Petrini-Giraud: “O segredo? Menos desperdício, mais relações”

Foto: Alexsander | Canva

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19 Mai 2023

Carlo Petrini, Gaël Giraud e Stefano Arduini estão lançando seu livro “Il gusto di cambiare. La transizione ecologica come via per la felicità” [O gosto de mudar. A transição ecológica como caminho para a felicidade], com prefácio do Papa Francisco (Ed. Slow Food-LEV, 176 páginas).

A reportagem é de Gerolamo Fazzini, publicada por Avvenire, 17-05-2023. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

E se houvesse uma “terceira via” para enfrentar a questão ecológica, um problema crucial que interpela hoje (e o fará cada vez mais no futuro) a sociedade, a política, a economia e as religiões? Poderá haver uma alternativa entre os dois extremos opostos a que frequentemente assistimos: o pânico ou o alarmismo – às vezes expressado com violência – por um lado, o não menos culposo business as usual, por outro, praticado por muitos, dos indivíduos às empresas?

Outro caminho é possível, asseguram Carlo Petrini e Gaël Giraud, em seu novo livro, disponível a partir dessa quarta-feira, 17, Il gusto di cambiare [O gosto de mudar]. O primeiro é o renomado fundador do Slow Food e da primeira Universidade de Ciências Gastronômicas do mundo; o segundo é um jesuíta, economista e teólogo, diretor do Centro de Justiça Ambiental da Georgetown University, em Washington.

Divulgação | Livro O gosto de mudar: a transição ecológica como caminho para a felicidade

Isto fica claro desde o título: o livro, como explica o papa no prefácio, tem “um sabor de esperança, de autenticidade, de futuro”. O texto impressiona pela lucidez de pensamento, pela força de argumentação e pela paixão civil. Um debate denso entre Petrini e Giraud, animado pelas perguntas de Stefano Arduini, diretor da revista Vita, que propõe uma radical mudança de perspectiva: as mudanças necessárias para salvaguardar a criação não devem ser interpretadas como uma renúncia moralista, a ser engolida como um remédio amargo, mas têm a ver com a felicidade.

Aqui encontramos uma consonância substancial com intelectuais como, por exemplo, Rebecca Solnit, ambientalista e feminista estadunidense, que recentemente escreveu: “É preciso reinterpretar as mudanças climáticas como uma oportunidade, uma chance para repensarmos quem somos”.

É preciso um pensamento novo – diz Giraud – que hoje luta a ganhar formar dentro das universidades, embora não faltem experiências pioneiras interessantes. Não só isso: como alternativa ao duelo “boomers contra jovens”, Petrini aponta o caminho para uma aliança intergeracional.

“As gerações mais maduras deverão se colocar à disposição dos jovens para lhes transmitir a importância dos bens relacionais. Sociabilidade e convivialidade serão os instrumentos que alimentarão a vontade de um futuro mais justo e mais sustentável inerente a cada jovem.”

Os dois autores relançam com força o axioma de Francisco “menos é mais”, contido na Laudato si’. Menos consumo de coisas significa mais relações, menos desperdício de recursos significa que mais pessoas podem aproveitá-los, menos recurso às energias fósseis significa um bem-estar coletivo maior.

Petrini cita um dado eloquente: “Consumimos [os italianos] 95 quilos de carne per capita. Nos Estados Unidos, chega-se a 130. Na África subsaariana, cinco quilos. Por outro lado, um valor de cerca de 60 quilos é o mais adequado para uma dieta saudável”.

Alguns demais, outros têm pouco demais. Uma das maiores fontes de poluição é justamente a criação intensiva de animais. Nada menos do que 69% da água que usamos se destina a esse fim. Um desperdício que poderia ser resolvido reduzindo pela metade o consumo pessoal de carne, ganhando em saúde e em respeito ao ambiente.

No front financeiro, as mudanças também são necessárias e urgentes. Giraud lembra que são justamente os bancos que estão obstruindo o processo político da transição ecológica: se considerarmos as 11 principais instituições de crédito da Europa, descobriremos que o total de seus investimentos em energias fósseis chega a 530 bilhões de euros, o equivalente a cerca de 95% da soma da capitalização de cada um deles. Na prática, se de repente se optasse por apostar nas energias renováveis e abandonar as fósseis, os maiores bancos europeus fechariam.

No livro, além disso, é interessante notar como dogmas arraigados são postos em questão, como aquele segundo o qual há pessoas demais no mundo em comparação com os recursos disponíveis. Carlo Petrini desmonta essa “certeza” generalizada: “Em nível global, produzimos alimentos para 12 bilhões de seres vivos. Mas os habitantes da terra são 8 bilhões hoje. Resultado? Cerca de 33% dos alimentos são jogados fora. Esses 33% significam milhões de toneladas de alimentos produzidos, estressando hectares e hectares de terras férteis e utilizando bilhões de litros de água. Uma loucura que não cabe nem no céu nem na terra”.

De sua parte, Giraud oferece ao leitor uma avaliação muito interessante sobre a China, no banco dos réus pelo seu tumultuado desenvolvimento econômico e pela sua falta de respeito ambiental. “Na transição ecológica, a China está mais à frente do que nós. É um paradoxo, porque, em nível global, a China é o país onde se concentra a maioria dos investimentos verdes, mas, ao mesmo tempo, está na frente dos rankings de emissões. Mas, quando olhamos para a cota do PIB investida em políticas verdes, a China está na nossa frente”.

É um dado que não pode deixar de questionar as democracias ocidentais e os países economicamente mais avançados, incluindo a Itália.

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