O parlamento na vanguarda do atraso e a ‘opção’ pelo desenvolvimentismo ruralista

Marco Verch - Flickr

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

29 Agosto 2018

"Ou questionamos e encontramos um outro modelo de desenvolvimento ou continuaremos no modelo colonial de exportação de produtos primários", escreve Henrique Cortez, jornalista, ambientalista e editor do portal EcoDebate, em artigo publicado por EcoDebate, 28-08-2018.

Eis o artigo.

O governo (este e os anteriores) sempre demonstra permanente submissão aos interesses do agronegócio de exportação, principalmente os pecuaristas e sojicultores que, aliados aos grandes grupos econômicos e financeiros, apenas percebem os ativos ambientais como recursos econômicos a serem livremente apropriados.

O manejo sustentável dos recursos naturais, a agroecologia e a agricultura familiar não estão na agenda de compromissos dos grandes interesses econômicos e, por consequência, também não estão na agenda do governo.

Nesta lógica, o governo mantém a opção pelo incentivo à produção e exportação de produtos primários como cláusula pétrea da economia nacional.

Como em outras áreas, é a versão século XXI do modelo colonial, no qual as colônias exportavam produtos primários (com pequeno valor agregado) para beneficiamento pelas metrópoles, as quais os processavam e reexportavam (com grande valor agregado). Foi assim que as colônias financiaram o desenvolvimento dos países colonialistas e ainda é assim que o terceiro mundo financia os países que se dizem desenvolvidos.

Esta pauta colonial de exportação está na origem de tantos desencontros e ambiguidades, tal como a encontrada na produção do biodiesel, cujo programa foi lançado com o argumento de que seria a “redenção” da agricultura familiar no norte e nordeste do país. No entanto, o biodiesel é majoritariamente produzido a partir da soja (70% do total), passando ao largo da agricultura familiar. Mostrou-se como mais um projeto para beneficiar os mesmos de sempre, como sempre.

A bancada ruralista no Congresso, reiteradas vezes, provou o seu imenso poder, guiando políticas públicas, mesmo quando elas serão desastrosas no longo prazo.

Os exemplos são muitos, vão do ‘novo’ Código Florestal ao esvaziamento do Incra e da Funai. O empenho ruralista em impedir novas demarcações de terras indígenas e quilombolas é público e notório. Mais recentemente, a poderosa bancada ruralista aprovou um projeto de lei, o PL do Veneno’, que altera o registro, fiscalização e controle dos agrotóxicos no país.

Tudo em nome da expansão das áreas de cultivo e pecuária, quaisquer que sejam as consequências.

É indiscutível a pressão que a bancada ruralista faz pela ‘flexibilização’ da legislação socioambiental e até mesmo da Constituição, sempre argumentando pela necessidade de ampliar a produção de alimentos, como se já não produzíssemos mais do que o suficiente para consumir e exportar milhões de toneladas, mesmo com um desperdício médio de 35% do que produzimos.

No Brasil e no mundo não faltam alimentos, mas as pessoas passam fome porque não tem dinheiro suficiente para comprá-los.

O modelo agrícola brasileiro, baseado na agropecuária intensiva e extensiva, ainda é um reflexo do modelo de ocupação territorial aplicado desde a colonização. A agricultura e seus marcos legais podem e devem ser modernizados, incorporando os novos conceitos, tecnologias e conhecimentos científicos acumulados ao longo das últimas décadas. Mas modernização é algo completamente diferente do que o proposto pela bancada ruralista, que reafirma as práticas do inicio do século 20. Uma ‘modernização’ que, mais uma vez, nos colocará na vanguarda do atraso.

Para o governo e seus aliados, a agenda desenvolvimentista continuará intocada, quaisquer que sejam os danos sociais ou ambientais deste modelo equivocado de desenvolvimento. O ministério do meio ambiente continuará no papel de objeto cênico, um mero ‘biombo’ verde, porque esta é a vontade expressa do governo.

Mas não podemos negar a nossa responsabilidade por tudo isso. Nossa omissão, nossa ausência nas discussões sobre o nosso futuro, permitem que esta situação se agrave cada vez mais. Podemos e devemos resistir ao avanço do ‘trator’ ruralista e de sua agenda ambientalmente insustentável.

Além disso, cotidianamente, precisamos iniciar as discussões sobre este modelo econômico escorado na exportação de produtos primários, com destaque para minério, alumínio primário, carne e grãos. É necessário questionar a quem serve este modelo e a quem beneficia.

Ou questionamos e encontramos um outro modelo de desenvolvimento ou continuaremos no modelo colonial de exportação de produtos primários. É o que fazemos desde o descobrimento (apenas mudamos de senhores ao longo do tempo) e ainda não chegamos lá.

Precisamos, desde já, nas eleições de 2018, construir uma agenda de sustentabilidade e organizar nosso apoio aos candidatos que tenham clara compreensão do desenvolvimento sustentável como sendo socialmente justo, economicamente inclusivo e ambientalmente responsável.

Pouco ou nada poderá ser feito para garantir um futuro minimamente sustentável se, para cada parlamentar comprometido com as causas sociais e ambientais, forem eleitos 30 representantes dos ruralistas, dos agroquímicos, da grande industria, etc. Esta é a proporção atual e já sabemos as consequências.

Nesse ritmo, o país que conhecemos deixará de existir, sendo transformado na “Fazendona Brasil”, a neocolônia que preferiu abandonar o seu futuro para tornar-se o “celeiro do mundo”.

Parafraseando o jornalista e ambientalista Washington Novaes, se devastação e exploração irracional de recursos naturais levasse ao desenvolvimento, já seríamos o mais rico e desenvolvido país do mundo.

Leia mais