A amnésia presbiteral. Artigo de Matias Soares

Foto: Pexels/Canva

Mais Lidos

  • Prevost assina a nova Constituição. Removida a parte teocrática de Bergoglio

    LER MAIS
  • A amnésia presbiteral. Artigo de Matias Soares

    LER MAIS
  • Após o cisma da FSSPX, alguns católicos defendem maior acesso à missa em latim

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

05 Agosto 2026

"A amnésia vivida por muitos presbíteros de hoje, e aqui o problema da crise de identidade, tem a ver, antes de tudo, com vários fatores antropológicos, sociais e planetários. Somos, tanto quanto os demais seres humanos, um microcosmo numa ecologia que, deveras, é integral e à qual todos precisamos nos integrar. Ainda estamos querendo formar os novos presbíteros e cultivar a nossa formação permanente, sem atenção ao que está sendo vivido por esta humanidade pós-orgânica." 

O artigo é de Matias Soares, pároco da paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório-Natal/RN, Capelão da UFRN.

Segundo ele, "urge uma redescoberta, com novas impressões e capacidades de hermenêuticas; sem medo do novo e corajosamente inseridos nas concretudes geográficas e existenciais do ser humano contemporâneo. Enquanto não estivermos alicerçado numa mística cristã profunda, radicada na Alegria do Evangelho, continuaremos a ser amnésicos na identidade presbiteral, porque antes somos confusos na vocação humana e cristã".

Eis o artigo.

O mundo tem seus paradigmas identitários. Estamos numa época da existência que determina o ser e não mais a do Ser que determina a existência. É um tempo pós-teísta. Por trás desta constatação estão séculos de história do pensamento cristão. A teologia católica, pelo menos no que podemos inteligir da ‘reviravolta antropológica’ firmada pelo Concílio Vaticano II, mesmo a partir do seu fundamento cristocêntrico (Gaudium et Spes, 22), não deixou de trazer para o seu norte antropológico, aquela consequência da ênfase dada ao sujeito e às suas condições para uma autonomia amadurecida e relacional.

Ainda hoje, temos dificuldade de dialogar com as subjetividades contemporâneas. Desde às nossas estruturas internas e, ainda mais, no nosso sonhado diálogo com a cultura pós-cristã. As condições monolíticas e unilaterais riscadas pelos valores da cristandade ocidental, já não existem; por mais que, alguns insistam, de forma pueril, e autoenganosa, em tentar resgatar; talvez, com a frágil esperança de que com elas estaremos sendo católicos ‘puros e simples’, como se pudéssemos ser estes sem o que está na raiz da “essência do cristianismo”, que é sempre Jesus Cristo, o mesmo, ontem, hoje e sempre (Hb 13,8). 

Temos tido dificuldades em manter um diálogo com os fenômenos hipermodernos. Ainda queremos impor, sem nos deixarmos questionar. Por isso, a perspectiva do estilo sinodal, lançado pelo Papa Francisco, ainda está a encontrar resistências ao seu desenvolvimento. O reconhecimento das várias formas ser e agir no mundo e na história sempre terá dificuldades de sínteses e recomeços.

Nesse cenário das tantas crises - ecológicas, migratórias, econômicas, valores, identitárias, fé, etc. - e suas consequências antropológicas, vemos que as formas de viver o ministério ordenado também entra em confusões existenciais, que têm feito com que caíamos, ou num progressismo imanentista e sem espírito, ou num tradicionalismo desencarnado e alienado historicamente. Nos dois podemos perceber o que foi denunciado pelo Papa Francisco, quando fez referência às novas formas pelagianas e gnósticas, como inimigas da santidade no mundo de hoje (Gaudete et Exsultate, cap. II).

Poderíamos pensar o drama acerca da identidade presbiteral em nossos tempos, a partir destas duas formas de viver essas heresias, tão antigas e sempre novas; já que afrontam o primado da graça de Deus na dinâmica vocacional. Isso tem nos levado à convivência com o “mundanismo espiritual”, que é mais do que um estilo distorcido de exercer o poder na Igreja, que é o clericalismo.

O primeiro é um problema antropológico e, consequentemente, teológico. No segundo, vemos os fenômenos de uma existência presbiteral com carência de testemunho e convicções profundas de quem e como somos chamados a ser presbíteros na cultura pós-moderna e pós-cristã. Há um infantilismo autocentrado que nos fecha em bolhas sem sensibilidade ao que está posto pela nova ‘ordem sistêmica’ (N. Luhmann), que, tanto quanto no passado, exige de cada um de nós outros, as marcas da santidade, com sua ‘mística de olhos abertos’ (J. Batista Metz).

Uma das questões que perpassam e fomentam essa negação da inserção na realidade e, consequentemente, com suas gradações amnésicas de quem somos, com o nosso princípio fundante do ser presbítero, que é Jesus Cristo, é a nossa contínua negação da nossa subjetividade relacional; ou seja, nós e o totalmente Outro, que é Nosso Senhor Jesus Cristo, Aquele por quem somos chamados a ser interpelados. Também devemos inserir os demais seres humanos com sua dignidade única e universal.

