A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo João 10,1-10 que corresponde ao 4° Domingo de Páscoa, ciclo A do Ano Litúrgico. O comentário é elaborado por Ana Maria Casarotti, Missionária de Cristo Ressuscitado.
Naquele tempo, disse Jesus: "Em verdade, em verdade vos digo, quem não entra no redil das ovelhas pela porta, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante. Quem entra pela porta é o pastor das ovelhas. A esse o porteiro abre, e as ovelhas escutam a sua voz; ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora. E, depois de fazer sair todas as que são suas, caminha à sua frente, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz. Mas não seguem um estranho, antes fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos". Jesus contou-lhes esta parábola, mas eles não entenderam o que ele queria dizer. Então Jesus continuou: "Em verdade, em verdade vos digo, eu sou a porta das ovelhas. Todos aqueles que vieram antes de mim são ladrões e assaltantes, mas as ovelhas não os escutaram. Eu sou a porta. Quem entrar por mim, será salvo; entrará e sairá e encontrará pastagem. O ladrão só vem para roubar, matar e destruir. Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.
Estamos no quarto domingo da Páscoa e a liturgia nos convida a meditar sobre o início do capítulo 10 do Evangelho de João. Entre o grupo que escuta Jesus estão os fariseus, que não entenderam o que ele queria dizer, o que leva Jesus a explicar com mais clareza sua mensagem, ressaltando que veio para que tenham vida e e a tenham em abundância.
Destacamos algumas imagens ou figuras que aparecem no texto: a porta, o pastor em contraposição ao ladrão e as ovelhas. E alguns verbos significativos: entrar e sair, chamar-ouvir-seguir e roubar-matar-destruir.
O ensinamento se abre descrevendo a atitude daquele que não entra pela porta no curral das ovelhas: é um ladrão e um assaltante que escala por outro lado, procura outra maneira de chegar ao curral para se apropriar dele e levá-lo consigo. A frase de Jesus é clara e não deixa margem para dúvidas: é preciso entrar pela porta! Todos nós já passamos pela experiência de tentar entrar por outro lado por diferentes motivos: encurtar o caminho, tirar proveito de algo, evitar alguma situação incômoda, causar surpresa; e também já vivemos a experiência de quem não entrou pela porta e o problema que isso trouxe: seja roubo, seja incômodo, surpresa ou desconforto. Experiências que se repetem em mil formas, cada uma com sua intensidade emocional, cada uma abrindo um mapa de memórias e sentimentos.
Na Antiguidade as cidades eram muradas e as portas funcionavam como pontos estratégicos de defesa e controle. Eram espaços de convergência: nelas se realizavam atividades comerciais, decisões jurídicas e encontros sociais, tornando-se elementos fundamentais para compreender a dinâmica da vida urbana.
Serviam para a defesa física, pois, para dominar a cidade, era fundamental ter o controle do portão, que abria ou fechava o acesso às pessoas. Ter o controle do portão era ter o domínio da cidade. Por ser o ponto de entrada obrigatório, as transações de mercadorias que vinham do campo ou de outras regiões eram realizadas por meio delas — era o ponto de acesso — e os mercados se instalavam ali. Por isso, a porta da cidade também era considerada o ponto de controle fiscal, e os coletores de impostos se instalavam nas proximidades para cobrar os tributos.
Na porta da cidade também se reuniam os anciãos e juízes para resolver disputas e proferir sentenças; era como o tribunal oficial da época. Lá também eram anunciadas as notícias importantes, proclamadas as mensagens públicas; por ali passava toda a informação que se desejava divulgar à cidade.
Jesus continua dizendo:
Quem entra pela porta é o pastor das ovelhas. A esse o porteiro abre, e as ovelhas escutam a sua voz; ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora.
Na muralha norte de Jerusalém, perto do tanque de Betesda, ficava a “Porta das Ovelhas”. Por ela passavam as ovelhas destinadas aos sacrifícios do templo. Para os judeus, era o acesso ao recinto sagrado, pois as ovelhas eram parte essencial do culto.
