Caminhos de evangelização

Foto: Pixabay

Mais Lidos

  • Conhecer Jesus. Artigo de Eduardo Hoornaert

    LER MAIS
  • Freira de 82 anos é morta em convento brasileiro

    LER MAIS
  • Para o pesquisador e membro do coletivo Aceleracionismo Amazônico, é necessário repensar radicalmente as possibilidades políticas tributárias de um paradigma prenhe de vícios modernos

    Pensar de modo abolicionista produz uma ética da generosidade. Entrevista especial com Bräulio Marques Rodrigues

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

23 Abril 2021

 

"Este livro do teólogo José Antônio Pagola está destinado a fazer enorme bem para paróquias e comunidades ajudando-as a pôr em marcha de modo humilde, mas responsável, um processo de renovação. A sabedoria bíblica e cristã do autor, a fineza de suas análises e valiosas indicações pastorais tornam essa obra indispensável para se perceber como é possível na esteira das propostas do Papa Francisco promover uma nova etapa de evangelização", escreve Eliseu Wisniewski, presbítero da Congregação da Missão (padres vicentinos) Província do Sul, mestre e doutorando em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).

 

Eis o artigo.

 

A obra Caminhos de evangelização (Vozes, 2020, 216 p.), de autoria do teólogo espanhol José Antônio Pagola faz parte de um projeto para dinamizar as paróquias e as comunidades cristãs, respondendo ao chamado do Papa Francisco, que nos convida a promover uma nova etapa evangelizadora.

Pagola estruturou este trabalho em duas partes. Na primeira parte: Atitudes para evangelizar hoje (p. 13-97), expõe cinco atitudes ou linhas de ação fundamentais para evangelizar nos tempos atuais. Na segunda parte – Ir às periferias existenciais (p. 99-206), ouvindo o chamado do Papa Francisco para “irmos às periferias existenciais”, indica cinco áreas específicas de ação evangelizadora.

A primeira parte é composta de cinco (05) capítulos:

1) Sugerir a pergunta a respeito de Deus (p. 15-27), o autor não pretende descrever a crise religiosa pela qual estamos passando, em meio a uma sociedade maciçamente secularizada mas, quer ajudar os evangelizadores para que neste tempo de niilismo e ausência de Deus, não esqueçamos que, no horizonte do nosso ato evangelizador, deve estar presente uma tarefa humilde, mas urgente: fazer a pergunta sobre Deus. Não vivemos tempos de propor certezas dogmáticas, e sim de acompanhar os homens e mulheres de hoje a se questionarem com sinceridade sobre o sentido de suas vidas. Pagola faz notar que não são poucos os que, sem saber estão à procura de Deus precisam encontrar um novo sentido para sua vida (p. 15-22), uma fonte para agir de maneira responsável e uma última esperança para enfrentar o mistério da vida e da morte (p. 22-27).

2) Encorajados pelo espírito evangelizador de Jesus (p. 28-46), propõe algumas reflexões e sugestões para reavivar o espírito evangelizador de Jesus em nós. Vivemos tempos em que precisamos aprender a evangelizar como testemunhas de Jesus Cristo, encorajados por seu espírito e sua paixão pelo projeto do Reino de Deus. Jesus Cristo é o ponto de partida de nossa ação evangelizadora (p. 28-31). Isso obriga-nos a promover uma mudança decisiva na nossa ação evangelizadora (p. 31-34). Somente desta forma será possível evangelizar como Jesus se espalharmos a Boa-Nova de Deus (p. 34-39). O autor conclui este capítulo lembrando que só é possível evangelizar com base em Jesus se colaborarmos com Ele na abertura de caminhos para o Reino de Deus: não separando Deus de seu projeto de reino; vendo a evangelização em Deus como uma força de transformação; evangelizar defendendo e curando a vida, colocando a compaixão no centro das comunidades de Jesus, acolhendo, escutando e acompanhando (p. 39-46).

