Para a pesquisadora, o design das plataformas deixou de ser apenas uma escolha estética de interface e se tornou o principal ator tecnopolítico das Big Techs, moldando o comportamento dos usuários e impactando diretamente o debate democrático
A digitalização e plataformização da vida é uma realidade consolidada nas sociedades tecnocientíficas. Embora o fenômeno seja mais antigo que as mídias digitais, ele se agudiza contemporaneamente. A economia da atenção “tem relação com o surgimento da mídia massiva, com os meios de comunicação de massa e também com a estruturação da publicidade enquanto um campo teórico e técnico que visa a persuasão e que está intimamente atrelado aos modelos midiáticos, que dependem da captura da atenção para fins publicitários”, historiciza Anna Bentes, em entrevista por telefone ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
“Na internet, e principalmente nas plataformas digitais, nas mídias sociais, que devem ser entendidas como plataformas de publicidade, temos uma relação muito íntima com o processo que a gente chama de datificação dos comportamentos, que é a necessidade desses serviços de tornarem a nossa experiência social, cultural e comunicacional dentro desses espaços datificável”, descreve. “Então para as grandes plataformas conseguirem datificar comportamentos, produzir dados, tornar a experiência humana datificada, é preciso levar a atenção dos usuários para essas plataformas, e não só levar a atenção dos usuários, mas manter a atenção dos usuários engajada e retornando o máximo de tempo possível dentro desses serviços. Portanto, a atenção é uma espécie de recurso primeiro que precisa ser levado à plataforma para que se possam realizar esses outros procedimentos que a interessam, que é datificar comportamentos, automatizar e algoritmizar processos”, complementa.
Ocorre, que toda a plataformização da vida e as dinâmicas da economia da atenção concentradas na mão de poucas e grandiosas corporações, ultrapassam completamente a dimensão dos ambientes virtuais e trazem consequências concretas para a democracia. “Há uma preocupação desses donos de grandes empresas em, eventualmente, também controlar narrativas. Em tempos de Trump, é preciso ter uma preocupação e ter um cuidado com isso, ainda mais que nos Estados Unidos a liberdade de expressão é muito valorizada. Mas esse tipo de concentração é problemática para a democracia. A democracia é baseada também na ideia de uma diversidade de perspectivas. Se começarmos a ter poucas pessoas produzindo discurso midiático, se tiver pouca diversidade, poucas perspectivas representadas ali nesse discurso, isso se transformará em preocupação para a democracia no geral”, alerta a pesquisadora.
Portanto, é necessário olhar para além do conteúdo, é necessário observar também a forma. “Eu diria que o design é o ator tecnopolítico talvez mais importante do serviço [das big techs]. O design é a parte fundamental. Por design, eu entendo toda a interface da plataforma, o modo de funcionamento dos seus algoritmos, do sistema. Hoje os chatbots envolvem tanto a parte visível da interface quanto a parte invisível também, como ele funciona. Isso é design algorítmico”, sublinha Bentes. “O design é muito estratégico, ele é justamente esse ponto de contato entre a atenção do usuário e a empresa, os seus processos de datificação e a maneira como ela quantifica e analisa as nossas informações. Ele é justamente esse ponto de contato entre o social. Ele conflui todos esses aspectos, do modelo de negócios ao funcionamento dos algoritmos, ao modo como as pessoas utilizam aqueles recursos. Então, eu diria que é o ator tecnopolítico central desse ecossistema das plataformas”, assevera.