As ovelhas não entravam sozinhas, mas eram acompanhadas por um pastor que previamente as cuidou, as preparou e agora as conduz por essa porta destinada especialmente a elas. O porteiro conhece esse pastor e abre a porta para que elas entrem. Elas seguem seu pastor, que as chama uma a uma! Esse pastor não tem medo daqueles que estão na porta, controlando, buscando lucros. Ele conhece e ama suas ovelhas, que o seguem porque reconhecem sua voz.
Jesus dirá que as ovelhas: “não seguem um estranho, antes fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos".
Entre o pastor e as ovelhas foi-se construindo uma relação de confiança, na qual se reconhecem mutuamente. Por isso, as ovelhas seguem o seu pastor, que as faz entrar pela porta verdadeira, por onde podem entrar e sair, e, como dirá Jesus mais adiante: encontrarão pastagem, terão alimento e vida em abundância. Essas ovelhas não seguirão um estranho; não reconhecem o tom de sua voz, mas, pelo contrário, afastam-se dele.
“Jesus contou-lhes esta parábola, mas eles não entenderam o que ele queria dizer. Então Jesus continuou: "Em verdade, em verdade vos digo, eu sou a porta das ovelhas”.
Jesus percebe que sua mensagem não está sendo compreendida. Por meio de sua parábola, ele tentou mostrar a necessidade de entrar pela porta verdadeira, de ser um pastor que estabeleça um relacionamento com cada uma de suas ovelhas para que elas confiem nele e o sigam, mas eles não entenderam! Então, ele declara abertamente: “Eu sou a porta das ovelhas!”
Jesus apresenta-se como a Porta. Essa imagem significa que quem decide atravessá-la permite que toda a sua vida passe por Ele, sem procurar atalhos nem tentar subir por outro lado. Nessa passagem, encontra uma nova existência: liberdade para entrar e sair. Não precisa procurar outros caminhos, pois em Jesus encontra liberdade de movimento e plenitude: sempre encontrará alimento e proteção.
No início deste ano o Papa presidiu o rito do Fechamento da Porta Santa na Basílica de São Pedro, com o qual se encerrou o Jubileu da Misericórdia inaugurado por Francisco. Destacamos suas palavras: “Esta porta Santa viu passar inúmeros homens e mulheres, peregrinos da esperança, a caminho da Cidade das portas sempre abertas, a nova Jerusalém. Quem eram eles e o que os movia? ”. “Interpela-nos com particular seriedade, ao término do Ano jubilar, a busca espiritual de nossos contemporâneos, muito mais rica do que talvez possamos compreender. Milhões deles atravessaram o limiar da Igreja. O que encontraram? Que corações, que atenção, que reciprocidade? O gesto de Leão XIV de "bater a porta" no encerramento do Jubileu: "Há vida em nossa Igreja?"
Qualquer segundo é uma porta
para entrar em teu tempo.
Todo centímetro é uma terra
que leva teu rastro.
Cada cor e cada aroma
me fazem sentir tua fantasia
jogando para o infinito.
Em cada olhar aparece
a intimidade de teu mistério.
Todo golpe de foice
cai sobre a terra
com certeza de colheita.
Cada canto verdadeiro
traz até meu coração
o rumor da festa
que já começou eterna
ao final de meu caminho
Senhor, não podes perder-te
em uma clandestinidade absoluta:
eu morreria em tua ausência.
Não podes revelar-te em toda tua grandeza:
eu ficaria absorvido
no resplendor de tua glória.
Tu és o Senhor da justa proximidade
do sacramento necessário
que nos permite irmos fazendo-nos
sem tanto frio e noite
que nosso barro fique cru,
nem tanto sol e meio dia
que teu fogo nos calcine.
Benjamin Gonzalez Buelta