3) Agir com base na misericórdia de Deus (p. 47-69), mostra que Jesus recebe e vive a realidade de Deus como mistério incompreensível de misericórdia (p. 48-51). Em seguida, Pagola expõe como a misericórdia do Pai aparece encarnada na vida de Jesus, radicalmente voltada para aqueles que mais necessitam de compaixão, na sua entrega prioritária aos sofredores e na sua acolhida incondicional aos pecadores mais desprezados (p. 51-59). Por isso, se faz necessário, ouvirmos a grande herança de Jesus: “Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso” (p. 59-60). O autor termina as reflexões deste capítulo aprofundando a dinâmica da misericórdia e, apresenta algumas sugestões para caminharmos em direção a uma Igreja samaritana e trabalharmos por uma cultura mais fundamentada na misericórdia: o olhar compassivo, a proximidade daqueles que sofrem, o compromisso com os gestos (p. 60-69).

4) Despertar a esperança em nosso coração (p. 70-89), traçando um perfil da esperança (p. 71-73), ao autor, sugere aos seguidores de Jesus maneiras de acolher, ouvir e acompanhar as pessoas que são dominadas pela tristeza, pela angústia, pelo medo, pela solidão, pela humilhação, pelo desamparo ou insegurança, sem forças para continuar esperando por algo e alguém (p. 73-77). Pagola salienta que não podemos continuar anunciando a “esperança no céu” ignorando aqueles que estão perdendo até mesmo a “esperança na terra”. Daí a tarefa de recuperar a esperança, a atenção para as atitudes geradoras de esperança e a transmissão de sinais de esperança (p. 77-89).

5) A oração evangelizadora (p. 90-97), neste capítulo o autor descreve a oração como uma experiência-chave para despertar, encorajar e enriquecer a nossa ação evangelizadora. A oração é a experiência decisiva para alimentar nosso trabalho apaixonado pelo Reino de Deus. Para isso, exige-se a experiência da bondade de Deus, o amor ao homem e à mulher de hoje, a aproximação dos descrentes, o serviço aos pobres, a audácia para evangelizar, a aceitação da cruz, e a comunicação da esperança (p. 90-97).

A segunda parte também está composta por cinco (05) capítulos:

6) Acolher e ouvir os afastados (p. 101-119), a pretensão do autor neste capítulo não é descrever os motivos pelos quais a sociedade tem se mostrado cada vez mais indiferente pela Igreja, em analisar as várias formas de descrença, suas raízes e consequências, mas estudar o fenômeno dos “que voltam”, buscando reencontrar sua de uma forma nova: um fato ainda modesto que precisa ser questionado e pode nos ensinar muito sobre a ação evangelizadora da Igreja em meio à atual crise religiosa. Pagola esclarece caminhos e sugere possíveis respostas: quem são os que se afastaram/as diferentes gerações de afastados? Por que se afastaram? Do que se afastaram? Por que alguns voltam? O que procuram? (p. 102-114). Termina esse capítulo elencando algumas conclusões que ajudam a definir uma resposta adequada: a necessidade de uma atenção específica; acompanhamento em sua busca espiritual; reconstruir o relacionamento com a Igreja (p.115-118). Sugere, por isso, o autor, uma iniciativa pastoral concreta: os grupos de buscadores (p. 118-119).

7) O compromisso cristão com os pobres (p. 120-141), em primeiro lugar, o autor, busca dar uma ideia clara o suficiente sobre como a pobreza está ocorrendo na sociedade atual-, somente assim podemos tomar consciência da dolorosa situação dos pobres que vivem junto a nós (p. 121-1216). Em segundo lugar, Pagola recorda algumas afirmações básicas da fé cristã com respeito aos pobres e necessitados: crer em Deus significa trabalhar pelos pobres; o pobre é a memória viva de Jesus (p. 126-129). Em seguida aponta algumas atitudes que devem ser tomadas – como lembrança do posicionamento diante deles (p. 129-131). Este capítulo é finalizado com a indicação que podem nos ajudar a concretizar nosso compromisso nos moldes de um voluntariado social com inspiração cristã: conscientização; decisão inspirada no seguimento de Jesus; a entrega do tempo livre; trabalho em equipe; continuidade na prestação dos serviços/caráter permanente; serviço gratuito; vida solidária e formação adequada (p. 136-141).

