Quem escuta o medo. Artigo de Enzo Bianchi

Foto: Pixabay

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

19 Janeiro 2021

"Quantos homens e mulheres dizem, de forma mais ou menos explícita: "Não aguentamos mais!" É possível que esse grito não seja ouvido?", questiona Enzo Bianchi, monge italiano e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado por La Repubblica, 18-01-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Ao longo da minha vida, graças a uma educação severa recebida sobre os relacionamentos com os outros, sempre procurei dar primazia à escuta, porque tinha compreendido e sempre pude verificar que a escuta dos homens e das mulheres, a escuta da consciência através da qual, para um fiel, Deus fala e a escuta de todas as realidades, mesmo as mais humildes, dá razões para viver plenamente. “Cada coisa tem sua voz”, escreve Paulo de Tarso: às vezes uma voz suave, como uma brisa, um silêncio eloquente, mas audível quando se presta atenção não apenas com o ouvido, mas também com o coração. Certamente há muita escuta na cela solitária e silenciosa da própria solidão, quando os abismos e mesmo os infernos que nos habitam nas profundezas fazem ouvir seus gritos, ou quando os sentimentos de amor, harmonia e paz doam a todo o ser, alma e corpo, a quietude.

Nunca frequentei salões eclesiásticos, intelectuais e menos ainda políticos, mas principalmente na última década encontro muito tempo para passear no campo ou na cidade, para "perambular" pelos bosques, morros e campos, sem destino preciso, mas me enveredando por estradas e caminhos que surgem à minha frente e que escolho com liberdade.

Isso me permite os mais diversos encontros: idosos e jovens, gente que anda por aí, gente que trabalha, gente que não me conhece, assim como eu não os conheço. Eu escuto, falo pouco e procuro aprender. E o que aprendi neste ano de pandemia? Que as pessoas estão com medo e desorientadas.

Elas têm medo do contágio, receiam se encontrar e entrar em contato com outras pessoas. Elas têm medo da situação de pobreza em que acabaram se encontrando. Elas têm medo de que não seja mais possível voltar a viver livre desse pesadelo. O tempo presente, marcado a intervalos pelo enclausuramento e por outras medidas de contenção do contágio, marcado pela impossibilidade de encontros, viagens e relacionamentos, é sentido como um tempo inabitável, morto, situado entre um antes em que havia vida. E um amanhã em que talvez volte a ter novamente.

Mas hoje esses meses são como se tivessem sido tirados da vida, principalmente para quem é idoso e sente que seus últimos anos são preciosos. E assim o sentimento que mais aparece é o da desorientação: sim, falta de um oriente, de um horizonte. Não se consegue entender, e isso aumenta o medo, a sensação de impotência e também a raiva.

Desorientação devido à confusão sobre a dinâmica da pandemia; desorientação por parte dos políticos que, mesmo perante numerosas mortes todos os dias, continuam a mostrar-se arrogantes e irresponsáveis, sem vontade de perseguir o "bem comum", nem mesmo numa situação econômica e social tão dramática. As pessoas se sentem realmente desorientadas e falam isso com raiva, quase sonhando com uma insurreição que arraste esses empresários do nada e do desmantelamento da pólis.

Quantos homens e mulheres dizem, de forma mais ou menos explícita: "Não aguentamos mais!" É possível que esse grito não seja ouvido?

Leia mais