"Não podemos aprovar o preâmbulo da forma como está", afirmam lefebvrianos

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30 Novembro 2011

"É verdade que este preâmbulo doutrinal não pode receber a nossa aprovação, mesmo que esteja prevista uma margem para uma `legítima discussão` sobre alguns pontos do Concílio Vaticano II. Quanto é a entidade dessa margem? A proposta que eu vou fazer nestes dias para as autoridades romanas e a sua resposta, por sua vez, nos permitirão avaliar as oportunidades que nos restam. Seja qual for o resultado dessa discussão, o documento final que for aceito ou rejeitado, será tornado público".

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada no sítio Vatican Insider, 29-11-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A afirmação é do superior da Fraternidade São Pio X, o bispo Bernard Fellay, às vésperas da resposta esperada pelas autoridades vaticanas. Depois de uma série de colóquios doutrinais entre os lefebvrianos e a Santa Sé, a Congregação para a Doutrina da Fé havia entregue, em setembro passado, o texto de um "preâmbulo" doutrinal, cuja aceitação era considerada imprescindível pelo Vaticano para restabelecer a plena comunhão e para oferecer à Fraternidade uma sistematização canônica.

O preâmbulo – deduz-se da entrevista publicada por Fellay no boletim oficial online da Fraternidade (www.laportelatine.org) – estava unido a uma nota de acompanhamento na qual se explicava que seria possível, para os lefebvrianos, pedir esclarecimentos a fim de propor eventuais modificações. Mas os responsáveis da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, o prefeito da doutrina, cardeal William Levada, e Dom Guido Pozzo, eram e são da opinião de que as eventuais modificações certamente não podem ser substanciais.

Na prática, o preâmbulo pede que a Fraternidade assine embaixo da Professio fidei exigida a toda pessoa que assume um ofício eclesiástico. Essa profissão de fé católica prevê três graus diferentes de aprovação necessários e distingue entre verdades reveladas, declarações dogmáticas, e magistério ordinário. A propósito deste último, ela afirma que o católico é chamado a assegurar um "religioso obséquio da vontade e do intelecto" aos ensinamentos que o papa e o colégio dos bispos "propõem quando exercem o seu magistério autêntico", mesmo que não sejam proclamados de forma dogmática, como no caso da maior parte dos documentos do Magistério.

A Santa Sé, portanto, não excluiu a possibilidade de manter uma discussão aberta sobre alguns pontos do Concílio Vaticano II que os lefebvrianos continuam considerando como problemáticos. O caminho para o possível acordo com a Fraternidade, no entanto, parece ainda ser muito íngreme, e se confirmam os rumores das últimas semanas acerca da forte oposição interna à proposta vaticana.

O entrevistador pergunta a Fellay: "Visto que esse documento é pouco claro, não seria mais fácil dizer aos seus autores vaticanos que ele não era admissível?". "Teria sido mais fácil – responde o superior da Fraternidade –, mas não o mais honesto. Como a nota de acompanhamento prevê a possibilidade de esclarecimentos, parece necessário pedi-los, em vez de dizer não a priori. Isso não prejudica a resposta que daremos".

O bispo lefebvriano também afirma que a única doutrina imutável é o Credo, a profissão de fé católica, enquanto o Concílio Vaticano II foi um Concílio pastoral, "que não definiu dogmas e não acrescentou novos artigos de fé, como `eu creio na liberdade religiosa, no ecumenismo, na colegialidade...` O Credo não é mais suficiente hoje para sermos reconhecidos como católicos? Ele não expressa toda a fé católica?". Portanto, ele parece dizer que o Credo, e não o preâmbulo que contém a Professio fidei, é o texto comum que a Fraternidade estaria disposta a assinar.

É evidente que a entrevista ainda não representa a resposta. O superior da Fraternidade São Pio X sabe muito bem quantas e quais são as oposições internas ao acordo com Roma, mesmo entre os responsáveis lefebvrianos. No texto escrito que será enviado às autoridades vaticanas, serão pedidas modificações, aparentemente substanciais: se o texto atual "não pode receber a nossa aprovação", é claro que o que está sendo contestado não são as vírgulas ou as nuances, mas sim aspectos substanciais. A disputa, portanto, continua totalmente em aberto e será preciso ver quais serão as decisões da Santa Sé depois de receber a resposta da Fraternidade.