‘Streamings dos EUA estão comendo nossa identidade cultural’, critica diretora Anna Muylaert

Anna Muylaert. Foto: TV Brasil/Wikimedia Commons

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11 Outubro 2025

Cineasta defende regulação do streaming e alerta que domínio das plataformas estrangeiras ameaça a soberania brasileira.

A reportagem é de Adele Robichez, José Eduardo Bernardes e Larissa Bohrer, publicada por Brasil de Fato, 08-10-2025.

A cineasta Anna Muylaert, diretora dos filmes A Melhor Mãe do Mundo (2025) e Que Horas Ela Volta? (2015), reconhece que o audiovisual brasileiro vive um momento de expansão econômica, mas acredita que ele enfrenta uma crise de identidade provocada pelo domínio das plataformas estrangeiras.

Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, ela analisou o cenário do setor após a divulgação de uma pesquisa da Universidade de Oxford que apontou que o audiovisual brasileiro movimentou mais de R$ 70 bilhões em 2024, o equivalente a 0,6% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional.

Segundo Muylaert, o crescimento do setor está ligado à presença de grandes plataformas internacionais. “Certamente nessa conta entra o capital dos EUA, os streamings. Cada vez mais os seres humanos estão se comunicando através do audiovisual: YouTube, TikTok, televisão, cinema, streamings viraram uma parte não só da nossa noite, mas da manhã e da tarde também”, afirmou.

A diretora destacou, porém, que o cinema nacional enfrenta gargalos históricos, especialmente na distribuição. “Existem cerca de 200 filmes por ano que não são nem lançados. Às vezes, o filme está pronto, tem potencial, mas não tem o incentivo do governo ou de empresas privadas. Um filme estadunidense entra arrasando o quarteirão, com muito dinheiro de publicidade. Sem publicidade, é difícil o público ir para o cinema”, disse.

Para a cineasta, a ausência de regulação para o streaming no Brasil agrava o problema. “É uma questão de soberania cultural. Os streamings estão impondo um jogo pesado: o produtor virou prestador de serviço, a figura do diretor está sendo diminuída e eles estão acabando com a ideia de autoria. Eles são os donos de tudo, inclusive da propriedade intelectual”, criticou.

Muylaert alertou ainda que o avanço das plataformas estrangeiras ameaça a diversidade do cinema nacional. “Esses streamings estadunidenses chegam cheios de regras e de um gosto esatdunidense, influenciando o fazer cinematográfico brasileiro. Estão comendo a nossa identidade”, declarou.

Desafios e lançamentos

Muylaert lembrou que, enquanto Hollywood já discute o impacto da inteligência artificial sobre roteiristas e atores, o Brasil ainda busca garantir direitos básicos no setor. “Ainda estamos querendo direito autoral, que se pague imposto e que o lucro de uma Netflix reverta para a produção audiovisual soberana brasileira”, lamentou.

Ao avaliar o momento do cinema nacional, ela disse que o país vive um novo ciclo ainda indefinido. “Os anos da Ancine [Agência Nacional do Cinema], que chamamos de retomada, foram dourados para o cinema brasileiro. Depois veio o governo [do ex-presidente Jair] Bolsonaro, que diminuiu os recursos, e agora estamos em um novo período, menos firme do que aquele [inicial]”, analisou.

Apesar dos desafios, Muylaert reconhece o prestígio internacional de nomes como Walter Salles, Kleber Mendonça Filho e Gabriel Mascaro, que acumulam prêmios em festivais como Cannes, Berlim e o Oscar. “O Agente Secreto é um filme muito importante porque peita essas narrativas que o streaming está se impondo”, celebrou. O filme de Kleber Mendonça vai representar o Brasil no Oscar em 2026.

A diretora também falou sobre seu filme mais recente, A Melhor Mãe do Mundo, que retrata o cotidiano de catadoras em São Paulo. “São personagens realmente muito fortes, que têm uma vivência muito difícil, mas que respondem a isso com uma resiliência e uma vitalidade muito forte também. Eu gosto desses personagens”, contou.

A cineasta está preparando um novo longa-metragem, Geni e Zepelim, previsto para estrear em 2026.

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