A nossa formação ainda valoriza mais o que Erving Goffman chama de “instituições totais” (Mânicômios, prisões e conventos, p. 16-22). Pode-se inferir, a partir desta leitura, que muitos chegam ao exercício do ministério sem uma profunda identificação com a pessoa de Jesus Cristo, não simplesmente do ponto de vista dogmático; mas, antes de tudo existencial e com consciência de discípulo e missionário do Senhor.

O seu paradigma não é teológico; mas, sociológico. Seguindo sua ideia do que sejam instituições totais, e, aqui, entram as casas de formação, ainda não estão com maturidade, tanto nas suas estruturas, quanto com o seu capital humano para reconhecerem a dignidade e a liberdade de todos aqueles que sentem-se chamados ao ministério ordenado na Igreja e para o mundo. Segundo este autor, considerando a antropologia contemporânea, com suas várias manifestações sociais, “na sociedade moderna o indivíduo tende a dormir, brincar e trabalhar em diferentes lugares, com diferentes coparticipantes, sob diferentes autoridades e sem um plano racional geral. O aspecto central das instituições totais pode ser descrito com a ruptura das barreiras que comumente separam essas três esperas: - mesmo local e autoridade; - mesmas pessoas e conjunto de atividades; e um plano racional único” (Idem. p. 17-18).

Diferente do que continuamos a inferir, a massificação disciplinar tende a formatar - homens de instituição-eclesiásticos - e não formar - cristãos-discípulos missionários. Nessa direção, quem está lá, pode não está; quem diz, pode não está consciente do que é dito. Por isso, antes e depois, na vida ministerial, as carreiras e burocracias tornam-se mais importantes do que o testemunho evangélico. Reitero que a proposição é de integração e não de anulação de uma dimensão em detrimento da outra. Todavia, faria um reposicionamento da segunda em relação à primeira questão. As estruturas, organismos e colegiados, com seus representantes, não podem continuar a renegar a centralidade da pessoa e do ser cristão de todos os que estão envolvidos no processo. Continuamos a cometer os mesmos erros de leitura dos sinais dos novos tempos com seus desafios.

A amnésia vivida por muitos presbíteros de hoje, e aqui o problema da crise de identidade, tem a ver, antes de tudo, com vários fatores antropológicos, sociais e planetários. Somos, tanto quanto os demais seres humanos, um microcosmo numa ecologia que, deveras, é integral e à qual todos precisamos nos integrar. Ainda estamos querendo formar os novos presbíteros e cultivar a nossa formação permanente, sem atenção ao que está sendo vivido por esta humanidade pós-orgânica. Ou dialogamos com as novas subjetividades; ou estaremos buscando sempre nos fechar em nós mesmos e oferecer respostas a questionamentos que não são mais feitos. Essa amnésia, antes de ser presbiteral, é antropológica. Cabe aqui a pergunta do salmista: “Quem é o ser humano, Senhor, para que dele cuideis tanto assim?” (Sl 8,4).

Enfim, faço uso do discurso do Papa Bento XVI aos seminaristas, em Colônia, durante a sua XX Jornada Mundial da Juventude. Nesta admoestação, há vários ensinamentos acerca da missão dos seminários em nossos tempos e, acrescentaria, dos nossos presbitérios, que necessitam ter presente a urgência de uma mentalidade de formação permanente (A formação permanente: uma mentalidade).

Bento afirmou que “o seminário é tempo de formação e discernimento”. Esta converge sempre para a unidade da pessoa. O seu objetivo mais profundo, afirmou o pontífice, “é fazer conhecer intimamente aquele Deus que em Jesus Cristo nos mostrou o seu rosto”. Continua afirmando que “tudo isto deve unir-se com os questionamentos da nossa razão e portanto com o contexto da vida humana de hoje. Este estudo, às vezes, pode parecer difícil, mas isso constitui uma parte insubstituível do nosso encontro com Cristo e da nossa chamada para anunciá-Lo.

Tudo concorre para desenvolver uma personalidade coerente e equilibrada, capaz de assumir validamente, para depois realizar responsavelmente a missão presbiteral.  O papel dos formadores é decisivo: ‘a qualidade do presbitério numa Igreja particular depende em boa parte do seminário e, portanto, da qualidade dos responsáveis pela formação’”. Por último, ele enfatiza que “o seminário é tempo de preparação para a missão’ (Viagem apostólica a Colônia por ocasião da XX Jornada Mundial da Juventude, discurso do Papa Bento XVI). Urge uma redescoberta, com novas impressões e capacidades de hermenêuticas; sem medo do novo e corajosamente inseridos nas concretudes geográficas e existenciais do ser humano contemporâneo. Enquanto não estivermos alicerçado numa mística cristã profunda, radicada na Alegria do Evangelho, continuaremos a ser amnésicos na identidade presbiteral, porque antes somos confusos na vocação humana e cristã. Assim o seja!

Leia mais