Católicos alemães fazem tentativa confusa de permitir a comunhão aos protestantes

Comunhão. | Foto: Pixabay

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18 Julho 2018

Quem é protestante e casado com um católico na Alemanha pode receber a comunhão com o cônjuge na Igreja Católica. Ou então pode não ser acolhido para fazê-lo ou não ter certeza.

Esta situação confusa, criada por uma alteração proposta à tradição de que a eucaristia católica poderia ser recebida "apenas por católicos", deixa o catolicismo alemão entre a vontade da maioria de flexibilizar as regras e os limites de mudança na maior Igreja do mundo.

A reportagem é de Tom Heneghan, publicada por Religion News Service, 14-07-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Em fevereiro, os bispos católicos alemães aprovaram o projeto de orientações para sacerdotes sobre quando podem distribuir a comunhão católica aos protestantes na missa, sinalizando uma nova abertura. Mas as diretrizes imediatamente provocaram conflito entre reformadores e conservadores e mudanças surpreendentes no Vaticano.

Desde então, algumas dioceses têm refletido a nova posição de intercomunhão nos sites oficiais. Outras igrejas raramente publicam qualquer referência a isso. No entanto, um debate toma conta da Igreja Católica do país, agravado por sinais contraditórios do Vaticano.

A questão da intercomunhão, que não acontece com muita frequência em outros países, é recorrente na Alemanha. Os cristãos do país dividem-se de forma praticamente uniforme entre católicos e protestantes (na maioria luteranos), e muitos casamentos atravessam fronteiras denominacionais.

Por isso, muitos protestantes alemães já receberam a comunhão com seus cônjuges católicos, muitas vezes com o consentimento do pároco. Eles recebem a comunhão de forma discreta, porque o Vaticano parecia se opor e porque muitos líderes da Igreja temem que permitir exceções individuais de forma oficial pode levar inevitavelmente a uma mudança doutrinal completa.

"Aparentemente, princípios ecumênicos do catolicismo e sua compreensão abrangente da Igreja... continuam sendo estranhos para algumas pessoas 50 anos após o Concílio Vaticano II", queixou-se o bispo Gerhard Feige, delegado de Conferência Episcopal para as Relações Ecumênicas e co-autor das orientações.

O Papa Francisco adotou uma abordagem mais flexível à interpretação da lei canônica em comparação a seus antecessores conservadores e priorizou melhores relações com outros cristãos.

Por acreditar que era a hora certa de resolver o problema, a Conferência Episcopal Alemã - liderada pelo cardeal de Munique Reinhard Marx, que também é conselheiro papal - elaborou um "guia pastoral" de 38 páginas para ajudar os sacerdotes a levar os casais mistos a uma solução.

O cônjuge protestante deve compartilhar o entendimento católico da presença real de Jesus Cristo na Eucaristia - crença à qual a doutrina Luterana está próxima - e estar em “perigo espiritual grave" de serem excluídos, afirmou.

Grande parte dos bispos presentes - 47 de 60 - votou em fevereiro para publicar o documento, intitulado “Walking with Christ - Tracing Unity” (Caminhando com Cristo: no caminho da unidade), num futuro próximo.

Um mês depois, sete bispos dissidentes liderados pelo cardeal de Colônia Rainer Maria Woelki pediram para o Vaticano determinar se as diretrizes violaram a doutrina católica e a unidade da igreja em nível mundial.

Em uma carta “confidencial” do dia 10 de abril, funcionários do Vaticano pediram aos alemães para não divulgar o documento, pelo menos naquele momento. Pediam que Marx, Woelki e quatro outros bispos fossem a Roma para uma reunião a portas fechadas com autoridades em assuntos doutrinais e ecumênicos.

Os funcionários disseram, no dia 3 de maio, que o Papa pensava que o documento "não estava pronto para publicação" e queria que eles "chegassem a um consenso o mais unânime possível".

No final de maio, o Vaticano reiterou as dúvidas do Papa sobre a publicação do documento em uma carta pessoal para Marx, que vazou para a mídia católica conservadora antes de chegar às mãos do cardeal. De repente, Roma parecia estar se afastando das mudanças.

Seguiu-se um debate acalorado com sugestões de divisões no seio da conferência episcopal e entre a Alemanha e Roma. "Muitas pessoas estão muito decepcionadas, e o estrago causado é inestimável. Velhas feridas foram reabertas, espalhando amargura e mágoa", escreveu Feige.

Citando "uma guerra civil encoberta" entre reformistas e conservadores, Marco Politi, ítalo-alemão que é um experiente observador de assuntos do Vaticano, disse ao jornal Die Zeit, de Hamburgo: "A Conferência Episcopal Alemã pode ter uma maioria progressista, mas a Igreja mundial não".

A Igreja Mundial e a Cúria, disse, estão "colocando freio" na situação.

Francisco finalmente falou sobre o assunto em público no dia 21 de junho, em seu voo de volta a Roma depois de um dia destacando o ecumenismo no Conselho Mundial de Igrejas, em Genebra.

"Talvez não tenha sido a informação certa no momento certo. Havia uma certa confusão”, admitiu aos jornalistas.

O direito canônico católico sempre permitiu a intercomunhão em casos excepcionais, observou, e os bispos têm o poder de decidir se não católicos podem receber a comunhão na sua diocese ou não.

O problema é que os alemães queriam publicar o documento em nome da Conferência dos Bispos da Alemanha, um procedimento que o código não permite. “Por quê? Porque algo aprovado pela Conferência Episcopal imediatamente se torna universal”, disse Francisco.

Com essa explicação, os bispos alemães reuniram-se novamente no final de junho e decidiram publicar as diretrizes como um texto não oficial para ajudar os bispos diocesanos a lidar com a questão.

"Houve muita confusão", disse Marx. "Não é um convite geral à comunhão. É uma ajuda a casais interdenominacionais a pensarem melhor sobre sua fé e sua vida, para que possam decidir de forma responsável".

Podendo decidir como lidar com essas questões, alguns bispos acolheram calorosamente as novas orientações. "Famílias e casais interdenominacionais são tão caros para nós quanto o ecumenismo", disse o arcebispo de Paderborn Hans-Josef Becker.

Em Münster, nas proximidades, a diocese decidiu esperar até o outono para decidir.

O arcebispo de Bamberg, Ludwig Schick, um dos sete bispos que se queixaram ao Vaticano, disse sua diocese seguiria as orientações, mas deu a entender que iria interpretá-las de forma estrita.

Enquanto isso, igrejas protestantes da Alemanha - que em sua maioria permitem a comunhão para todos os cristãos - têm mantido um silêncio discreto sobre o conflito católico, que foi uma surpresa depois de o ecumenismo parecer alcançar novos níveis durante os eventos de 500 anos da Reforma de Martinho Lutero que aconteceram no ano passado.

O bispo Heinrich Bedford-Strohm, líder da igreja evangélica na Alemanha (EKD), salientou que Francisco declarou que as orientações alemãs não eram "um freio" para a cooperação entre os cristãos.

"Felizmente, a previsão de alguns do último suspiro do progresso ecumênico acabou sendo prematuro", destacou.

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