12 Março 2026
“Estamos trilhando o caminho da Coreia do Norte. Trump vive numa bolha onde nenhuma informação contraditória pode entrar”, afirma o autor de A Revolução Iraniana: uma história de arrogância, engano e erros catastróficos.
Na véspera de Ano Novo de 1977, Jimmy Carter brindou a Mohamed Reza Pahlavi, o "Rei dos Reis", e ao Estado do Irã, aliado fundamental dos EUA na Guerra Fria. Naquele momento, o Irã possuía o quinto maior exército do mundo, uma capital florescente em expansão, enormes receitas petrolíferas e uma presença policial que sufocava qualquer voz dissidente. 14 meses depois, no entanto, o Xá fugia para o exílio, derrubado por uma revolução religiosa que Washington não previu e que transformou o país persa em seu grande inimigo.
47 anos depois, Trump bombardeia massivamente o país pensando que alcançará a rendição do governo iraniano. “Isso não vai acontecer”, diz Scott Anderson, escritor, correspondente de guerra e autor de Rei dos Reis. Anderson acredita que os EUA estão repetindo aquele erro catastrófico de inteligência ao pensar que acabarão com o regime com uma campanha de bombardeios. Ele sustenta que isso se deve ao fato de Trump estar criando um Estado “a caminho da Coreia do Norte”, no qual todos devem louvá-lo. “Ele está em uma bolha onde não entra nenhuma informação contraditória”.
A entrevista é de Javier Biosca Azcoiti, publicada por El Diario, 11-03-2026.
Eis a entrevista.
Vê alguma saída neste momento para os EUA no Irã?
Trump não pode bombardear o regime iraniano até a rendição, e não vão provocar um levante popular. As únicas duas opções são: enviar tropas terrestres — o que não creio que nem mesmo Trump seja tão tolo de fazer, pois faria o Iraque [2003] parecer um piquenique — ou mudar de assunto, algo em que ele é realmente bom. Quando ele vir seus índices de aprovação caírem e perceber que tudo gira em torno do Irã, poderá dizer simplesmente: “Problema resolvido. Passemos para outra coisa”. Esse é o poder que Trump tem.
Poucos meses antes da revolução de 1979, os EUA não tinham ideia do que estava acontecendo. Como isso é possível?
Sempre é possível uma ignorância avassaladora na política externa americana. Era uma ignorância institucionalizada. Não viam problemas no Irã porque não queriam vê-los. O Xá odiava que diplomatas ocidentais falassem até com a oposição moderada. Seus espiões sempre descobriam. Com o tempo, a política oficial da embaixada americana era não procurar problemas: o povo iraniano ama o Xá e os EUA.
Acessei toda a troca de telegramas diplomáticos da embaixada nos anos 70. Por exemplo, o Xá foi diagnosticado com leucemia em 1974, mas manteve segredo. Apesar de sua ausência em reuniões, sua aparência física e dezenas de missões secretas de médicos franceses, os EUA não tinham ideia.
Outro exemplo: no dia em que o aiatolá Khomeini retorna ao Irã após 14 anos de exílio, ele faz seu primeiro discurso em um cemitério ao oeste de Teerã. O Xá havia partido duas semanas antes. Foi um discurso vital perante meio milhão de pessoas. Os americanos esperavam moderação, mas ele disse que destruiriam o governo fantoche. "Abaixo os Estados Unidos, abaixo Israel". Os americanos nem sequer enviaram alguém ao cemitério para ouvir. O telegrama daquela noite tinha duas frases: “Khomeini regressou hoje ao Irã. Fez um discurso no cemitério. Alguns dizem que foi antiamericano, outros dizem que não”.
Vê um paralelo com os cálculos dos EUA desta vez? A inteligência falhou?
Totalmente. Não há inteligência. A ideia de que haverá um levante popular sem ajuda externa não vai acontecer. Tentaram em janeiro e morreram entre 35 mil e 40 mil pessoas. Agora lançam a ideia de que os curdos iraquianos serão a vanguarda. Não. Primeiro, os curdos iraquianos lutam contra os curdos iranianos. Isso cheira a alguém da CIA baseado no Curdistão iraquiano dizendo: “Bom, talvez funcione”. Eles não têm ideia.
Já lidei com a CIA no mundo todo. São as pessoas mais incompetentes com quem já lidei, especialmente no Oriente Médio. Aprendi isso há muito tempo, cobrindo a região. Se você quiser ter uma ideia do que está acontecendo no terreno em praticamente qualquer lugar do Oriente Médio, converse com os magnatas do petróleo. Eles estão lá. A CIA fica na capital, frequenta festas, lê jornais e segue uma linha de raciocínio. Eles seguem a mesma linha de raciocínio de 1979: o Xá é muito popular entre seu povo...
Vê alguma estratégia na guerra lançada pelos EUA?
