“Os cristãos do Iraque esperam pela visita de Francisco como uma lufada de oxigênio”. Artigo de Andrea Tornielli

Foto: Vatican News

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

03 Março 2021

“[No Iraque] o Papa quer reconstruir um tecido social para além das facções e etnias”, escreve Andrea Tornielli, jornalista, diretor do Dicastério para a Comunicação do Vaticano, em artigo publicado por Religión Digital, 02-03-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis o artigo.

 

Os cristãos iraquianos passaram vinte e dois anos esperando o Papa. Foi em 1999 quando João Paulo II programou uma breve mas significativa peregrinação a Ur dos Caldeus, primeira etapa do caminho jubilar aos lugares da salvação. Queria partir desde Abraão, do pai comum reconhecido por judeus, cristãos e muçulmanos.

Muitos desaconselharam o pontífice polonês idoso, pedindo-lhe que não realizasse a viagem, pois poderia correr o risco de reforçar ainda mais Saddam Hussein no poder depois da primeira Guerra do Golfo. O Papa Wojtyla seguiu adiante por seu caminho, apesar das tentativas de dissuadi-lo, realizadas particularmente pelos Estados Unidos. Porém, no fim, a viagem relâmpago, de caráter religioso, não foi feita por contrariedade do presidente iraquiano.

Em 1999 o país já estava de joelhos pela sangrenta guerra contra o Irã (1980-1988) e pelas sanções internacionais que seguiram à invasão do Kuwait e à primeira Guerra do Golfo. O número de cristãos no Iraque era então mais de três vezes superior ao atual.

A viagem falha do Papa João Paulo II permaneceu como uma ferida aberta. O Papa Wojtyla levantou sua voz contra a segunda expedição militar ocidental no país, a guerra relâmpago de 2003, que se concluiu com a queda do governo de Saddam.

No Ângelus de 16 de março disse: “quis recordar aos países membros das Nações Unidas, e em particular os que compõem o Conselho de Segurança, que o uso da força representa o último recurso, após ter esgotado todas as demais soluções pacíficas, segundo os conhecidos princípios da própria Carta da ONU”.

Depois, no pós-Ângelus, suplicou: “pertenço a essa geração que viveu a Segunda Guerra Mundial e sobreviveu. Tenho o dever de dizer a todos os jovens, aos mais jovens que eu, que não tiveram esta experiência: ‘Nunca mais a guerra!’, como disse Paulo VI em sua primeira visita às Nações Unidas. Devemos fazer todo o possível”.

Não foi escutado por esses “jovens” que fizeram a guerra e foram incapazes de construir a paz. O Iraque foi golpeado pelo terrorismo, com atentados, bombas, devastações. O tecido social se desintegra. E em 2014 o país viu a ascensão do autodenominado Estado Islâmico, proclamado por ISIS.

Mais devastação, perseguição, violência, com potências regionais e internacionais empenhadas em lutar em solo iraquiano, com a multiplicação das milícias fora de controle. A população indefesa, dividida por pertencimentos étnicos e religiosos, está pagando o preço, com um alto custo de vidas humanas.

Vendo a situação iraquiana, alguém toca com a mão a concretude e o realismo das palavras que Francisco quis esculpir em sua última encíclica “Fratelli Tutti”.

Durante esses anos, centenas de milhares de cristãos se viram obrigados a abandonar seus lares para buscar refúgio no estrangeiro. Em uma terra de primeira evangelização, cuja Igreja muito antiga tem origens que se remontam à pregação apostólica, hoje os cristãos esperam a visita de Francisco como uma lufada de oxigênio. Desde muito tempo, o Papa havia anunciado sua vontade de ir ao Iraque para consolá-los, seguindo a única “geopolítica” que o move, isso é, a de manifestar a proximidade aos que sofrem e a de favorecer, com sua presença, processos de reconciliação, reconstrução e paz.


Mapa do Iraque, em destaque as localidades que serão visitadas pelo Papa Francisco. Fonte: Universidade do Texas

Por esta razão, apesar dos riscos relacionados com a pandemia e a segurança, apesar dos recentes atentados, Francisco manteve esse compromisso em sua agenda até agora, decidido a não decepcionar todos os iraquianos que o esperam. O coração da primeira viagem internacional depois de quinze meses de bloqueio forçado pelas consequências da covid-19, será em Ur, na cidade que o patriarca Abraão partiu. Uma ocasião para rezar junto aos crentes de outras confissões religiosas, em particular os muçulmanos, para redescobrir as razões da convivência entre irmãos, a fim de reconstruir um tecido social mais além das fações e das etnias, e para lançar uma mensagem ao Oriente Médio e ao mundo inteiro.

 

Leia mais