Porque é preciso propor que as armas parem imediatamente. Editorial de Andrea Riccardi

Foto: Pixabay

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

16 Dezembro 2022

"Aqui reside o principal ponto de falta de credibilidade das Igrejas. Se não houver trégua de Natal, será uma derrota do cristianismo, após a qual não se poderá virar para o outro lado, reclamando da irrelevância e da distração das pessoas. Será um impulso para perguntar o que os cristãos devem fazer nesta grande contradição que é a guerra", escreve Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio e ex-ministro italiano, em artigo publicado por Corriere della Sera, 15-12-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Se não houver interrupção nos combates, será uma derrota para o cristianismo. Assim, as igrejas ortodoxas divididas e conflitantes correm o risco de perder sua credibilidade.

O dia de Natal marcará dez meses desde a agressão russa contra a Ucrânia, atingida de forma sistemática e violenta. Sete milhões de ucranianos são refugiados no exterior, quase 16% dos habitantes. Continua sendo um país marcado pela morte e pela dor, com muitas infraestruturas destruídas, além dos edifícios civis. A surpresa, antes de tudo para os russos, foi a resistência ucraniana, que mostrou capacidade de repelir o ataque e recuperar território, também devido ao forte apoio de suprimentos militares e inteligência do Ocidente. Também deve ser dito, no entanto, que um apoio desse tipo, em outros países, não serviu à eficácia militar, como no Afeganistão.

Depois de tantos meses, pergunta-se se não existe o risco de a guerra se tornar eterna, tornando-se um conflito permanente como em vários países do mundo, primeiro entre todos a Síria. Cabe se questionar sobre a visão de futuro que, hoje, parece faltar. A menos que esta seja uma inaceitável vitória da Rússia sobre a Ucrânia. A vazão de paixões, notícias, mensagens cruzadas, propaganda de guerra (tão diferente do passado agora na era das redes sociais) é tão intensa que muito pouco se tem investido em pensar uma visão do amanhã ou até mesmo da diplomacia. Esta deve lidar continuamente com as constantes manifestações de viés propagandístico a que é submetida. Uma negociação parece realmente distante. No entanto, o "cessar-fogo" é uma pausa necessária para olhar para o depois. Condições para tal escolha foram colocadas aqui e ali, e mostram toda a dificuldade.

Restaria uma opção menos exigente, mas não menos significativa: uma trégua de Natal, fundada em razões humanitárias e sobre os iguais princípios cristão-orientais dos povos russo e ucraniano. Não é uma proposta nova. Bento XV propôs uma trégua de Natal em 1914, durante a grande guerra. Houve então episódios significativos de confraternização no front franco-alemão. Foi uma trégua conquistada de baixo, um milagre, como publicava em sua manchete Il Corriere ao relembrar o episódio. Em 1967 houve uma trégua de Natal no conflito do Vietnam (e houve tréguas de fato para a festa budista do Têt). Paulo VI interveio a propósito daquela guerra, pedindo uma trégua que depois pudesse se transformar num cessar-fogo.

Mas, como é óbvio, toda trégua está sujeita à pergunta: quem se beneficia? Depende dos tempos e das tácticas, mas a trégua ajuda sobretudo à afirmação de um interesse comum (e a guerra é o fim de qualquer sentido de comunidade). A trégua é salvar vidas humanas, afirmar algo que transcende a lógica dos combates (o Natal por exemplo), dar alívio às populações e aos combatentes, desfrutar de um momento de paz para olhar para o futuro. Em suma, a trégua é parar, enquanto o trem do conflito segue inexoravelmente, para lembrar o que é a paz. Tem um valor simbólico, mas não lhe escapa o significado político.

Por que essa proposta não se concretizou? Em primeiro lugar, o quadro religioso de referência se desgastou no Leste, embora tantas vezes proclamado, especialmente na Rússia. Parece que as referências cristãs ao Natal têm pouca força diante das lógicas nacionalistas. Não é de hoje, se recordarmos a fraca recepção das mensagens do papado nos dois conflitos mundiais. Isso, porém, deveria nos fazer refletir sobre a impotência do cristianismo diante do mal e nos levar a buscar novos caminhos para afirmar aquela paz que, pelo menos desde o século XX, tornou-se central na mensagem dos papas e relevante na consciência cristã. Assim, o ecumenismo cristão foi pisoteado nas amargas divisões e no isolamento das Igrejas ortodoxas, divididas e conflitantes, mas todas compartilhando o mesmo patrimônio espiritual e litúrgico, e, por séculos, vividas em comunhão, aliás com a mesma origem.

Aqui reside o principal ponto de falta de credibilidade das Igrejas. Se não houver trégua de Natal, será uma derrota do cristianismo, após a qual não se poderá virar para o outro lado, reclamando da irrelevância e da distração das pessoas. Será um impulso para se perguntar o que os cristãos devem fazer nesta grande contradição que é a guerra. Acima de tudo, revelará a derrota da humanidade, que se segue àquela da agressão russa à Ucrânia. Uma humanidade europeia e eslava, que não consegue encontrar razões, semelhanças, energias para sair de uma lógica de guerra, o que provavelmente levará à longa duração do conflito, sem vencidos nem vencedores, com muito derramamento de sangue e muito sofrimento para as populações ucranianas.

O Papa Francisco tem razão na forte definição de guerra em Fratelli tutti: “Toda a guerra deixa o mundo pior do que o encontrou. A guerra é um fracasso da política e da humanidade, uma rendição vergonhosa, uma derrota perante as forças do mal." Se no terreno uma pausa nos confrontos parece bloqueada, a trégua deve, de qualquer forma, ser proposta publicamente com decisão: que cada um assuma a responsabilidade de aceitá-la ou não.

Leia mais