O desafio das esquerdas diante da periferização do mundo

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28 Março 2022

 

O capitalismo, ao longo de sua existência, passou por diversas transformações, mostrando a sua força e, ao mesmo tempo, suas imperfeições, como na grande depressão de 1929, na crise de 2008 e, a partir de 2020, com a administração da pandemia do Coronavírus.

 

A reportagem é de Vinícius Emmanuelli, estagiário e aluno do curso de Jornalismo da Unisinos.

 

Ao refletirem sobre a crise atual na conferência virtual intitulada “Desafios para Construção política: os efeitos da periferização do mundo nas esquerdas”, promovida pelo Instituto Humanitas UnisinosIHU no dia 10-03-2022, Edemilson Paraná, doutor em sociologia, e Gabriel Tupinambá, doutor em Filosofia, destacaram que ao passo que a crise mostra os graves erros e fraquezas do sistema de livre mercado, o horizonte de futuro saiu de cena. Conforme explica Paraná, quando o capitalismo deixa de apresentar características luminosas, um horizonte “regressivo” ocupa o lugar daquele que prometia o progresso.

 

Recentemente, Paraná e Tupinambá publicaram o livro intitulado “Arquitetura de arestas: as esquerdas em tempos de periferização do mundo”, cujo tema foi abordado no evento. Os autores cunharam as expressões “Arquitetura de Arestas”, buscando levar o leitor a uma profunda reflexão sobre o mundo em que vivemos, mergulhados em sentidos anacrônicos de uma sociedade volátil. Segundo eles, o livro não propõe regras a serem seguidas. Pelo contrário, é um grande leque para discussões. A originalidade de “Arquitetura de Arestas”, pontuam, está em uma condição de meta-resposta, respondendo à pergunta “por onde começar?”, que admite as mais variadas respostas, todas potencialmente legítimas.

 

Capa do livro "Arquitetura de arestas: as esquerdas
em tempos de periferização do mundo", de
Edemilson Paraná e Gabriel Tupinambá
(Foto: Editora Autonomia Literária)

 

Em entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos - IHU em agosto de 2020, Edemilson Paraná refletiu sobre a criação do Bitcoin, um exemplo clássico de como o capitalismo manipula toda a esfera pública, inclusive os grupos da elite econômica. “O Bitcoin não nega apenas o incontornável papel do Estado na gestão monetária capitalista, mas a própria possibilidade de uma regulação social que não aquela realizada estritamente pelo mercado. Ocorre que isso é uma ilusão, uma impossibilidade material mesmo, porque uma coisa é criar uma moeda, outra é garantir que ela seja reconhecida socialmente como equivalente geral, o que demanda poder político, poder econômico e, no limite, até violência”, destaca.

 

Periferização

 

“Uma das consequências da periferização, são as formações sociais híbridas, que tendem a se expandir, sendo um modelo de sucesso do capitalismo avançado”, acrescenta Tupinambá. A hibridização é quando, por exemplo, os trabalhos informais crescem, e acaba por correr a homogeneidade do sistema; é um dos tentáculos do capitalismo que se transforma.

Diante das transformações geradas pelo capitalismo, os pesquisadores também refletem sobre o papel político da esquerda no enfrentamento dos efeitos dessas mudanças na vida dos trabalhadores. Segundo eles, a esquerda não pode focar apenas na teoria ou na prática das pautas que defende, sobretudo a democracia e a legitimidade popular. Isso porque, esclarecem, os agentes do atual sistema sociopolítico e econômico mundial remodelam as massas, enquanto os militantes - muitos deles - não conseguem entrar no ritmo e focar na raiz do problema, levando-os ao erro e blindando o modus operandi do “inimigo”.

 

Fragmentação das esquerdas

 

Conforme afirma Gabriel Tupinambá, a própria fragmentação das esquerdas mundiais é o efeito mais notório da periferização que se pode analisar empiricamente. Ele cita como exemplo de modelo o governo petista em 2013 - época em que Dilma Rousseff era presidente da República: o governo entrou em choque com as imensas mobilizações populares. Em resumo, a desunião entre os membros dos grupos esquerdistas oferece munição para que os opositores se aproveitem da fragilidade do oponente. A própria forma de viver no cenário capitalista acaba por “sufocar” as ideias revolucionárias ao não existir tempo para as mudanças, muito menos espaço para isso.

 

Edemilson Paraná é mestre e doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília - UnB -, com período sanduíche realizado na SOAS/University of London. Leciona no Departamento de Ciências Sociais e nos Programas de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará - UFC - e no Programa de Pós-graduação de Estudos Comparados sobre as Américas, da Universidade de Brasília – UnB. Foi pesquisador no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - Ipea e fez estágio pós-doutoral nos Departamentos de Economia e de Estudos Latino-Americanos da UnB.

Gabriel Tupinambá é formado em Belas Artes pela Central Saint Martins College of Art & Design, mestre em Mídia e Comunicação 2012 e doutor em Filosofia 2015 pela European Graduate School. É pesquisador de Pós-Doutorado no Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFRJ, psicanalista e coordenador do Círculo de Estudos da Ideia e da Ideologia.

 

 

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