Anna Carolina Franco Bentes (Foto: FGV Comunicação)
Anna Carolina Franco Bentes é professora adjunta e pesquisadora na Escola de Comunicação, Mídia e Informação da Fundação Getúlio Vargas (FGV ECMI). É coordenadora adjunta da Graduação em Comunicação Digital da FGV ECMI e professora do Mestrado Profissional em Comunicação Digital e Cultura de Dados e pesquisadora na linha Inteligência de Dados e Sociedade. É doutora e mestra em Comunicação e Cultura pelo Programa de Pós-graduação em Comunicação da UFRJ e possui graduação em Psicologia pela UFRJ e formação complementar em Artes pela EAV-Parque Lage. É membro do Conselho Diretivo da Rede Latino-americana de Estudos de Vigilância, Tecnologia e Sociedade (LAVITS) e pesquisadora associada do Medialab UFRJ. É autora do livro Quase um tique: economia da atenção, vigilância e espetáculo em uma rede social (UFRJ, 2021).
IHU – Talvez intuitivamente todos nós tenhamos uma noção do que é a economia da atenção. Contudo, eu gostaria que a senhora trouxesse uma definição mais precisa para que estejamos todos na mesma página do debate.
Anna Bentes – A economia da atenção pode ser entendida de algumas maneiras. Primeiro, enquanto um conceito que surge mais ou menos no fim da década de 1960, início da década de 1970, mas que vai ser aprofundado mesmo na década de 1990 e depois se desdobra a partir de estudos sobre internet, plataformas, mídias sociais, de uma maneira geral. Se pensarmos na economia da atenção como um fenômeno sociotécnico que envolve a cultura, a mídia, modelos de negócios, processos econômicos, sociais, enfim, conseguiremos olhar para esse fenômeno como algo que se formou há muito mais tempo do que o próprio conceito.
Há alguns autores que vão olhar, desde o século XIX, o início da formação do que seria uma indústria da atenção, com o surgimento dos chamados comerciantes da atenção, tal como o postulou Tim Wu. Isso tem relação com o surgimento da mídia massiva, com os meios de comunicação de massa e com a estruturação da publicidade como um campo teórico e técnico que visa a persuasão e que está intimamente atrelado aos modelos midiáticos, que dependem da captura da atenção para fins publicitários. Esse modelo, enquanto um modelo de negócios de mídia, surge no jornal.
Tim Wu conta a história de Benjamin Day, que fundou um jornal chamado The New York Sun, no fim do século XIX. Day muda a estratégia da venda dos jornais para a venda da atenção dos leitores dos jornais para os anunciantes. Uma das características desse jornal, por exemplo, era ser sensacionalista, porque era aquilo que capturava mais a atenção dos leitores, e, portanto, renderia uma melhor negociação com aqueles interessados em patrocinar publicidade. Claro que isso se transforma muito ao longo do século XX, nas diferentes mídias, no rádio, na televisão, onde podemos falar de uma lógica de economia da atenção também.
Na internet, e principalmente nas plataformas digitais, nas mídias sociais, que devem ser entendidas como plataformas de publicidade, temos uma relação muito íntima com o processo que chamamos de datificação dos comportamentos, que é a necessidade desses serviços de tornarem a nossa experiência social, cultural e comunicacional dentro desses espaços datificável. E a importância desses dados para os processos algorítmicos de análise, perfilização, que vão também servir de base para recomendação de conteúdos e também conteúdos publicitários de uma maneira personalizada, é uma diferença importante em relação ao que seria uma lógica da economia da atenção em mídias de massa, para uma lógica da economia da atenção nas mídias digitais.
IHU – Como a economia da atenção se transformou em um dos grandes eixos do capitalismo contemporâneo?
Anna Bentes – Justamente por essa relação que estabelece hoje com esses processos de datificação e de processamento algorítmico, considerando que essas grandes plataformas têm seus modelos de negócios totalmente ancorados nos dados. Tornou-se comum dizer que os dados seriam um recurso tão ou mais valioso quanto o petróleo era – não que o petróleo tenha deixado de ser valioso. Há uma matéria famosa do The Economist em 2017 que anuncia essa nova economia baseada em dados, e, por conta dessa centralidade dos dados na economia digital, a atenção se torna um recurso totalmente associado aos dados.