8) Introduzir o Evangelho na prisão (p. 142-169), inicialmente Pagola apresenta neste capítulo uma visão simples (não em nível sociológico), que nos permita entender melhor a realidade da prisão e o perfil das pessoas que estão presas penitenciárias (p. 143-145). Num segundo momento, o autor, aponta alguns fatos que estão na origem da maioria dos problemas observados nas prisões (p. 145-146). Em seguida, recorda-se brevemente a concepção cristã de reconciliação, resumida por Paulo em 2Cor 5,18-20: “Deus estava em Cristo reconciliado consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões”. Toda reflexão cristã sobre a reconciliação deve ter como ponto de partida essas palavras paulinas (p. 146-154). Com base nisso, Pagola sugere desenvolver a Pastoral Carcerária como uma ação de acolhida que convide o preso a se reconciliar com Deus, uma pastoral de acompanhamento que o ajude a ser reconciliar consigo mesmo, uma pastoral de conscientização social (p. 154-161). Conclui expondo os principais objetivos da ação evangelizadora a serviço dos presos: sensibilização da sociedade, ajuda ao preso e defesa de seus direitos, atenção à família do preso, assistência após a soltura (p. 161-169).

9) Levar a Boa-nova aos enfermos psíquicos (p. 170-188), o autor propõe inicialmente a atuação de Jesus com os “possuídos por espíritos malignos” de seu tempo (relato do enfermo de Gerasa- Mc 5,1-20; Mt 8,2-28; Lc 8,22-69), como modelo que pode inspirar a atuação evangelizadora no mundo dos enfermos psíquicos de hoje (p. 171-177) . Em seguida sugere algumas linhas básicas de ação: abordagem curadora e realista dos enfermos psíquicos; recepção marcada pela “benção de Deus”; defesa da pessoa e dos direitos do enfermo psíquico; colaboração para sua integração social; atenção religiosa personalizada; apoio às famílias dos enfermos (p. 177-188).

10) Por uma sociedade livre de homofobia, um desafio para os cristãos (p. 189-206), neste capítulo dividido em duas partes – Pagola - primeiramente apresenta alguns pontos fundamentais, tratando do princípio–misericórdia, que inspirou e motivou toda a ação profética de Jesus e deixou como herança para seus seguidores e toda a humanidade: “Sede misericordioso como vosso Pai é misericordioso” . No segundo momento, o autor, mostra como o princípio-misericórdia pode nos ajudar a dar passos concretos e direção de uma sociedade livre da homofobia, em que a comunidade homossexual possa viver de maneira mais digna, justa e feliz em meio a uma maioria heterossexual: promovendo os ensinamentos da Igreja sobre a homossexualidade, incluindo um olhar mais humano e justo da experiência homossexual nos seguidores de Jesus, promovendo uma acolhida evangélica inspirada em Jesus nas paróquias e comunidade cristãs (p. 189-206).

Perspectivas de futuro...

Este livro está destinado a fazer enorme bem para paróquias e comunidades ajudando-as a pôr em marcha de modo humilde, mas responsável, um processo de renovação. A sabedoria bíblica e cristã do autor, a fineza de suas análises e valiosas indicações pastorais tornam essa obra indispensável para se perceber como é possível na esteira das propostas do Papa Francisco promover uma nova etapa de evangelização. Esse é o momento de nos mobilizarmos, unir esforços e impulsionar a conversão pastoral a Jesus e a seu Evangelho.

 

Leia mais