Os rostos clericais do Sínodo. Artigo de Vinício Albanesi

Foto: Vatican Media

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18 Outubro 2023

"O desejo [para o Sínodo] é uma Igreja que recupere as duas dimensões essenciais de toda fé: o louvor a Deus, a reciprocidade no respeito por si e pelos outros", escreve Vinicio Albanesi, padre italiano, professor do Instituto Teológico Marchigiano e presidente da Comunidade de Capodarco desde 1994, em artigo publicado por Settimana News, 16-10-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Do discurso do Santo Padre proferido em 4 de outubro de 2023, na abertura do XVI Sínodo ordinário, emergem sentimentos de esperança, mas também de preocupação. O apelo do Papa ao Espírito Santo é sincero, insistente, com referências precisas (não é um parlamento, não é um encontro de amigos) para invocar aquela harmonia divina, origem da fé cristã e da Igreja.

Novo itinerário

No dia 24 de abril de 2021 foi aprovado um novo itinerário sinodal para a XVI Assembleia Geral Ordinária. A finalidade, como recorda o discurso do Papa por ocasião do 50º aniversário da instituição do Sínodo (17 de outubro de 2015), está bem definida: “As diferentes fases do processo sinodal permitirão a escuta real do Povo de Deus (...) não é apenas um evento, mas um processo que envolve em sinergia o povo de Deus, o Colégio episcopal e o Bispo de Roma, cada um segundo a sua função”.

Para além das orações e auspícios, o Sínodo continuou sendo uma convocação de clérigos: cardeais, bispos, sacerdotes, freiras com a presença de um pequeno grupo de leigos e leigas (15%), indicados pelas autoridades eclesiásticas. Seguindo a constituição de Paulo VI (15 de setembro de 1965), o Sínodo é “uma assembleia de Bispos que (...) prestam assistência com os seus conselhos ao Romano Pontífice na salvaguarda e incremento da fé e dos costumes” (CIC cân. 342).

Com a Constituição Apostólica Episcopalis communio de 18 de setembro de 2018, o Papa Francisco aportou estruturas significativas para a celebração sinodal. Foram concluídas as fases diocesanas, nacionais e continentais, acompanhadas pelo Instrumentum laboris, de questionários e de resumos.

No dia 4 de outubro de 2023 foi inaugurada a terceira fase da celebração do Sínodo, que ainda está em curso. A nova abordagem sinodal deve ser elogiada pelo esforço de participação de todos os batizados. Defini-la como plena participação do povo de Deus na vida da Igreja é um exagero. É o início de um processo.

Faltam os conteúdos de como a fé cristã possa ser proposta hoje. Retornarão os “rostos clericais” da teologia e da organização eclesiástica. O esquema básico, mesmo depois do Concílio, está ligado a sínteses anteriores, apenas teologicamente arranhadas pelo Concílio, ainda não traduzidas em realidade. Surge a dúvida fundada de que o Sínodo não possa ser um instrumento adequado para a participação, mesmo que desejada.

Lendo os nomes dos participantes vem a tristeza da reunião de representantes “governamentais” da Igreja: uma espécie de assembleia da ONU, ainda que as intenções sejam completamente diferentes. Os nossos paroquianos, falando do Sínodo, não entendem ou respondem “assunto de vocês”. O método permanece dedutivo: essa é a verdade que tentamos corrigir. O método indutivo consiste em experimentar a comunhão e a participação, para poder corrigir comportamentos e instituições.

Os rostos clericais

Os rostos que se encontrarão (e se enfrentarão) no Sínodo já estão definidos e atuantes, podem ser resumidos:

  • Teológicos

  • Institucionais

  • Pastorais

  • Movimentistas

  • Populares

Não são necessárias muitas palavras para descrevê-los. A tendência teológica apela à “verdade”. As atualizações imóveis há séculos ocorreram em termos nominais, não substanciais. Não se trata de negar as verdades, mas de torná-las autênticas hoje; não se pode simplesmente apelar para sínteses medievais. A criação, a redenção, a sacramentalidade, a graça, o pecado, o mal e a morte não podem ser abordados com conceitos e linguagens incompreensíveis.

A pesquisa teológica (difícil) está bloqueada nos institutos designados; exercícios para poucos ouvintes. A liturgia torna-se estéril, sem nenhuma possibilidade de participação emocional, com o risco de perder a substância dos conteúdos (é curioso e engraçado o debate sobre se, na liturgia, é possível bater palmas). O princípio da ortodoxia tornou-se obsessivo, a ponto de impor (sem resultados) as formas de pensar, rezar, cantar e agir predeterminadas.

A corrente institucional apela à autoridade: necessária, mas também intrusiva, supérflua, muitas vezes pouco humana e questionável. A forma de agir é agressiva e não dialogante. As estruturas eclesiásticas são as mesmas do Concílio de Trento. O clero é ao mesmo tempo mestre, gestor e santificador. Mais frequentemente mestre e gestor, menos santificador (os escândalos econômicos e sexuais são mais destruidores de autoridade do que se possa imaginar).

A pastoral oscila entre regras e misericórdia. As dificuldades são enormes. A religiosidade está encurralada, por deméritos e culturas pós-modernas. A voz do Papa é ouvida quando se enquadra nas preocupações vitais dos povos. A fé não é guia, mas eventualmente confirmação. A vida do espírito é marginal e opcional, a critério exclusivo do indivíduo.

A corrente movimentista atua dentro das suas próprias fronteiras. Traz o bem, mas está fechada para quem não pertence a ela. Produz frutos, sobretudo para as vocações, mas não se ocupa dos não crentes. Núcleos atentos à sobrevivência; nem sempre confiáveis no vasto mundo que se reporta ao “carisma”; um genérico elo entre intuições humanas e o sagrado.

Por fim, a piedade popular: talvez antiga, arcaica, infantil, mas também sincera. Tem raízes sólidas, misturadas com eventos e conteúdos nem sempre teologicamente defensáveis. Apoia-se em emoções que as modernas catequeses não conseguem suscitar.

Expectativas

A expectativa pelos resumos do Sínodo deste ano e pela continuação do próximo 2024 é alta e cheia de esperança. O desejo é uma Igreja que recupere as duas dimensões essenciais de toda fé: o louvor a Deus, a reciprocidade no respeito por si e pelos outros.

Exemplos de amor a Deus são dados pelas orações dos Salmos. Conseguem misturar a natureza, os animais, as pessoas, o povo num coro que reconhece e louva o criador e salvador.

O Pai Nosso (mas também os 10 mandamentos e o Magnificat) reúnem sempre a duplicidade inseparável das dimensões espiritual e fraterna. O resto são detalhes que podem ser deixados aos tempos e aos lugares, sem se preocupar com eles mais do que o necessário. Uma espécie de espoliação que desmantela, ou pelo menos atenua, as preocupações de organizações humanas sempre imperfeitas.

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