Mas a história ainda se lembra de seu silêncio sobre o nazismo

Foto: Roberto Taddeo - Flickr

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25 Setembro 2018

Do século XI ao XIX, a Igreja latina canonizou raramente os papas. O pontífice, como teorizaram os reformadores gregorianos, é "santificado" em vida pela sua função e não havia nenhuma razão para adicionar a santidade que resulta do "processo". As exceções são muito poucas e lentas, como aquela que tornou santo São Gregório VII, em 1606, ou Pio V, em 1672, cem anos após sua morte. Então veio Pio XII e acabou com a prudência.

O comentário é do historiador italiano Alberto Melloni, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII, de Bolonha,  publicado por La Repubblica, 22-09-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o comentário.

Não tanto com a beatificação de Inocêncio XI, que morreu em 1689, quanto com a beatificação e canonização de Pio X, aquele que se convenceu de que os fermentos do início do século fossem uma super heresia "modernista": o Papa de sua juventude tornava-se o modelo de uma repressão teológica que nos anos 1950 atingiu os grandes teólogos do século XX católico e seus discípulos (até o jovem Ratzinger, cuja tese não foi publicada por isso).

Durante o Concílio Vaticano II, houve uma pressão para proclamar no concilio a santidade do Papa Roncalli, trancada pela "ameaça" de um milhão de assinaturas por exigir aquela de Pio XII. O que, além de suas indiscutíveis virtudes privadas, teria trazido três resultados: transformá-lo no protetor do anticoncílio, ao qual recorrer contra o Papa reinante; usá-lo contra aquela linha do documento Nostra Aetate que condena o antissemitismo "em todas as épocas"; reivindicar o ostracismo para a história sobre o que o próprio Pacelli definiu de "meu silêncio sobre o comportamento dos Alemães" durante a guerra.

Paulo VI resolveu anunciando dois processos ordinários, colocando um na sequência do outro. Foi Wojtyla quem "desbloqueou" Roncalli, beatificado no Jubileu com Pio IX e canonizado por Francisco juntamente com o próprio João Paulo II. E que criou aquela sequência dos "papas santos", em que também acabarão Ratzinger e Bergoglio: e que agiganta a questão do excluído Pacelli, de quem em 2010 foram reconhecidas as virtudes heroicas, mas que não é beatificado porque seria ainda usado para aquelas três finalidades.

Hoje, tudo - até mesmo a edição de documentos publicados por um arquivista rigoroso como Ickx, que confirmam o que já John Pollard havia estudado e os dados descobertas no grande encontro sobre Bento XV organizado por Giulia Grossi e Giovanni Cavagnini para a Arquidiocese de Bolonha - corre o risco de ser visto como uma contribuição para a aceleração ou retardamento da causa Pacelli.

Foi assim quando Uri Bialer estudou a posição de Pio XII sobre o nascimento do Estado de Israel; quando foi investigado o destino das crianças judias da França restituídas por Roncalli à fé dos pais; quando Emma Fattorini comparou o registro espiritual de Pio XI no momento de sua morte e do seu sucessor diante das leis raciais.

Quando a causa Pacelli será concluída, os aparvalhados simplistas que imaginaram o "papa de Hitler", esquecendo o profundo antissemitismo dos cristãos, e os prolíficos inventores do Papa "que salvou os judeus" poderão se acalmar e deixar que a história trabalhe em questões sérias. Tentar fazer com que os documentos de 1917 publicados por Ickx contem verdades sobre 1939 é jogar tarô com os arquivos. Mas a história é outra coisa.

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