Então, para as grandes plataformas conseguirem datificar comportamentos, produzir dados, tornar a experiência humana datificada, é preciso levar a atenção dos usuários para essas plataformas, e não só levar a atenção dos usuários, mas manter a atenção dos usuários engajada e retornando o máximo de tempo possível dentro desses serviços.
Portanto, a atenção é uma espécie de recurso primeiro que precisa ser levado à plataforma para que se possam realizar esses outros procedimentos que a interessam, que é datificar comportamentos, automatizar e algoritmizar processos.
IHU – Por que somos tão inclinados a seguir o que poderíamos chamar de “figuras de autoridade”, muito embora grande parte sejam pessoas pouco especializadas nas áreas em que se colocam?
Anna Bentes – Figuras de autoridade sempre existiram, pessoas influentes sempre existiram. Uma das diferenças em relação aos influenciadores é que eles, na sua gênese, no início da popularização dessa profissão, dessa figura dos influenciadores, eram pessoas normalmente com trajetórias: pessoas que vinham da pobreza e ficavam ricas, pessoas com algum tipo de trajetória, que começavam a compartilhar o seu cotidiano, a sua intimidade, tinham um caráter precário mesmo de compartilhamento da sua vida, da sua intimidade, algo que de alguma maneira se transformou um pouco nos últimos anos.
Hoje um influenciador digital é uma profissão, fala-se de uma creator economy, uma economia de quem produz conteúdo. No início da ascensão dessas figuras, havia a característica de serem pessoas que não se destacavam por alguma atividade específica, mas que de alguma maneira compartilhavam ali o seu cotidiano, a sua intimidade, seus estilos de vida, seus hábitos nas redes sociais e acabavam ganhando uma certa autoridade a partir do que consumiam. Eu até uso uma expressão para falar deles: especialistas de estilos de vida.
Com essa profissionalização dos influenciadores, começamos a ter um mercado mais estruturado, que se preocupa mais com o que compartilha. E começamos a ter um fenômeno mais recente que é a cultura do cancelamento, então essas pessoas começam a ter mais medo do que elas vão postar, medo de ser canceladas, de perder o contrato com marcas.
Eu prefiro vê-las como uma espécie de modelo de subjetividade contemporânea, pois elas sintetizam algo muito importante e que pode ser resumido em dois aspectos principais:
1) por um lado, há uma necessidade de estar visível e de ter esta visibilidade como um critério de sucesso e de valor;
2) por outro lado, essa característica muito típica da sociedade neoliberal, que é serem empreendedores de si, são pessoas que agem de uma maneira relativamente autônoma, eles são os responsáveis pelo seu sucesso, eles que através do seu “esforço” de compartilhar nas redes sociais, de produzir conteúdo, ganham essa proeminência e autoridade frente a algum tema/segmento específico.
IHU – Quais os elementos essenciais que as plataformas digitais mobilizam para atrair o usuário e estabelecer um comportamento de dependência digital?
Anna Bentes – São muitos elementos. Podemos dizer que as plataformas têm um aparato tecnológico, científico e com um investimento econômico muito alto, justamente nessas técnicas de captura da atenção, de retenção, de mobilização e de direcionamento da atenção. Entre essas técnicas temos características típicas de mídias sociais, como as notificações que servem de gatilhos. Eles chamam a atenção com notificações dizendo: “Eu tenho uma coisa aqui para você ver, entra aqui porque alguém lhe mandou uma mensagem, entra aqui porque alguém curtiu alguma coisa sua”, que são estratégias para lembrar que há coisas acontecendo na plataforma a fim de levar o usuário ali para dentro.
