O papa, a prêmio Nobel e o general. Convidados indesejados: os Rohingya

Discurso de Aung San Suu Kyi na presença do papa Francisco | Foto: Reprodução do Twitter de Antonio Spadaro

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

30 Novembro 2017

Rohingya. Enfim, Bergoglio não pronuncia a palavra proibida. Ou, pelo menos, não a pronuncia no público.

Em seu segundo dia na Birmânia o Papa Francisco, que se reuniu no dia anterior durante apenas 15 minutos com o general mais antigo e de maior patente do país, foi recebido pela Nobel da Paz Aung San Suu Kyi por 45 minutos. Uma entrevista privada e, com toda probabilidade, sem tanta cerimônia, em que o pontífice deve ter feito referência ao drama da comunidade rohingya para a qual, no passado, já proferiu fortes palavras, da janela de seu gabinete com vista para a Praça de São Pedro.

A reportagem é de Emanuele Giordana, publicada por Il Manifesto, 29-11-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

O homem que chamou os rohingyas de "irmãos e irmãs" e que, diziam na época fontes confidenciais, já tinha confrontado sobre o tema a Prêmio Nobel, por ocasião da sua visita a Roma no verão passado (quando o Vaticano e Mianmar retomaram relações diplomáticas), em seu discurso público destacou alguns pontos importantes, também reiterados no encontro com os líderes religiosos. O papa desejou a construção de uma "ordem social justa, reconciliada e inclusiva" e lembrou (já são agora poucos a fazer isso) a importância do papel da ONU.

Mas principalmente, disse: "O futuro de Mianmar deve ser a paz, uma paz fundada no respeito pela dignidade e direitos de cada membro da sociedade, no respeito a cada grupo étnico e sua identidade, no respeito pelo estado de direito e uma ordem democrática que permita a cada indivíduo e cada grupo - sem exceção - oferecer a sua legítima contribuição para o bem comum".

O discurso é claro, especialmente naquele detalhe “sem exceção” que equivale, ainda que em linguagem diplomática, a pronunciar a palavra "rohingya".

"As diferenças religiosas - acrescentou o Papa - não devem ser fonte de divisão e desconfiança, mas sim uma força para a unidade, para o perdão e para a tolerância". É um conceito que o Papa Francisco retomou também com representantes das várias comunidades religiosas a quem falou de um "coro das diferenças", onde a diversidade torna-se uma riqueza. No grupo havia também três líderes muçulmanos.

Em seu discurso público Aung San Suu Kyi manteve-se, ao contrário, nos tons formais e agradeceu ao Santo Padre por sua visita e pelo convite para prosseguir com a construção de uma nova sociedade. Nenhuma menção ao drama dos rohingyas, apenas uma breve digressão em que apareceu o termo Rakhine (o Estado de onde os rohingyas foram expulsos). Nada mais.

Permanece um pequeno mistério a mudança de programa que inicialmente previa para 30 de novembro a reunião com o poderoso general Min Aung Hlaing, o homem forte do Exército. Talvez Francisco tenha preferido evitar a pompa de um encontro demasiado oficial e optado por um breve encontro privado, talvez para evitar dar muito destaque para o general. Uma atenção ao contrário reservada, com todos os protocolos cerimoniais, tanto ao presidente Htin Kyaw como para a sua premiê de facto, Aung Sann Suu Kyi. O general também não recebeu qualquer destaque público, mas foi apenas uma espécie de etapa obrigada pela etiqueta. O pontífice não lhe concedeu nada mais do que a obrigação de respeitá-la.

A viagem ao Mianmar chegou ao fim e, antes da sua continuação para o Bangladesh, incluiu uma reunião com os líderes da Sangha, o "Vaticano" dos monges birmaneses, e com o Comitê dos monges que interagem com o governo e que regem as relações entre leigos e o clero. É fácil imaginar que, inclusive com eles, o Papa irá reiterar sua mensagem de unidade para além do credo religioso. Uma maneira de lembrar os rohingyas, mas também a pequena comunidade católica de apenas 700 mil almas.

Depois será a vez da viagem para Bangladesh, onde está agora praticamente confirmado que Francisco vai se reunir com um grupo de rohingya. Descartada a visita do Papa a Cox’s Bazar, onde uma massa de mais de 600 mil refugiados vive em condições de miséria. A delegação dos rohingyas provavelmente o encontrará em Dhaka, em uma data que poderia ser 1º. de dezembro. Faltarão 24 dias para o Natal, o dia mais importante para um católico e também o período em que em Bangladesh as pessoas visitam em férias justamente Cox’s Bazar, conhecida por ter a maior praia do mundo. E, agora, por ser um inferno.

Leia mais