A infeliz viagem de João Paulo II ao Chile em 1987

Foto: Pompi/Pixabay

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17 Janeiro 2018

Agora que o Papa Francisco está prestes a começar sua 22ª viagem internacional ao Chile e ao Peru, vem-me à mente a primeira e única visita que um pontífice fez ao Chile.

A reportagem é de Antonio Pelayo, publicada por Vida Nueva, 15-01-2018. A tradução é de André Langer.

Nunca vou esquecer os dias 2 e 3 de abril de 1987, que a história já imprimiu em suas páginas. João Paulo II quis comemorar o sucesso da mediação papal na controvérsia entre o Chile e a Argentina sobre a zona austral que impediu uma guerra entre os dois países. Esse foi o motivo da viagem que começou no dia 31 de março de 1987, com destino ao Uruguai, país onde as negociações aconteceram, e depois ao Chile e à Argentina, de onde retornou a Roma em 13 de abril.

A etapa mais discutida foi a do Chile, onde o ditador Augusto Pinochet seguia desafiando a comunidade internacional com suas atrozes malfeitorias e sua constante violação dos direitos humanos mais fundamentais.

O Papa Wojtyla  chegou a Santiago do Chile, vindo de Montevidéu, às 16h do dia 1º de abril. Para recebê-lo no aeroporto, acorreu o sinistro general com sua esposa Lucia Mirtarte, acompanhados pelo arcebispo da capital, o cardeal Juan Francisco Fresno, e o núncio apostólico, Angelo Sodano. Após uma cerimônia protocolar, o programa previa uma celebração na catedral metropolitana e uma benção à cidade do Cerro de San Cristóbal, onde se encontra uma estátua da Imaculada Conceição.

Encontro com Pinochet

Como em todas as viagens pontifícias, estava previsto um encontro entre o Papa e o chefe de Estado do país que visita. Neste caso, esse ato tinha sido definido para acontecer às 8 horas no Palácio de La Moneda (reconstruído depois da destruição que sofreu em 1973 pelo bombardeio da Força Aérea), onde morreu o presidente Salvador Allende.

Desde as primeiras horas do dia, pude ver da janela do meu hotel como a Praça da Constituição ia se enchendo com uma multidão que chegava em ônibus; eram todos adeptos muito fiéis ao regime.

O Papa chegou um pouco depois das 9 horas ao La Moneda, que a partir desse momento tornou-se uma casa de vidro onde todos os passos e movimentos eram registrados e transmitidos ao vivo pela televisão nacional.

A armadilha da sacada

Após o encontro privado com Pinochet, João Paulo II foi convidado a percorrer os corredores do Palácio; ao chegar a um deles, um assessor presidencial sugeriu-lhe se queria ir à sacada para ver o espetáculo da Praça. Não sabendo da armadilha que estava sendo preparada para ele, o Papa aceitou, e quando apareceu na sacada a multidão explodiu em aplausos a ele e a Pinochet, que estrategicamente se pôs do seu lado e não cabia em si de tanto contentamento com seu triunfo midiático.

Essa imagem deu a volta ao mundo e provocou comentários muito negativos para o Santo Padre. O jesuíta Roberto Tucci,  que na época organizava as viagens do papa, já como cardeal confessou que semelhante falha nunca havia sido perdoada; a lendária cautela do Vaticano sofreu uma derrota muito amarga.

A polícia reprime durante a missa

Para o dia seguinte, sexta-feira, 3 de abril, estava prevista uma missa, durante a qual seria beatificada a Madre Teresa de los Andes. O cenário previsto era o Parque O'Higgins – pai da pátria chilena – e o tema escolhido para esta Eucaristia campal era a reconciliação.

Mal o Papa entrou no local, cerca de 300 militantes do MIR (Movimento de Esquerda Revolucionária) entraram com cartazes que diziam "Santo Padre, no Chile se tortura", e começaram a atirar pedras nos jornalistas e a fazer fogueiras com material recolhido no próprio Parque. A reação da polícia foi brutal, e para reprimir e dispersar os manifestantes fez abundante uso de gás lacrimogêneo.

A multidão entrou em pânico e se concentrou nas proximidades do altar, onde Wojtyla já tinha dado início à liturgia eucarística, enquanto o tumulto crescia e se podiam ouvir rajadas de metralhadoras. Os gases chegaram ao altar e, em um dado momento, pensou-se em evacuar o Papa, a quem seu médico, Renato Buzzonetti, teve que fornecer um lenço com sais para neutralizar os efeitos do gás lacrimogêneo; o teimoso polonês, no entanto, resistiu, e, aos trancos e barrancos, a missa pôde ser concluída, retirando-se ileso à sede da Nunciatura Apostólica.

O cardeal Fresno e o presidente da Conferência Episcopal do Chile, Bernardino Piñera, emitiram uma declaração na qual lamentavam o "atropelo da liberdade e a ofensa contra o Santo Padre perpetrados durante a celebração da reconciliação, desejo mais profundo da grande maioria do povo chileno".

O governo limitou-se a afirmar que cumpriu com seu dever de defender a multidão contra os sabotadores: o saldo final foi de 600 feridos e dezenas de detenções, com as consequentes torturas.

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