27 Fevereiro 2025
“É horrível que cardeais, bispos e padres já estejam pensando e trabalhando no conclave com o Papa vivo”. Jean-Claude Hollerich, arcebispo de Luxemburgo, não mede suas palavras. Relator geral do Sínodo dos Bispos e membro do Conselho de Cardeais, ele é uma das figuras-chave do pontificado.
A entrevista é de Domenico Agasso, publicada por La Stampa, 24-02-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eminência, a Igreja está apreensiva com o fato de o Papa estar hospitalizado. O que isso significa para a comunidade eclesial?
Acho que toda a Igreja está rezando pelo Pontífice com grande intensidade. Nestes dias, encontrei muitas pessoas que sentem uma dor sincera em seus corações, porque se identificam com seu sofrimento e estão próximas a ele com afeto e devoção. É uma experiência que, apesar da preocupação, revela algo profundamente belo: uma Igreja unida, que se reúne em oração por seu Pastor, testemunhando assim a comunhão que nos une em Cristo. Esse vínculo de fé e amor é mais forte do que qualquer dificuldade e se manifesta de maneira extraordinária precisamente nos momentos de provação.
O senhor está dizendo que, diante do sofrimento do Bispo de Roma, percebe-se um sentimento de superação das divisões e das tensões que marcam os Palácios Sagrados?
Há um senso de unidade em torno do Papa que está sofrendo. Sim, pelo que vejo e sinto, é assim. Nessas horas, para além das diferenças de pontos de vista ou das discussões que às vezes atravessam a Igreja, há um sentimento comum: a oração e a proximidade com o Pontífice. Francisco é um ponto de referência para todos, e quando um pai sofre, a família se reúne em torno dele. Esse é um sinal importante: nos lembra que, para além de qualquer tensão, a Igreja é uma comunidade viva, alimentada pela fé, esperança e amor. É claro que há exceções.
Muitas vezes se fala em estratégias em vista de um futuro Conclave. O senhor acha que algo assim já está em andamento?
Sempre haverá alguém que trama, que se concentra em manobras para enfraquecer o papado, isso faz parte da natureza humana. Mas, para mim, está muito claro o que o Papa disse em várias ocasiões: ele não quer nenhum cálculo ou especulação enquanto estiver vivo e exercendo seu ministério. Considero profundamente desrespeitoso o fato de haver quem está mais preocupado instrumentalmente com o futuro da Igreja do que com a saúde do Bispo de Roma neste momento. É claro que a sucessão é sempre um tema para reflexão, mas quando o Santo Padre ainda está entre nós e continua a liderar a Igreja, devemos nos preocupar em apoiá-lo com nossa proximidade, em vez de especular sobre cenários futuros. É horrível que padres, bispos, cardeais e religiosos pensem e trabalhem no conclave com o Papa vivo.
O Jubileu é um tempo de graça e celebração. Mas como se concilia com a doença do Pontífice?
Quando rezei por ele, lembrei-me daquele momento extraordinário de oração com o qual Francisco invocou a cura para o mundo que estava de joelhos pelo Covid: ele estava sozinho na Praça de São Pedro, na chuva, e confiou a humanidade ao Senhor. Era uma imagem poderosa: o Sucessor de Pedro, em solidão, mas com imensa força espiritual, diante do Santíssimo e da Cruz. Em certo sentido, também o vejo assim hoje: o Papa está mais uma vez unido à Cruz de Cristo. O Ano Santo é sempre um tempo de alegria, mas a alegria cristã nunca é superficial: ela traz consigo a profundidade da Cruz. É uma alegria que nasce da esperança e passa pelo sofrimento redimido. Francisco nos lembra dessa realidade da fé, e talvez essa mesma provação o torne ainda mais um sinal de esperança para a Igreja.
Alguns especulam sobre a possibilidade de renúncia ao pontificado. O senhor acha que esse é um cenário plausível?
Acredito que somente o Papa pode tomar tal decisão, e é correto que não nos aventuremos em especulações. Francisco sempre disse que a renúncia é uma opção possível, mas cabe somente a ele discernir se e quando seria apropriada. Pessoalmente, vejo nele um líder espiritual e pastoral de grande força, mesmo em sua fragilidade física. Quando soube de seu recente ataque asmático, senti grande preocupação e sincera tristeza, porque Francisco não é apenas um líder, ele é um pai para todos nós. Para mim. O mais importante agora é acompanhá-lo com a oração e o carinho, deixando tudo o mais de lado.
O senhor disse que muitas pessoas estão rezando pelo Papa. Além da fé, qual acredita ser o principal motivo desse calor humano e dessa conexão com ele?
Acho que a resposta é simples e poderosa ao mesmo tempo: Francisco é o papa do Evangelho. Ele fala conosco como Cristo falaria conosco, acolhe a todos sem distinção, com um coração aberto e misericordioso. Ele foi capaz de devolver à Igreja sua face mais autêntica, não como simples instituição portadora de doutrinas ou sistema de verdades, mas como um lugar de encontro com Deus. As pessoas perceberam isso, sentiram-no em seu íntimo. E é por isso que elas amam Francisco: porque ele encarnou uma Igreja que é próxima, que consola, escuta e acompanha. É a Igreja de Jesus, aquela que o mundo deseja e de que precisa.