Não há estratégia. Foi Trump pensando que funcionaria bem com o público interno. Com Trump, há sempre o perigo de buscar método na loucura; frequentemente é apenas loucura. Claramente não há plano de saída. Netanyahu o incitou ao ataque e Trump vê isso como forma de parecer forte.
É difícil acreditar que o establishment de inteligência seja tão incompetente.
Talvez não seja tanto incompetência desta administração, mas sim o fato de terem sido completamente marginalizados pela administração Trump. Nem todos são idiotas, mas uma coisa que vejo claramente sobre a CIA, e que piorou desde o 11 de setembro, é que eles operam em um mundo com regras muito rígidas sobre onde podem ir.
Anos atrás, visitei a embaixada dos EUA no Sudão, e os diplomatas viviam em um complexo completamente fortificado, feito de aço à prova de bombas. Eles moravam lá, trabalhavam lá e só saíam em comboios blindados para ir a algum ministério do governo ou algo do tipo. Então, o que eles sabem sobre o que está acontecendo no Sudão? Nada.
Obviamente, havia pessoas, tanto no Pentágono quanto na CIA, que sabiam que isso não ia funcionar, mas foram ignoradas. Foram marginalizadas. Esse é um dos problemas quando se cria um Estado como o que Trump está criando. O que temos agora nos EUA? Estamos trilhando o caminho da Coreia do Norte, onde Trump convoca uma reunião de gabinete, inverte a situação e todos têm que elogiá-lo. Ele está numa bolha onde nenhuma informação contraditória entra.
Do golpe de Estado de 1953 contra Mosaddeq ao atentado de 2026, incluindo a relação com o Xá, o que isso nos revela sobre a visão dos EUA em relação ao Irã nos últimos 80 anos?
É interessante notar que, em 1953, os americanos mantinham uma relação muito superficial com o Irã. O Xá havia chegado ao poder em 1941 e estava ansioso para fazer dos americanos seus aliados. Curiosamente, os americanos permaneceram à margem.
Com o golpe de 1953, os americanos fizeram um favor aos britânicos ao derrubarem Mosaddeq [porque ele nacionalizou o petróleo]. Assim, repentinamente, os americanos se envolveram bastante no Irã. Mas o interessante sobre 1953, e o que muitas pessoas desconhecem, é que a partir daquele ano, o povo iraniano passou a ver o Xá como o "Xá americano". Ao mesmo tempo, os americanos, devido ao comportamento do Xá durante o golpe de 1953, quando ele foi ao Iraque e depois a Roma, o viam como fraco e covarde. É realmente interessante como, nos dez anos seguintes, os americanos mantiveram distância do Xá. Não houve muita formação de aliança.
Isso só aconteceu no início da década de 1960, quando eles perceberam uma vantagem econômica. Os americanos começaram a precisar do petróleo do Oriente Médio, e o Xá estava construindo um exército enorme. Assim, ocorreu uma reaproximação gradual. Com os EUA atolados na Guerra do Vietnã, Nixon concebeu a ideia de usar forças policiais regionais leais aos EUA. Foi assim que ele consolidou a posição do Xá. A relação entre os dois tornou-se absolutamente vital para os EUA.
Naquela época, o Irã era o aliado mais importante da Europa Ocidental e do Japão nos âmbitos econômico, político e militar. Não havia, de fato, nenhuma outra nação com a qual pudesse ser comparado. Mas, ao mesmo tempo, o que acontecia internamente era que o Xá quadruplicou as receitas do petróleo em 1974. Então, uma profunda recessão atingiu o Irã. Milhares, provavelmente milhões, de jovens migraram do campo para a cidade, e repentinamente a economia entrou em recessão.
Havia todos esses homens de origem religiosa, vindos do interior, presos nessas favelas ao redor de Teerã e outras cidades. Isso, juntamente com a rejeição ao Ocidente, alimentou a revolução. Os EUA não tinham ideia do que estava acontecendo dentro do Irã, e essa falta de conhecimento é espantosa. Como o Xá era tão importante para eles, simplesmente não queriam enxergar os problemas.
Como explicar a ascensão do nacionalismo religioso no fim da década de 1970, que permitiu a criação da República Islâmica?
O detalhe crucial da revolução que muitas pessoas não entendem, e que foi ignorado na época, é que ela tinha um aspecto anticolonial muito importante. O Xá era considerado um lacaio dos Estados Unidos pelo seu próprio povo. Tudo se resumia a uma desgraça nacional, e o Irã é um país muito orgulhoso, com uma história que remonta a milhares de anos. Foi isso que realmente o derrubou, e ele só percebeu isso no fim. Até muito tarde na revolução, ele implorava a Carter que o apoiasse publicamente. Ele não percebeu que isso só dava mais munição aos seus inimigos.
