Conversa em podcast discute o lado político das mudanças climática, as diferenças de impactos em cada território e a importância do trabalho em conjunto entre sociedade e poder público
“Não estamos todos no mesmo barco.” É assim que responde Igor Travassos, do Greenpeace Brasil, quando perguntado sobre os impactos mundiais da crise do clima. As causas dessa desigualdade climática, formas de atuação da sociedade civil e o papel do poder público são os principais temas da conversa entre Igor e o geógrafo Bruno Araújo para o podcast Planeta A.
Para o integrante do Greenpeace, é fundamental que as populações mais vulnerabilizadas tenham maior amparo do poder público no enfrentamento aos impactos da mudança climática, já que são os mais atingidos. “Essas populações que são mais impactadas não são vulneráveis, elas são vulnerabilizadas pela omissão das políticas públicas. Elas já criaram condições de coexistência. O que elas precisam é de estrutura, de que várias dessas soluções, dessas tecnologias sociais que já foram desenvolvidas no território, tenham o suporte da política pública. Que os governos, os tomadores de decisão, enxerguem e não façam política pública para essas pessoas. É fazer política pública com essas pessoas. Para e por essas pessoas e esses territórios”, explica ele no podcast, republicado na íntegra em ((o))eco.
Igor é cineasta e comunicador e atualmente lidera a frente de Justiça Climática do Greenpeace Brasil. “Se a gente olhar para os históricos de eventos extremos no Brasil, vemos sempre que quem morre tem uma cor, tem um CEP, e essa cor e essa localização são sempre pessoas negras ou indígenas em contexto urbano, falando especificamente dos centros urbanos, e estão nas periferias”, disse.
A entrevista, publicada orginalmente em outubro do ano passado, é de Júlia Mendes e Bruno Araujo, publicada por ((o))eco, 31-03-2025.
Bruno Araújo: A crise climática é um fenômeno global que atinge o planeta inteiro. Estamos todos no mesmo barco?
Igor Travassos: Não, não estamos no mesmo barco.
A crise pode existir para todos, mas tem gente que está de caiaque, enquanto tem gente que está de transatlântico. Então, as condições são diferentes, porque nós vivemos numa situação de desigualdade no mundo todo. Então, tem gente que, em uma alta temperatura, por exemplo, vai ter condição de uma climatização, vai ter condição de comprar um ar-condicionado e manter esse custo de energia e isso é uma situação muito básica. E tem gente que não, que vive numa precariedade, não tem condições mínimas para lidar com isso. Só trazendo esse exemplo. Mas, na verdade, são exemplos muito mais complexos, situações muito mais complexas do que essa. Porque a gente vive num estado de desigualdade.
Se a gente olhar para a realidade brasileira, por exemplo, ela é constituída a partir de uma situação de desigualdade. Na geopolítica internacional, a gente tem um histórico de colonização e exploração do norte global, tanto de recursos naturais, como também da exploração da mão de obra, da exploração humana do norte global para o sul global. Então, a gente não tem a mesma capacidade e estrutura de responder, então não estamos no mesmo barco.
Queria que você falasse agora um pouco sobre o trabalho que vocês vêm desenvolvendo na frente do Greenpeace. Como é o trabalho? Como vocês se articulam? Qual é a prioridade do Greenpeace nesse momento?
Bom, o Greenpeace é uma organização que, no Brasil, atua mais de 30 anos na defesa e na proteção da sociobiodiversidade e faz isso a partir de campanhas de mobilização, de engajamento da população para incidência política, para a cobrança dos tomadores de decisão e para essa proteção da sociobiodiversidade. Existe um trabalho reconhecido na proteção dos biomas, no caminho para um desmatamento zero, da não continuidade da exploração do petróleo, na mudança da matriz energética… Enfim, caminhos que são de mitigação. No entanto, acho que não só o Greenpeace, mas o ecossistema de organizações, e organizações não só socioambientais, mas de direitos humanos, têm entendido que a crise climática, ela é agora, ela está acontecendo agora, e que as pessoas estão morrendo por causa da crise climática.
