O grito de dor do Papa Francisco: “Impedir os socorros é um gesto de ódio”

Foto: Vatican Media

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26 Setembro 2023

“Socorrer no mar é um dever. Não nos resignemos ao drama dos naufrágios. Encontramo-nos numa encruzilhada de civilização. Por um lado, a fraternidade”, que difunde o “bem na comunidade humana”; pelo outro, “a indiferença, que cobre de sangue o Mediterrâneo” e o torna um “cemitério”. Não há outros caminhos segundo o Papa Francisco, que chegou a Marselha para dedicar dois dias às “tragédias dos migrantes”. O Pontífice agradece às organizações que vão para o mar para salvar vidas e acusa de “ódio” aqueles que “impedem os seus resgates”.

A reportagem é de Domenico Agasso, publicada por La Stampa, 23-09-2023. A tradução é de Luisa Rabolini

Poucas horas antes, no avião, a fotógrafa Jara Nardi mostra ao Papa uma fotografia (close-up da Reuters) de uma criança de Camarões: o Bispo de Roma olhou para a foto e fica comovido. E denuncia: “Eles os mantêm nos campos de concentração da Líbia e depois os jogam ao mar”. E a um jornalista italiano que lhe recorda a situação dos desembarques em Lampedusa e outras zonas de desembarque, Bergoglio diz com amargura: “É uma crueldade. É uma terrível falta de humanidade".

O Papa está na maior cidade do sul da França – o porto marítimo mais importante do País graças ao novo porto construído no século XIX – para participar na terceira edição dos “Encontros do Mediterrâneo”.

Numa tarde de sol e vento fraco, Francisco vai ao Memorial dos Marinheiros e Migrantes perdidos no mar, onde tem um momento de recolhimento com outros líderes religiosos. Junto com dois imigrantes, Bergoglio coloca uma coroa de flores ao pé da Estela.

Ele convida a não nos acostumarmos a “considerar os naufrágios como notícias do dia a dia e as mortes no mar como números: não, são nomes e sobrenomes, rostos e histórias, vidas cortadas e sonhos desfeitos”. Diante de tal drama, “não bastam palavras, são necessárias ações. Mas, antes disso, é necessária humanidade: silêncio, choro, compaixão e oração. Deixemo-nos ser tocados por suas tragédias." O Bispo de Roma ressalta que “gente demais, fugindo de conflitos, pobreza e desastres ambientais, encontra nas ondas do Mediterrâneo a rejeição definitiva da sua busca por um futuro melhor”. E assim este “mar esplêndido tornou-se um enorme cemitério, onde muitos irmãos e irmãs são privados até do direito de ter um túmulo, e o que acaba sendo sepultado é apenas a dignidade humana”.

Por um lado, "a fraternidade, que fecunda de bem a comunidade humana; por outro, a indiferença, que cobre de sangue o Mediterrâneo. Encontramo-nos numa encruzilhada de civilização". Para Bergoglio “não podemos resignar-nos a ver seres humanos tratados como moeda de troca, presos e torturados de forma atroz”; não podemos mais “assistir às tragédias dos naufrágios, devido a tráficos odiosos e ao fanatismo da indiferença. As pessoas que correm o risco de se afogar quando são abandonadas nas ondas devem ser socorridas. É um dever de humanidade, é um dever de civilidade!”

Ele nos garante que “o céu nos abençoará se soubermos cuidar dos mais fracos e superar a paralisia do medo e o desinteresse que condenam à morte com luvas de pelica". Como motivo de esperança, cita David Sassoli, que em Bari, no dia 22 de fevereiro de 2020, no primeiro “Encontro do Mediterrâneo”, disse: precisamos “continuar juntos a lutar contra os ídolos, derrubar muros, construir pontes, dar corpo a um novo humanismo. Chega de ter medo dos problemas que o Mediterrâneo nos apresenta! Para a União Europeia e para todos nós, está em jogo a nossa sobrevivência".

Finalmente, diante de vários representantes de ONGs e associações, entre os quais Luca Casarini, da Mediterranea, sentado na primeira fila, Francisco agradece às organizações que “vão para o mar para salvar os migrantes. Fico feliz em ver muitos de vocês aqui. E muitas vezes vocês são impedidos de ir, porque – dizem – falta alguma coisa ano navio, falta isso, aquilo outro... São gestos de ódio contra o irmão, disfarçados de ‘equilíbrio’”.

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