A Revolução Iraniana é tão importante porque desencadeou e alimentou a ascensão do nacionalismo religioso, hoje presente em todas as religiões, inclusive no budismo, como se observa no Sri Lanka. Monges budistas estiveram na linha de frente dos ataques contra hindus tâmeis. Antes da Revolução Iraniana, no fim da década de 1960, esse renascimento religioso já começava a emergir. Era visível nos Estados Unidos com os fanáticos religiosos, os cristãos evangélicos e esse tipo de fundamentalismo cristão. Também era visível na direita judaica, no sentido de que Israel não é apenas uma entidade política, mas uma terra sagrada prometida a eles por motivos religiosos. E no mundo muçulmano, estava se tornando uma espécie de rejeição ao Ocidente e aos valores ocidentais, e tudo isso culminou na Revolução Iraniana.
Estaremos testemunhando o fim da República Islâmica do Irã? Não apenas por causa da guerra, mas também por causa das mobilizações populares de janeiro. Este é um ponto crítico?
Acho que estamos chegando ao fim dessa ideia de exportar esse fervor revolucionário, porque os israelenses acabaram de derrotar os houthis, o Hezbollah e outros, um após o outro. Isso acabou. O que realmente me chocou foi o assassinato de Khamenei, porque, além de líder político, ele também era uma figura religiosa que, até o fim do mundo, era o representante de Deus na Terra. Matar Nasrallah [o antigo líder do Hezbollah], que também era um importante líder religioso, pode ter sido um sinal do que estava por vir.
Os americanos e israelenses podem destruir todo o sofisticado arsenal do Irã, mas as pessoas que morreram na repressão aos protestos em janeiro foram mortas por metralhadoras, não por mísseis.
Por mais que se bombardeie o Irã hoje, não se eliminam as armas letais do regime. Eles ainda possuem suas metralhadoras. O regime sabe que está lutando pela própria sobrevivência. Eles não vão se render. Se o fizerem, serão massacrados. Eles sabem que são odiados pela maioria da população e que não há outra saída a não ser lutar até o fim. Se o regime estava disposto a matar 30 mil pessoas em janeiro, quando havia uma chance de sua queda, sem dúvida o fará novamente quando souber que a alternativa é o colapso.
A Guarda Revolucionária Islâmica é uma instituição difícil de compreender a partir de uma perspectiva ocidental. Como você definiria seu papel?
Eu compararia a Guarda Revolucionária ao exército da China ou do Egito. É um conglomerado industrial e um grupo empresarial por si só. Controla uma grande porcentagem da economia iraniana. Possui hotéis, refinarias de petróleo, fábricas de cimento...
Além de serem vistos como os atuais opressores do povo iraniano, a Guarda Revolucionária não é mais apenas uma questão de teologia; é uma questão de dinheiro. E se eles saírem, perdem tudo. Uma boa comparação é o exército egípcio, que sempre foi o verdadeiro poder no Egito. Quando Mubarak começou a se tornar um problema, eles o marginalizaram. Permaneceram em segundo plano por um tempo, mas nunca foram realmente afetados. Então trouxeram Sisi, que é dez vezes pior que Mubarak. No Egito em 2011, não havia como os militares recuarem, e acho que a mesma coisa está acontecendo agora com a Guarda Revolucionária. Eles sabem que, se caírem, não poderão se exilar em lugar nenhum, porque não serão aceitos em nenhum país.
Com base nas conversas que teve com a esposa do Xá, qual era a opinião dela sobre o governo do marido?
Ela o apoia e ainda se refere a ele como "Vossa Majestade". Ela não diria isso abertamente, mas tinha uma percepção da realidade das ruas do Irã que ele jamais teve. No diário do ministro da corte do Xá, o homem mais próximo a ele, Farah aparece repetidamente tentando alertá-lo já em 1974 e 1975. Em certo momento, ela disse ao Xá: "Acho que as pessoas estão se cansando de nós". Claro, ele não quis ouvi-la. Ela não ousou me dizer que era mais inteligente que o marido, mas era.
E seu filho, Reza Pahlavi?
Tentei muitas vezes, mas ele não quis ser entrevistado. O que ouvi dizer sobre ele, mesmo entre a diáspora iraquiana e iraniana, é que ele é um peso morto. Não é muito inteligente, é preguiçoso... e isso fica claro nos escritos do Xá, que sempre achou que seu filho mais novo, aquele que cometeu suicídio, era o inteligente.
Não acho que ele jamais conquistará poder real. Essa ideia de que o povo iraniano, nos protestos, está exibindo a foto de Reza e gritando seu nome é mais como um definitivo "vá se foder" para o regime. Por 47 anos, eles ouviram o Xá ser retratado como o diabo, então é como se esses 47 anos de propaganda não tivessem funcionado. Algumas pessoas acham que ele realmente tem uma chance; eu não.
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