Existem aspectos do próprio design das interfaces que são cuidadosamente construídas para tornar mais fácil fazer do que pensar. Um termo que a literatura usa para descrever algumas características dessa interface é a falta de fricção. Então, tudo que elas conseguem aproveitar para o usuário se comportar de maneira automática é explorado. Exemplos disso são autoplay no YouTube, o story que passa sem o usuário precisar estar passando uma coisa e outra, e o feed infinito. Ou seja, quanto menos ações o usuário realizar, mais eles conseguem explorar essa automatização do comportamento, fazer os usuários não pensarem no que estão fazendo, de modo que simplesmente fiquem ali assistindo. A série da Netflix, quando está terminando um episódio, já engata imediatamente no outro para o usuário não ter tempo de pensar se quer comer, tomar água ou mesmo ir ao banheiro.
Esses estudos são totalmente baseados em princípios da economia comportamental, da psicologia comportamental, da psicologia cognitiva, que explora uma espécie de viés cognitivo do ser humano de permanecer onde está. O mesmo acontece com modelos de registro, de cadastro, uma vez que alguém assinou um mês gratuito cadastrando o cartão de crédito, há uma grande dificuldade dentro da plataforma de entender como cancelar uma assinatura. Esse é um aspecto totalmente pensado, totalmente desenhado para justamente dificultar o cancelamento. E, nesse caso, há muita fricção: quando alguém quer cancelar, pedir apagamento de dados, exercer os seus direitos de uma maneira geral, há muita fricção. Mas quando é para manter o usuário conectado, tem pouquíssima fricção.
Outro mecanismo comum dessas plataformas, e que vem sendo abordado como um mecanismo que causaria dependência digital, são aqueles de validação social, especialmente no caso de jovens e adolescentes, em que ser validado é algo fundamental na sua experiência enquanto jovens. Os likes, o número de seguidores, as métricas constantes sobre interações, o TikTok, o Snapchat, que tinha aquela coisa do foguinho [1], fazem com que os usuários estejam com uma comunicação ativa.
Tudo isso são métricas que vão justamente explorar essas relações de feedback social. São feedbacks altamente inespecíficos, por exemplo: o crush curtiu a foto, mas não se sabe se isso significa que ele está a fim de namorar ou se ele simplesmente curtiu a foto. Isso gera motivação para o usuário entrar na plataforma, ficar ali dentro, explorando, seja para fustigar a pessoa, seja para ver, etc. Então esses são alguns dos mecanismos da economia da atenção.
Vimos recentemente nos Estados Unidos um julgamento superimportante, principalmente contra a Meta e o Google, que foram julgados por esses aspectos do design, entendidos como aspectos que exploram vulnerabilidades psicológicas, que são desenhados para ser viciantes e que têm efeitos na saúde mental das pessoas. É um pouco isso que está em jogo.
Essa discussão nos Estados Unidos muda um pouco o foco da discussão da responsabilização das plataformas em relação ao tema, pois antes o foco era muito relacionado ao conteúdo, como se fosse o conteúdo sempre o responsável por certos danos psicológicos à saúde mental. Sabemos que conteúdos nocivos e problemáticos circulam nessas plataformas, apesar de elas terem algumas políticas que os proíbem, mas ainda assim não são capazes de retirá-los. Na verdade, é menos uma inabilidade técnica, porque sabemos que eles têm muita habilidade técnica, mas menos uma proatividade ética.
Hoje, não só nos Estados Unidos, estamos vendo essa discussão a partir desse julgamento que desloca a discussão dos conteúdos. Aqui no Brasil, até essa nova discussão do Marco Civil da Internet, a base legal que protegia a liberdade de expressão dos usuários e isentava a responsabilidade das plataformas em relação a esse tipo de conteúdo nocivo, é um modelo regulatório desenhado em um outro contexto, há 15 anos, quando ainda não havia problemas como a desinformação, os discursos de ódio, a radicalização, o vício digital. Tudo isso que vemos hoje com mais clareza.
A partir desse julgamento, passamos de um olhar sobre o conteúdo para um olhar sobre a infraestrutura, não apenas material e técnica da plataforma – interface, algoritmo –, mas também para a infraestrutura de negócios. Qual é o modelo de negócios que justamente está embutido (embedded e embodied) dentro dessa infraestrutura?
