisas absolutamente inseparáveis. Os seres humanos, as pessoas, compartilham um destino com a própria teia da vida.

Não há possibilidade de pensar em justiça social distribuída e que alcance a todos se não pensarmos em como manter ou preservar as capacidades negativas dos ecossistemas que produzem alimentos, geram o ar que respiramos e fornecem água. Sem todos esses ciclos auto-organizados, e que não são controlados pelos seres humanos colocados no centro, é absolutamente impossível que a justiça social universal se propague. O que vai acontecer são sujeitos humanos que se apropriam do que é de todos, mantêm seus privilégios, e muitas outras pessoas se verão expulsas para as margens ou colocadas à margem da vida. O que estamos vendo, por exemplo, na Europa, no Estreito de Gibraltar, o que acontece com as pessoas, ou as guerras que estamos presenciando atualmente no mundo, sem falar do genocídio brutal contra o povo palestino, demonstra como, quando as coisas são feitas a partir das lógicas de poder, se distribui o que é imprescindível e que procede da terra.

Vivemos anos em que tínhamos uma tendência à luta igualitária e à conscientização ecologista; agora há um aparente retrocesso. O que resta desses avanços?

Restam muitas coisas, e basta ir aos territórios onde as pessoas estão se organizando e ver que os processos de resistência popular são enormes. É verdade que, quando a política institucional desencadeia um ataque brutal que coloca em risco as condições dignas de vida das pessoas, muitas dessas resistências têm que enfrentar a mera sobrevivência. Naqueles lugares onde tudo ainda é muito mais hostil, os mecanismos de apoio mútuo, resistência e acompanhamento se aprofundam, mesmo que de forma muito invisível. Ou se aprofundam de forma extremamente intensa. Vivemos um momento de absoluta convulsão. Tenho a sensação, pelo que vemos ao nosso redor, de que estamos em uma espécie de montanha-russa.

Parece que, de repente, estão surgindo perspectivas políticas que destroem tudo, que são extremamente racistas, violentas e, provavelmente, como não resolvem ou agravam os problemas, sofrerão derrotas eleitorais, e outras perspectivas mais progressistas surgirão, entre outras coisas. Mas penso que o importante é construir movimentos populares que transformem o processo a partir de baixo. Que transformem esses processos de guerra contra a vida a partir de baixo.

Muitas vezes, quando de repente surgem essas extremas-direitas ultraviolentas, há também uma reação de setores progressistas que não abordaram os problemas estruturais. E vice-versa. Pelo menos no meu país, isso também está acontecendo de certa forma. Esse fenômeno de montanha-russa tem a ver com um momento político em que múltiplas contradições precisam ser gerenciadas e em que se tenta ver como o planeta em que vivemos transformou a teia da vida em um agente político com o qual não podemos negociar.

Na lógica da destruição, que tem seus responsáveis e que tem sido realizada por um pequeno número de setores com poder econômico, político e militar no mundo, isso acabou causando uma situação que torna nosso planeta um lugar estranho. E temos que aprender a conviver com isso. A acumulação de poder e de violência deixa setores que não causaram os problemas em uma situação extrema.

Eu ando bastante pelo meu país. Aonde quer que eu vá, encontro novos grupos, pessoas que se auto-organizam para descobrir como resolver problemas que muitas vezes não recebem muita visibilidade na mídia, mas que, para mim, constituem uma espécie de processo revolucionário humilde. E quando digo humilde, não me refiro à falsa modéstia.

Cada vez mais pessoas estão percebendo que, sob a lógica sacrificial que destrói tudo em torno do dinheiro, não temos muitas chances. E, portanto, futuros esperançosos são construídos sobre um presente que se baseia radicalmente nessa consciência de pertencer à teia da vida. E na consciência de sermos sujeitos profundamente comunitários.

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