Covid, a experiência de um bispo curado por um tempo que nos pede para mudar

Reprodução: Agência Brasil

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15 Julho 2020

Sempre gostei de uma tocante coleção de dez poemas, escrita por Cesare Pavese entre 11 de março e 10 de abril de 1950, com o título Verrà la morte e avrà i tuoi occhi, (em tradução livre, Virá a morte e terá teus olhos). Hoje, pensando no que vivi e no que desejo fazer, animado por um premente senso de restituição, posso dizer por minha vez: "Virá a vida e terá teus olhos", inclusive nesse olhar Deus, que estava ao meu lado e de todos que conseguirei alcançar com minha simples voz.

Quem escreve essas palavras é monsenhor Derio Olivero, bispo de Pinerolo, Itália, que, como ele mesmo conta, durante a Semana Santa 2020 estava a um passo da morte devido à Covid-19.

A reportagem é de Francesco Antonio Grana, publicada por Il Fatto Quotidiano, 14-07-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

O bispo, que compartilhou esse sofrimento com outros coirmãos bispos e com muitos outros sacerdotes, muitos dos quais não conseguiram sobreviver, quis reunir em um livro aquelas semanas de luta vividas no hospital. A vida virá e terá teus olhos (San Paolo), escritos em parceria com Albero Chiara, editor-chefe de Famiglia Cristiana, é o resultado do sofrimento de D. Olivero que, no entanto, mesmo quando tudo à sua volta parecia mais escuro do que a noite, nunca perdeu a esperança.

O bispo não queria guardar essa experiência dramática só para si, da qual ele admite ter saído como um novo homem e um novo pastor, mas quis compartilhá-la com qualquer pessoa que esteve ao seu lado naquelas semanas de sofrimento e orou por ele. Mas também com aqueles que, dentro e fora da Igreja italiana, subestimaram a gravidade da pandemia. O livro também é uma maneira de agradecer aos médicos e enfermeiros que o ajudaram com profissionalismo e humanidade a vencer a luta entre a vida e a morte. Uma experiência que, como ele próprio escreveu, lhe deu novos olhos para olhar o mundo.

"Aqui é difícil, difícil, difícil. Uma batalha. Reze por mim!". Quando li a mensagem de D. Derio Olivero no celular – escreve o cardeal de Bolonha, Matteo Maria Zuppi, no prefácio do livro – entendi de maneira física o drama que víamos através das imagens, as histórias que enchiam aqueles dias atribulados, de medo, inconsciência, sofrimento, isolamento, perturbação que se seguiam sem parar. E o sofrimento de uma pessoa ajuda a derrotar o anonimato, pensar que são apenas números, estatísticas, nomes sem rostos e, no final, sem humanidade. Seu nome me acompanhou na oração insistente e intensa daqueles dias que uniram muitos, uma verdadeira rebelião contra o mal e escolha de não o aceitar passivamente".

O cardeal lembra que “três semanas depois, inesperadamente, recebi outra mensagem, a de todos aqueles que viveram a amargura da separação, a angústia de não ter notícias, a frustração de não poder visitar e a dor de não acompanhar na luta pela vida o ente querido, gostariam de ter podido ler: “Caro amigo, desde ontem respiro. Deus fez o milagre. Obrigado pelas orações!”. Sim. Graças a Deus, Derio sentiu-o presente naquele duelo entre a morte e a vida que nos ajuda a entender que o Evangelho está na história, aquela que o mundo do bem-estar havia iludido poder observar como espectadores, pensando em ficar saudável, mesmo que por toda parte havia doentes".

“Tive alta - diz o bispo no livro - exatamente 40 dias após minha hospitalização. Interessante, não é? Aquela experiência representa minha travessia pessoal pelo deserto". E acrescenta: “Nos dias de retorno à vida, também ouvi uma voz muito especial: a de Jorge Mario Bergoglio. Francisco me chamou na ala em 17 de abril. Fiquei tão surpreso que não queria acreditar. Mas o médico insistia: 'Responda, é mesmo o Papa'. Ouvir isso me deu muita força. Ele me disse que desde que soube que eu estava internado, orou por mim. Ele me pediu para transmitir seus cumprimentos aos amigos valdenses e abençoou a mim, às outras pessoas doentes e a toda a equipe médica presente".

O livro de D. Olivero não apenas conta a história daquelas difíceis semanas vividas no hospital Edoardo Agnelli, em Pinerolo. Mas, aproveitando daqueles dias de luta, o bispo tira um ensinamento para o futuro e o faz olhando principalmente para a Igreja. Assim como ele já havia feito, não tendo repercussão, nos dias de forte tensão entre a CEI e o governo italiano, quando um cabo de guerra estava em curso pela retomada das celebrações com a presença dos fiéis, algo que havia sido interrompido durante o lockdown e até mesmo durante a Semana Santa e a Páscoa.

“Um dos grandes riscos que a Igreja e a sociedade estão correndo - escreve o bispo - é pensar que, quando esse período muito ruim, mais cedo ou mais tarde terminar definitivamente, poderemos retornar a ser como éramos antes. Por outro lado, estou convencido, pela experiência que tive e pelo que agora observo, que essa tragédia não foi absolutamente um parêntese ruim a ser superado a fim de retornar tudo como antes: é um tempo que fala conosco, um kairòs. É um tempo que grita e nos pede para mudar".

 

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