E não só nos Estados Unidos, mas na Europa também agora. A Comissão Europeia, a partir do Digital Services Act, que é a regulação de plataformas regional que eles têm, notificou o TikTok em uma investigação, apontando que ele não avaliou e nem tomou medidas suficientes sobre os efeitos nocivos do seu design viciante.
Assim, essa questão da infraestrutura relacionada aos objetivos e interesses da economia da atenção está sendo cada vez mais debatida e questionada como uma maneira de responsabilizar as plataformas por esses danos sociais, individuais e subjetivos que elas vêm promovendo a partir desse modelo de negócios.
IHU – Recentemente a venda da Warner Bros. para a Netflix e a entrada da Paramount no negócio abriram um novo capítulo para o entretenimento mundial [2]. Como essa operação reacende o debate sobre concentração de mídia, influência política e riscos à independência editorial?
Anna Bentes – Sem acompanhar de perto esse caso, o que eu posso apontar é que essas big techs já vêm há pelo menos 20, 25 anos com tendências extremamente monopolistas. Esse também é um aspecto que vem sendo debatido em decisões de autoridades, em julgamentos. É um dos questionamentos que se fazem a esse tipo de plataforma, porque elas foram crescendo ao longo do tempo a partir da incorporação de outras empresas, startups que desenvolviam certas tecnologias e foram crescendo incorporando essas outras empresas, inclusive de outros setores.
Se olharmos, hoje, para o ecossistema que está no guarda-chuva da Alphabet, empresa que controla o Google, veremos desde empresas de pesquisa, empresas relacionadas ao campo da medicina, que de alguma maneira estão relacionadas e que têm em comum a tecnologia como algo que as conecta, mas é um ecossistema bastante diverso.
Vemos isso na Amazon, em que o Amazon Prime começa a incorporar outros streamings em seu serviço e os usuários assistem tudo por ali. Essa é uma maneira dela centralizar os dados. Porque essas empresas gostam de diversificar e de distribuir as fontes de dados para elas, mas elas centralizam a coleta. Portanto, elas não compartilham esses dados com muita gente, elas querem justamente centralizar.
Nesse caso do streaming, há um interesse por trás. A Warner Bros. é uma empresa tradicionalíssima, que tem uma história de produção cinematográfica tradicional. Interessa muito a essas empresas que estão mais no campo do streaming incorporar esse aparato, a reputação e a legitimidade que essas empresas de alguma maneira já têm para amplificar os seus interesses de negócios e tudo.
IHU – Como negociatas dessa dimensão podem alterar o panorama global da mídia?
Anna Bentes – Com isso acabamos tendo uma mídia cada vez mais concentrada. A grande vantagem da internet é justamente uma democratização da informação e da produção de conteúdo, porque nos meios de comunicação de massa tradicionais – televisão, emissoras – havia um modelo unidirecional de comunicação. Havia poucas emissoras produzindo conteúdo para a massa. E, com a internet, é ao contrário, há uma diversificação das fontes da produção de conteúdo. Empresas como o YouTube cresceram justamente não porque elas produzem conteúdo, mas porque são o intermediário entre quem produz conteúdo e quem assiste, quem consome conteúdo.
