Vaticano opõe-se à militarização e à comercialização do espaço

Foto: NASA/Unplash

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02 Abril 2026

A Santa Sé é um ator importante na política mundial – e na política espacial. O embaixador do Papa na ONU considera que o uso pacífico do espaço está ameaçado por guerras e pela comercialização.

A reportagem é publicada por Katholisch, 01-04-2026.

O Vaticano defende uma política espacial orientada para o interesse público. Em entrevista ao Vatican News, dom Ettore Balestrero, arcebispo e Observador Permanente da Santa Sé junto às Nações Unidas, argumenta que o espaço deve permanecer um bem comum, "com normas jurídicas claras que sejam atualizadas — quando necessário — em consciência da nossa responsabilidade para com toda a humanidade e as gerações futuras". O espaço, afirma ele, não é uma terra de ninguém ou um campo de conquista sem lei onde se deva aplicar o princípio de "quem chega primeiro, é servido primeiro".

A mensagem central da Igreja é que a humanidade não deve transformar o espaço numa selva. "Ele oferece à humanidade, de certa forma, uma segunda chance e nos convida a evitar muitos dos erros que cometemos na Terra." O espaço deve ser explorado "de forma responsável, com solidariedade e respeito pelo princípio da subsidiariedade – para o benefício das gerações presentes e futuras", continuou Balestrero.

O diplomata do Vaticano alertou que o espaço pode se tornar palco de competição acirrada ou de conflitos. Como primeiro passo, ele pediu a adesão ao Tratado do Espaço Exterior das Nações Unidas de 1967, do qual a Santa Sé é um dos 120 signatários: "A Santa Sé apela para o fortalecimento da legislação existente e para que não haja desvios – para evitar que os países fiquem para trás e para salvaguardar o meio ambiente, por exemplo, por meio de projetos conjuntos para a remoção de detritos espaciais." O tratado estipula que a exploração e o uso do espaço exterior devem ser para o benefício e no interesse de todos os países. Ele permite voos espaciais civis e pesquisas espaciais, mas proíbe o lançamento de armas nucleares e outras armas de destruição em massa no espaço.

Proteção insuficiente contra a militarização do espaço

Balestrero lamenta que o Tratado do Espaço Exterior não proíba explicitamente armas convencionais no espaço, nem o uso do espaço para ciberataques ou interferência em sinais de rádio, o que já está acontecendo. Ele argumenta que é preciso distinguir entre o uso do espaço para apoiar operações militares na Terra, por exemplo, por meio de satélites, e o lançamento físico de armas e seu uso direto no espaço. "No entanto, devemos estar cientes — e isso é crucial — de que um conflito que envolva diretamente o espaço provavelmente não pouparia ninguém na Terra", alerta o arcebispo.

O uso comercial do espaço não deve se tornar um fim em si mesmo e exacerbar as desigualdades existentes. "Um equilíbrio saudável entre competição e cooperação ajuda a garantir que o espaço sirva diretamente à dignidade humana e ao bem comum – por exemplo, em situações de crise por meio de comunicações de emergência, dados de satélite para ajuda humanitária ou monitoramento para proteger locais sagrados. Em outros casos, melhora a previsão do tempo, a agricultura, a saúde e o transporte – e também alcança países e comunidades que, de outra forma, seriam excluídos", explica Balestrero.

Décadas de envolvimento do Vaticano na política espacial

A Santa Sé está envolvida na política espacial há décadas, desde a assinatura do Tratado do Espaço Exterior. Em 2018, a Santa Sé, juntamente com o Escritório das Nações Unidas para Assuntos do Espaço Exterior (UNOOSA), organizou um seminário sobre exploração e desenvolvimento espacial, debatendo oportunidades e desafios relacionados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Há anos, os representantes da Santa Sé na ONU defendem uma regulamentação do espaço exterior orientada para o interesse público na Assembleia Geral da ONU.

A Fundação Caritas in Veritate, sediada em Genebra, na Missão Permanente da Santa Sé junto às Nações Unidas e presidida por Balestrero, escolheu a política espacial como foco principal. Em 2026, publicou uma coletânea de ensaios sobre o uso e a exploração do espaço para o benefício público, que inclui artigos acadêmicos, bem como uma compilação de declarações do magistério papal e da Santa Sé sobre questões espaciais.

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