Então, a gente precisa agir agora por precisar garantir os direitos fundamentais e constitucionais da população. Não só o Greenpeace, mas várias organizações da sociedade civil, começaram a pensar e pautar sobre adaptação. Então, se a crise está posta, a gente precisa continuar os esforços na preservação do meio ambiente, na restauração, basicamente, no replantar, na reconstrução, mas também a gente precisa se adaptar a essa nova realidade. E se adaptar a essa nova realidade não é simplesmente aumentar a capacidade de resiliência urbana, infraestrutura urbana, mas na verdade é adaptar a sociedade, adaptar vários setores econômicos e sociais para lidar com esse cenário que a gente está vivendo, que como a gente tem repetido muitas vezes, vai ficar cada vez mais intenso e mais frequente e que a gente precisa, sobretudo, garantir o direito à vida das pessoas.
A palavra adaptação, na verdade, essa ação de adaptar, ela está muito em alta, tanto nas discussões internacionais, com a discussão sobre, por exemplo, o Fundo Internacional de Adaptação e Perdas e Danos, mas também tem chegado na escala local, tendo em vista que a crise climática já produz os seus efeitos no nosso dia a dia. Surgiu lá no Rio Grande do Sul, depois das enchentes, várias propostas de adaptação, várias iniciativas do Governo do Estado de Adaptação e algumas muito criticadas pela sociedade. O que a gente está falando ou o que a gente precisa mobilizar quando fala de adaptação? Que adaptação é essa que a gente precisa construir? Quais são as características dessa adaptação?
A crise é global, mas os efeitos, quem sente, é local. A gente não tem adaptação, ela não é receita de bolo. A gente não simplesmente adapta todos os territórios da mesma forma. Estamos falando de territórios, de regiões, cidades, que têm características culturais, sociais, geológicas e hidrológicas completamente diferentes. Se a gente olhar para um país com a dimensão continental que a gente tem, como o Brasil, a gente não pode achar que as soluções serão as mesmas para todo lugar. Se a gente olhar para o próprio estado do Rio Grande do Sul, as soluções que vão ser desenvolvidas para Porto Alegre já são diferentes para o Vale do Taquari. As soluções para Porto Alegre não vão ser as mesmas para o Rio de Janeiro, para São Paulo, para Recife ou para Belém.
Cada território tem sua composição, sua constituição. Então, a gente precisa justamente considerar isso e considerar as pessoas que estão sendo mais impactadas. As pessoas estão sendo impactadas de forma desigual, mas esse convívio com esses impactos desiguais também não é de agora. Então, essas populações que são mais impactadas, elas não estão sendo mais impactadas agora, elas já vêm sendo mais impactadas há muito tempo. Essas populações que são mais impactadas não são vulneráveis, elas são vulnerabilizadas pela omissão das políticas públicas. Elas já criaram condições de coexistência. O que elas precisam é de estrutura, de que várias dessas soluções, dessas tecnologias sociais que já foram desenvolvidas no território, tenham o suporte da política pública. Que os governos, os tomadores de decisão, enxerguem e não façam política pública para essas pessoas. É fazer política pública com essas pessoas. Para e por essas pessoas e esses territórios.
Então, o que a gente tem pautado é que, como a adaptação não é receita de bolo, a gente precisa que a adaptação, ela seja pensada e construída com quem mais é impactado e que já tem várias soluções para convívio, para adaptação.
O que a gente tem olhado e pesquisado é o maior programa de adaptação do mundo, que é o programa de cisternas. É um programa de desenvolvimento social que foi construído a partir de organizações da sociedade civil para a convivência no semiárido com a escassez hídrica. E que isso, na verdade, a escassez hídrica é um efeito das mudanças climáticas e tem se intensificado também a partir das mudanças climáticas. E aí essa tecnologia que foi implementada inicialmente para o semiárido brasileiro, ela pode hoje, a gente está lidando com uma seca na região norte.
A gente falou sobre as desigualdades dessa crise e como essa crise impacta de maneira diferente em territórios diferentes. Então eu queria que a gente agora conversasse sobre um termo que é muito utilizado quando se noticia esses eventos climáticos extremos, que é o desastre natural. Existe de fato o desastre natural? Esses fenômenos podem ser considerados desastres naturais?
Eu acho que a gente precisa desnaturalizar os desastres, porque se eles acontecem como acontecem no âmbito do desastre é justamente pela falta de estrutura de políticas públicas destinadas para estruturar aqueles territórios. Porque o que a gente mais vê, por exemplo, é uma mesma cidade recebendo a mesma quantidade, mesmo milímetros de pluviometria de chuva, por exemplo, e os efeitos são completamente diferentes.