Enquanto as emissoras de televisão no Brasil estão sujeitas a normativas relativas à veiculação de conteúdo nacional para a preservação do equilíbrio cultural, as plataformas de streaming operam sem restrições equivalentes. Essa disparidade regulatória agrava-se no cenário atual de fusões corporativas, exigindo maior vigilância por parte das autoridades, da sociedade civil e da comunidade acadêmica diante do risco de concentração de mercado. O ecossistema da Amazon exemplifica esse alcance: além da infraestrutura em nuvem e de suas diversas subsidiárias, seu fundador, Jeff Bezos, também detém o controle do veículo de imprensa
Há uma preocupação desses donos de grandes empresas em, eventualmente, também controlar narrativas. Em tempos de Trump, é preciso ter uma preocupação e ter um cuidado com isso, ainda mais que nos Estados Unidos a liberdade de expressão é muito valorizada. Mas esse tipo de concentração é problemática para a democracia. A democracia é baseada também na ideia de uma diversidade de perspectivas. Se começarmos a ter poucas pessoas produzindo discurso midiático, se tiver pouca diversidade, poucas perspectivas representadas ali nesse discurso, isso se transformará em preocupação para a democracia no geral.
IHU – Seu livro Quase um tique: economia da atenção, vigilância e espetáculo em uma rede social (Editora UFRJ, 2021) é importante para debater o tema de nossa entrevista. Passados cinco anos da primeira edição parece que a questão de fundo se radicalizou. Diante disso e retomando o fechamento da obra, como escapar da instagramização da vida?
Anna Bentes – Eu gosto dessa provocação. Tem algumas coisas que, de alguma maneira, se intensificam e outras que talvez se percam um pouco.
Essa ideia de uma instagramização da vida, que estava relacionada com esse modo de mostrar a vida, de editar, de ser um grande – pensando nos influenciadores, nas pessoas que compartilham conteúdo no Instagram, do usuário ser uma espécie de curador, de artista, produtor, publicitário da sua própria vida –, transformou-se. Não que tenha acabado, mas a produção de conteúdo se profissionalizou.
Hoje, vemos as pessoas que já postavam um pouco, postando ainda menos – não estou falando totalmente baseada em dados, mas a partir da minha vivência enquanto usuária. Tenho a impressão de que as pessoas, até porque eu não estou conduzindo mais pesquisa sobre o Instagram – essa é uma pesquisa que foi concluída em 2018 e o livro é de 2021 –, começaram a ter mais critério para compartilhar a vida.
Por exemplo, encontrei trabalhos sobre crianças e adolescentes utilizando o Instagram que mostrava como esse público utiliza muito mais os stories, ou seja, uma produção de imagem que é mais efêmera [a imagem some em até 48 horas se não forem salvas]. Eles têm muito hábito de postar, às vezes, no feed e apagar. Como ser um influente na mídia social se tornou tão central na dinâmica profissional, social, de uma maneira geral, isso inibiu um pouco um modo mais espontâneo de compartilhamento da vida.
Continuamos compartilhando coisas da nossa vida, isso é um critério de sucesso. Se a pessoa conseguir um emprego novo, provavelmente veremos isso na rede social; se a pessoa casou; se a pessoa teve um filho; esses são eventos que provavelmente veremos nas redes sociais. Esse compartilhamento cotidiano e cru, que era algo próprio do uso do Instagram, principalmente alguns anos atrás, se perdeu um pouco, porque o que compartilhamos passa por cada vez mais crivos estéticos, profissionais e um texto cuidadoso. Tanto que há pessoas que têm mais de um perfil. Os adolescentes fazem muito isso. Eles têm um perfil DIX [conta secundária e privada em redes sociais], que é o deschavado, que é só para os amigos íntimos. Hoje, tem uma espécie de modulação do visível muito mais fina.
Quando eu estava terminando essa pesquisa, estava sendo revelado o caso da Cambridge Analytica. Então, as pessoas têm um pouco mais de consciência sobre proteção de dados e questões de privacidade. Houve muitas coisas nos últimos cinco anos que chamam atenção para isso na mídia.
Agora com inteligência artificial generativa e as deepfakes [as pessoas estão mais atentas]. As pessoas têm um pouco mais de critério, mas critério não necessariamente significa bom gosto, que as pessoas não continuem compartilhando coisas bizarras na internet. Esse compartilhamento do cotidiano, da sua realidade, como ela é, postar um vídeo de cabelo amassado, de olheira, meio chorando, algo que víamos alguns anos atrás, se transformou.
