Alemanha. Cardeal Koch responde a Dom Bätzing sobre acusação de nazismo

Cardeal Koch. (Foto: Reprodução | Vatican News)

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03 Outubro 2022

 

O presidente da Conferência Episcopal Alemã, Georg Bätzing, convidou o cardeal suíço Kurt Koch, prefeito do Dicastério para a Promoção da Unidade dos Cristãos, a pedir desculpas públicas depois de feito alusões ao nazismo ao se referir ao Caminho Sinodal.

 

O sítio Il Sismografo, 30-09-2022, publicou o texto da resposta por escrito do cardeal Koch a Dom Bätzing. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis o texto.

 

Na entrevista, foi-me perguntado sobre o fato de que “há presumivelmente novas fontes de revelação”: “O espírito da época e – vou chamá-lo assim – o sentimento obviamente desempenham um papel. Pode-se mudar o ensino da Igreja desse modo?”. Tentei responder também a essa pergunta formulada em um sentido geral. Foi importante para mim lembrar a Declaração Teológica de Barmen nesse contexto, porque eu ainda a considero importante hoje, também por razões ecumênicas. Para tornar o conteúdo compreensível para o leitor, tive que anotar brevemente a que essa declaração respondia. Ao fazê-lo, não comparei de forma alguma o Caminho Sinodal com a mentalidade dos “cristãos alemães” nem quis fazê-lo. Assim como os chamados “cristãos alemães” – graças a Deus – não significavam todos os cristãos alemães, com a minha afirmação eu não tinha em mente todos os membros do Caminho Sinodal, mas apenas aqueles cristãos que representam a afirmação formulada na pergunta. E espero poder continuar considerando que essa afirmação não é a opinião do Caminho Sinodal.

 

Para evitar um possível mal-entendido, que agora, porém, ocorreu apesar de minhas intenções, acrescentei um segundo parágrafo, que reproduzo aqui na íntegra, porque para mim é o mais importante:

 

“A fé cristã deve ser sempre interpretada de modo fiel às suas origens e, ao mesmo tempo, em sintonia com os tempos. A Igreja, portanto, certamente está obrigada a reconhecer os sinais dos tempos e a levá-los a sério. Mas não são novas fontes de revelação. No processo de três etapas do conhecimento fiel – ver, julgar e agir – os sinais dos tempos pertencem ao ver e não ao julgar, ao lado das fontes da revelação. Essa necessária distinção me escapa no texto de orientação do Caminho Sinodal.”

 

Somente nesse contexto é que eu formulei uma crítica ao texto de orientação, mas não critiquei de forma alguma o Caminho Sinodal com uma comparação nazista. Quando o bispo Bätzing afirmou na coletiva de imprensa que os sinais dos tempos são “fontes de conhecimento para o desenvolvimento da doutrina”, então posso certamente concordar com ele. Mas as fontes de conhecimento são outra coisa que “fontes de revelação” – além do fato de que eu considero esse termo em si mesmo muito problemático. Então surge imediatamente a outra questão sobre quais “sinais dos tempos” são assumidos como fontes de conhecimento e com qual interesse.

 

A esse propósito, percebo questões em aberto no texto de orientação e em outros textos do Caminho Sinodal. E, nesse sentido, não estou sozinho. Qualquer pessoa que ler o segundo caderno do jornal Tagespost, por exemplo, notará que perguntas semelhantes são feitas ao texto de orientação por um estudioso do Antigo Testamento, um dogmático, um teólogo prático e um filósofo, todos professores universitários de mérito. Portanto, meu comentário crítico não pode ser simplesmente a expressão de uma teologia completamente equivocada.

 

Não era absolutamente minha intenção ferir alguém. Simplesmente pensei que ainda hoje podemos aprender com a história, também muito difícil. Como demonstra a forte reação do bispo Bätzing e de outros, devo me dar conta retrospectivamente de que fracassei nessa tentativa. E devo constatar que as recordações de fenômenos e acontecimentos da era nacional-socialista são obviamente um tabu na Alemanha. A quem se sente ferido por mim, peço desculpas e asseguro que não foi e não é a minha intenção fazê-lo.

 

No entanto, não posso retirar a minha pergunta crítica. Não a levantei por “puro medo de que algo se mova” nem com a intenção de “deslegitimar”, como o bispo Bätzing me acusa, mas pela preocupação teológica com o futuro da Igreja na Alemanha. Por trás da minha pergunta, está a questão bem mais fundamental do que se entende por “revelação”.

 

Não vejo essa questão suficientemente esclarecida nos textos do Caminho Sinodal. Agradeceria se essa importante questão fosse submetida a maiores esclarecimentos teológicos.

 

Roma, 29 de setembro de 2022.

 

Kurt Cardeal Koch.

 

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