O orçamento público, que é destinado para áreas nobres das cidades, para fazer macro e microdrenagem, por exemplo, é completamente diferente do que é destinado para as periferias. Por que a gente fala muitas vezes sobre racismo ambiental? Justamente porque quando a gente vai olhar sobre onde o poder público age, onde o poder público estrutura, prepara e cria resiliência urbana, é justamente nos lugares onde as populações negras não estão. O olhar da política pública, o investimento da política pública tem sido para as áreas nobres, as áreas embranquecidas das cidades. Se a gente olhar para os históricos de eventos extremos que a gente vê no Brasil, vemos sempre que quem morre tem uma cor, tem um CEP, e essa cor e essa localização, são sempre pessoas negras ou indígenas em contexto urbano, falando especificamente dos centros urbanos, e estão nas periferias.
O desastre natural já não é tão natural assim. Na verdade, é um desastre político. Esse desastre da crise climática é socialmente construído a partir de ações do poder público de alocação de recursos em determinadas áreas da cidade e não em outras, e das inações do poder público de promover ações de adaptação para esses territórios que estão mais vulnerabilizados.
Isso tudo me faz refletir que a crise climática é um vetor de potencializar as desigualdades que já existem na nossa sociedade. A chuva, quando cai do céu, encontra uma sociedade desigual e potencializa essas desigualdades por um conjunto de fatores que a gente falou. É saneamento básico, localidade onde está a residência, a drenagem daquele bairro, a relação daquele bairro, se ele está perto de corpo hídrico ou se ele não está perto de corpo hídrico, enfim…Uma série de fatores que estão muito relacionados à terra também, a ocupação da terra urbana. Recentemente aconteceu o lançamento da rede de adaptação antirracista em Pernambuco e eu queria que você dissesse para a gente o que é essa rede e por que a gente precisa de uma adaptação antirracista?
Quando a gente fala sobre as populações que são atingidas de forma desigual pelas mudanças climáticas, a gente tem que olhar o porquê. E o porquê disso está justamente ligado à desigualdade que acontece na formação da sociedade brasileira, do território brasileiro. Então a gente está falando, primeiro, desde a colonização por si só. Então olharam esse território aqui como se fosse de ninguém, quando na verdade existiam os povos indígenas aqui. Então essa terra tinha dono e uma propriedade que não era capitalista, era propriedade compartilhada. Enfim, é a terra como parte da identidade de um povo.
Então já temos a colonização de uma forma geral sendo do jeito que ela é ainda hoje esse olhar para a natureza como um produto e também para as pessoas como um produto. E essa colonização traz a escravização junto. Desse processo, a gente tem os povos indígenas e os povos negros, de África que foram escravizados, colocados ali como de fato sub-humanos, populações sem alma, sem direito a nada, então como indigentes. Isso se constitui na sociedade brasileira, a ocupação do espaço urbano desse território, ela se dá à base do extermínio, da violência, da negação da vida. Nesse processo, quando a gente tem a abolição, por exemplo, da escravidão no país, a gente não acaba com o racismo. Na verdade, a gente transforma. Ele não está baseado mais no sistema escravocrata, mas está na base da sociedade.
Quando a gente pensa sobre como que a gente faz para lutar por uma justiça climática, como que a gente faz para que esses efeitos provocados pela crise climática não sejam desiguais, sejam simplesmente as ações e práticas que a sociedade precisa ter para enfrentar e para conviver de forma igualitária. Óbvio que isso é utópico, porque a gente está baseado e constituído em desigualdade. Já que a gente está baseado e constituído em desigualdade, a gente precisa corrigir isso com equidade. Equidade é olhar para as diferenças, olhar para essas desigualdades e entender que a gente precisa de mais esforços para corrigir erros, que são erros históricos. Quando a gente fala sobre uma adaptação antirracista, é uma adaptação que considere a perspectiva das pessoas mais impactadas. E quem são as pessoas mais impactadas no Brasil? Racialmente falando, são pessoas negras e indígenas. Quando a gente fala sobre gênero, são mulheres. Quando a gente fala sobre perfil etário, são as crianças e os idosos. Porque uma cidade, um território, enfim, um país bom e preparado para lidar com as mudanças climáticas, da perspectiva da população negra, é um país bom e preparado para qualquer pessoa. Para a gente, não existe adaptação se ela não for antirracista.
