Karl Rahner. 120 Anos. Artigo de Romero Venâncio

Karl Rahner (Foto: Letizia Mancino | Wikimedia Commons)

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

05 Março 2024

"Neste dia 5 de março comemoramos o nascimento de Karl Rahner, o grande "teólogo da modernidade". Um dos frutos da teologia de Rahner foi o Concílio Vaticano II", escreve o teólogo Romero Venâncio, professor da Universidade Federal de Sergipe.

Eis o artigo.

Com a fúria extremada de um tradicionalismo tosco que cresce dentro do catolicismo romano atual, as críticas ao Concílio Vaticano II e a teologia que o inspirou vira uma obsessão. E um dos maiores teólogos católicos entra nessa avalanche. Karl Rahner está sob fogo cerrado na mira de uma extrema-direita católica virulenta e medíocre. Ao atacar Rahner acreditam eles que estão desmontando toda uma cultura conciliar que reconfigurou para sempre a Igreja Católica no mundo.

Neste dia 5 de março comemoramos o nascimento de Karl Rahner. O teólogo alemão faria 120 anos. Padre católico jesuíta de origem germânica e um dos mais influentes teólogos do século XX, Rahner sofreu influência de Erich Przywara e Joseph Maréchal e foi estimulado por seus estudos com Martin Heidegger, Rahner tentou uma síntese da tradição teológica com o pensamento contemporâneo mudando o ponto de partida da teologia católica. Sem abandonar Tomás de Aquino, diga-se de passagem. Bernard Lonergan classificava a obra de Rahner como um “tomismo transcendental”, enquanto outros referem-se à sua antropologia teológica. No fundo, Rahner foi o grande "teólogo da modernidade". Um dos frutos da teologia de Rahner foi o Concílio Vaticano II.

Ao encerrar o Concílio Vaticano II, a Igreja Católica Romana parecia entrar em uma nova (talvez inédita) fase. Havia muito "barulho" internamente na Igreja em 1965. Curiosidades, questões em aberto e a necessidade de renovação no ar. Cardeais, bispos, padres, leigos se colocavam em expectativa. O Papa era Paulo VI num recém pontificado. Após a morte do Papa João XXIII, seria caminho certo a eleição do Cardeal Montini. Isto, de fato, ocorreu. O que veio depois foi o imprevisível. Começava-se a notar uma Igreja insegura, vocações em crise e uma Igreja que precisava ampliar as mudanças e estabelecer um diálogo efetivo com o mundo moderno.

Um pequeno grupo de bispos conciliares se sentiram traídos. Segundo eles, a Igreja teria dado um passo maior que a perna. Teria anunciado mudanças muito rápidas e que poderiam colocar em risco a "tradição". Começava o movimento tradicionalista. Mais barulhentos do que articulados. Não eram tantos assim, mas sabiam o que queriam. Dessa geração, se destacará o bispo conciliar Dom Marcel Lefebvre. Ele se notabilizou pela resistência a certas reformas da Igreja Católica instauradas pelo Concílio Vaticano II. Foi um bispo que defendeu e liderou o movimento tradicionalista católico. Criou seminários e uma organização chamada Fraternidade São Pio X. Nosso tema aqui não é o desenvolvimento de uma extrema-direita católica oriunda dos resultados do Concílio Vaticano II, mas exatamente aqueles que queriam aprofundar e avançar nos resultados conciliares. O clima dos anos 60 favorecia os ditos "progressistas" na Igreja.

Um dos mais importantes nomes nos debates teológicos durante o Concílio Vaticano II foi o alemão Karl Rahner. Para o teólogo italiano Rosino Gibellini, Karl Rahner, especialmente no momento histórico do Concílio Vaticano II, colocava-se na linha da renovação e se ocupava em lançar uma ponte entre tradicionalistas e progressistas. Segundo Gibellini, a teologia de Rahner estava em plena sintonia com o grande projeto inovador do Concílio. Gibellini foi um atual e importante estudioso da teologia cristã contemporânea e autor do já clássico A teologia do século XX. A ponte com os tradicionalistas, Rahner não conseguiu. O movimento tradicionalista cresceu e saiu do controle, inclusive do Papa Paulo VI (basta ver os problemas que Lefebvre causou). O teólogo alemão foi fundamental para os progressistas nos anos 60 e 70.

Destaco aqui um breve conjunto de ensaios de Karl Rahner publicados em 1965 ainda no calor do fim do Concílio. No Brasil, o conjunto de ensaios foi publicado pela Fonte editorial com o título: "O cristão do futuro" em 2005. Uma acertada publicação, já adiantamos. Não temos dúvida, torna-se necessário uma volta à leitura das obras de Rahner. Um teólogo da qualidade, erudição e atualidade não pode cair no esquecimento ou se resumir ao implacável e equivocado julgamento da direita católica de plantão.

Tenho acompanhado as movimentações de uma extrema-direita católica nas redes digitais nos últimos anos e uma coisa que percebi de imediato foi uma reação virulenta à obra de Rahner e sua teologia. Essa gente considera Rahner um "inimigo da Igreja" por conta da sua determinante influência no Concílio Vaticano II. Todas as mudanças da Igreja pós-conciliar tem a responsabilidade do teólogo alemão. Ele é considerado como aquele teólogo que empurrou a Igreja para os braços do "modernismo" (palavra-chave nos discursos da extrema-direita católica). Essa palavra é tão usada por esta extrema-direita dentro do catolicismo, que fica difícil precisar o uso dela. Percebe-se que o termo "modernismo" significou quase tudo na Igreja pós-conciliar. Obviamente, sempre em sentido negativo, herético e demoníaco. O que fez Karl Rahner, de fato, para ter tamanha reprovação por parte de uma récua de tradicionalistas?

Acredito que o breve e instigante livro O cristão do futuro possa indicar algumas respostas a tamanha critica que sofre o teólogo alemão. A obra tem um breve prefácio do autor e quatro textos. Primeiro, "A Igreja que muda". Segundo, "Situação ética numa perspectiva ecumênica". Terceiro, "Limites da Igreja: contra o triunfalismo clerical e leigos derrotistas" e por fim, "O ensino do Concílio Vaticano II sobre a Igreja e a realidade futura da vida cristã". Parece que cada texto tem um endereço certo a partir dos títulos.

Leia mais