12 Agosto 2024
Se Francisco nos surpreendeu quando chegou ao pontificado, revolucionando todo o aparato imperial dos papas, agora o faz novamente ao aconselhar os aspirantes ao sacerdócio a lerem os clássicos.
O artigo é de Juan Arias, jornalista, publicado por El País, 10-08-2024.
Eis o artigo.
O Papa Francisco já nos surpreendeu muitas vezes no seu pontificado atípico, começando por não querer chamar-se “papa”, mas sim um simples bispo de Roma, como no início do cristianismo, e abandonando todas as armadilhas do papado clássico da vestimenta herdada dos imperadores romanos, para morar em um hotel fora dos palácios do Vaticano. E agora acaba de surpreender novamente a Cúria Romana conformista com uma carta na qual aconselha que os seminaristas leiam a literatura pura e simples dos clássicos, citando, por exemplo, Marcel Proust, T.S.Eliot ou Jorge Luis Borges.
O Papa explica, mesmo com confissões pessoais, que ler os romances e poemas dos clássicos é uma terapia e lembra que aos 28 anos era professor de literatura e que desde então amou os autores trágicos. “Encontrar um bom livro”, diz ele, “pode ser um oásis que nos ajuda a enfrentar as tempestades até alcançarmos a serenidade”. E dá como exemplo: “Adoro os escritores trágicos porque todos podemos sentir as suas obras como nossas, como expressão dos nossos próprios dramas, do nosso vazio interior, da nossa própria solidão”.
Segundo Francisco, a leitura dos clássicos, mesmo os mais rasgados, “pode abrir em nós espaços de interiorização que nos impedem de nos fecharmos nas ideias obsessivas e anómalas que nos perseguem”. Para ele, “um bom livro pelo menos nos ajuda a enfrentar as tempestades até alcançarmos a serenidade”.
O Papa confessa: “Adoro os autores trágicos porque todos podemos sentir as suas obras como expressão dos nossos próprios dramas. Choramos no fundo pelos nossos próprios dramas, por nós mesmos e pelo nosso próprio vazio, pelas nossas deficiências e pela nossa própria solidão”.
Segundo Francisco, ao ler os clássicos “mergulhamo-nos, por exemplo, na existência das prostitutas, da criança que cresce sem os pais, da mulher do pedreiro ou da velha que ainda espera pelo príncipe encantado”. Ler um clássico é para o Papa Francisco uma forma de “enfrentar as tempestades até alcançar a serenidade”.
Na sua carta aos bispos, o papa lamenta que a literatura, a dos clássicos, “não seja considerada essencial na formação dos futuros sacerdotes”. Ler o documento de Francisco me lembra que dos seis papas que conheci pessoalmente através do meu trabalho como jornalista, nenhum teria ousado aconselhar que os candidatos ao sacerdócio que são forçados a manter o celibato, além de lerem a Bíblia, lessem para os clássicos da literatura mundial.
A carta do Papa Francisco exortando os candidatos ao sacerdócio a lerem literatura clássica fez-me lembrar uma anedota de quando eu estava a estudar no ensino secundário numa escola religiosa. Não só não podíamos ler literatura e poesia, mas até a Bíblia, o Antigo Testamento, parecia inconveniente por causa das suas histórias sexuais.
Lembro-me do escândalo dos pais quando descobriram que eu estava escondendo entre nós um poema levemente picante de García Lorca. Foi um drama e houve punições. A literatura e a poesia, nos seminários, sempre foram coisas do diabo, do pecado.
Talvez o Papa Francisco, que teve de enfrentar a delicada e vergonhosa questão da pedofilia na Igreja que resiste a acabar com o celibato obrigatório dos candidatos ao sacerdócio, quisesse ir em frente para deixar claro que sexo não é sinônimo de pecado, que os padres foram casados durante séculos, que até Jesus foi, com a gnóstica Madalena a quem apareceu pela primeira vez ressuscitado, diante de sua própria mãe.
Se Francisco nos surpreendeu quando chegou ao pontificado, revolucionando todo o aparato imperial dos papas anteriores, agora o faz novamente ao aconselhar aos aspirantes ao sacerdócio um dos grandes tabus ainda vivos no cristianismo: a leitura dura e pura dos clássicos da literatura.
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