Recentemente, a Anielle Franco, que é ministra da Igualdade Racial, fez um post nas redes sociais falando sobre racismo ambiental. E esse material viralizou, tanto a direita quanto a esquerda começaram a debater sobre esse tema. Eu queria que você explicasse o que é o racismo ambiental.
Em janeiro deste ano, 2024, a partir das chuvas aqui da Baixada Fluminense, a Anielle publicou sobre racismo ambiental, mas não é a Anielle que inventou esse termo. O Benjamin Franklin Chavis, pensador norte-americano, que cunhou o termo racismo ambiental. Mas também não é ele que inventa o racismo ambiental. Na verdade, se cria o conceito, mas o racismo ambiental, se a gente pensar na formação do Estado brasileiro, desde que o Brasil é Brasil a gente vive o racismo ambiental. Quando a colonização, os portugueses chegam aqui e acham que podem fazer o que quiserem, não consideram inclusive a ocupação indígena, a existência dos povos indígenas aqui, acham que eles são donos dessa terra, isso já mostra, já é puro e simples racismo ambiental.
E aí, a partir disso, ano a ano dessa ocupação, da colonização e da estruturação, dessa urbanização colonial que a gente tem e que segue até hoje, a gente só alavanca, só impulsiona, o que é o racismo ambiental. Hoje, na forma da urbanização que a gente tem, da ocupação das cidades, da formação das cidades, isso está muito presente na ocupação dos territórios. Então, como por exemplo, racialmente, a cidade é ocupada.
A gente tem que, antes de tudo, voltar algumas casinhas e pensar sobre racismo, sobre racismo enquanto ideia, não enquanto estrutura ou sistema, mas enquanto ideia. Uma ideia de superioridade, uma ideia de que um grupo é superior a outro em existência.
Então, eu posso fazer o que eu quero com aquele outro grupo, porque ele é inferior a mim, eu sou superior. Essa ideia de superioridade, de supremacia. Isso é colocado, inclusive, na própria condição humana de se achar superior a outras espécies. Posso explorar a natureza porque eu sou superior a ela. Isso está como ideia. Então, essa ideia estrutura um sistema. E aí, a gente tem à disposição dos territórios o que a gente chama de racismo ambiental. Que, na verdade, é um conjunto de coisas. A gente hoje, por exemplo, fala que os eventos climáticos extremos materializam o racismo ambiental. Porque eles mostram para todo mundo quem é que morre quando vem as fortes chuvas. Que foi exatamente a pergunta, a explicação da ministra.
Ela justamente falando que só pessoas negras periféricas morreram aqui no Rio de Janeiro, na Baixada Fluminense, em janeiro. E que isso evidenciava o que era racismo ambiental.
Igor, para a gente terminar, eu queria te perguntar uma recomendação de leitura ou série. O que você está lendo? O que você está vendo nesse momento?
Uma leitura muito boa para mim é o livro Racismo Ambiental e Emergências Climáticas, que foi desenvolvido pelo Instituto de Referência Negra Peregum, organizado pela Mariana Belmont, com a Aura Leituras. Esse livro está disponível online e gratuito.
Também eu acho que uma série interessante para pensar sobre o futuro, acho que é Extrapolations. É uma série que está na Apple TV, que fala a partir desse contexto que a gente inclusive vai viver no próximo ano de COP e futuro. O que a gente está lidando nessas discussões. Acho que é ficção. Então a gente olha para frente nessa ficção. Acho que é interessante da gente pensar um pouco.
E recomendo uma leitura que eu gosto muito, O Caminho de Casa, de Yaa Giasi. É um livro que vai de geração a geração acompanhando o fruto, na verdade, da separação e do racismo a partir de duas pessoas, duas mulheres de uma mesma comunidade que a partir do racismo, a partir da colonização, são separadas e tomam rumos diferentes.
E a gente acompanha capítulo a capítulo a geração seguinte. E isso vai até a década de 70 nos Estados Unidos. E é bem interessante da gente entender como o racismo opera em suas diferentes esferas. Não é sobre racismo ambiental, mas é sobre racismo, sobre populações e existências das subjetividades negras também. Então é isso.