Parte dessa ideia da instagramização da vida também tinha a ver com essa ideia de uma certa estetização. Começamos a ver, alguns anos atrás, o surgimento de espaços instagramáveis nos eventos. Hoje, em qualquer festival de música, encontramos esses espaços, que chamam de ativações das marcas. São espaços instagramáveis construídos para as pessoas compartilharem aquela experiência no show, no festival voltado para a mídia social.
Temos uma integração cada vez mais forte entre o universo digital e o universo fora das redes sociais. Eu nem gosto muito dessa divisão, porque temos que nos perguntar quanto estamos fora, afinal estamos o tempo inteiro dentro. Não há mais uma separação entre vida online e vida offline, pois estamos sempre ligados.
Diversificamos um pouco mais até a maneira de compartilhar, mas há algo que não se perde, que é a subjetividade que se constitui no compartilhamento da própria vida. Esse compartilhamento nem sempre é totalmente público, porque as pessoas vão no grupo de WhatsApp com amigos mais próximos, num inbox, num story para close friends. Modulamos mais o que é mostrado, para quem é mostrado e como mostramos, mas continuamos mostrando e isso continua sendo importante para quem somos hoje, enquanto sujeitos contemporâneos.
IHU – Temos como fugir da instagramização da vida?
Anna Bentes – Não que não seja possível, mas acho que a centralidade desse tipo de mídia, mesmo hoje, na contemporaneidade, para diversos processos contemporâneos, é muito difícil ficar de fora. Mesmo quem está fora, mesmo quem não usa, fica sabendo do que acontece no ambiente digital, as pessoas falam de coisas que acontecem lá, elas compartilham. Mesmo quem não está lá às vezes entra para ver as coisas que foram publicadas nas redes. Portanto, é muito difícil realmente estar fora dessas plataformas hoje. Elas estão muito entremeadas nos nossos processos sociais, comunicacionais e relacionais de uma maneira geral.
IHU – Qual o papel do design para o projeto tecnopolítico das Big Techs?
Anna Bentes – Eu diria que o design é o ator tecnopolítico talvez mais importante do serviço [das big techs]. O design é a parte fundamental. Por design, eu entendo toda a interface da plataforma, o modo de funcionamento dos seus algoritmos, do sistema. Hoje, os chatbots envolvem tanto a parte visível da interface quanto a parte invisível, como ele funciona. Isso é design algorítmico. Essa parte que não vemos do funcionamento influencia naquilo que vemos. Um sistema de recomendação de conteúdo, por exemplo, tem o design de como o usuário recebe esse conteúdo, mas quem define, o que define o que vai estar ali ou não para o usuário, é um sistema que não estamos vendo como está funcionando. É invisível para nós.
O design é muito estratégico. Ele é justamente esse ponto de contato entre a atenção do usuário e a empresa, os seus processos de datificação e a maneira como ela quantifica e analisa as nossas informações. Ele é justamente esse ponto de contato entre o social, o técnico, o empresarial. Ele conflui todos esses aspectos, do modelo de negócios ao funcionamento dos algoritmos, ao modo como as pessoas utilizam aqueles recursos. Então, eu diria que é o ator tecnopolítico central desse ecossistema das plataformas.
[1] O foguinho (ou Snapstreak) é um emoji de fogo (🔥) que aparece ao lado do nome de um amigo para mostrar que vocês trocam Snaps (fotos ou vídeos) todos os dias, em um intervalo de até 24 horas.
[2] A disputa pela Warner Bros. Discovery mudou de rumo quando a Paramount Skydance cobriu a oferta da Netflix. A fusão agora está temporariamente suspensa pela justiça americana, após doze estados processarem as empresas alegando risco de alta nos preços e monopólio. A justiça suspendeu o fechamento do acordo até meados de agosto para reavaliar os impactos antitruste da união.